Uso de plantas medicinais fica mais seguro

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de criar normas rígidas para a produção e o uso de plantas medicinais teve boa repercussão. Apesar de seguras na maioria dos casos, elas podem causar danos graves à saúde, quando usadas em forma de folha, casca, raiz ou flor, de forma errada. Para especialistas, quanto mais cuidado melhor. Estudos já mostraram que a qualidade das plantas medicinais no Brasil — principalmente na forma de chás e no comércio menos formal — é ruim.

Diferentemente dos fitoterápicos — medicamentos obtidos de plantas e fabricados em cápsulas, xaropes e comprimidos — só agora as chamadas drogas vegetais ganharam resolução própria, o que deve aumentar a segurança dos consumidores, segundo especialistas.

E mesmo sendo dirigida à indústria, a resolução, publicada na última quinta-feira, traz informações essenciais para as pessoas que consomem plantas medicinais. O anexo no site (www.anvisa.gov.br) lista as 65 espécies mais usadas no país (a maioria brasileira). São dados de nomenclatura, posologia e modo de usar, contra-indicações, efeitos adversos etc. Segundo Ana Cecília Bezerra Carvalho, coordenadora de fitoterápicos da Anvisa, as recomendações sobre as plantas medicinais foram feitas após as análises de estudos e revisões bibliográficas com participação de pesquisadores em universidades e ainda por consulta popular.

Para selecionar as plantas, foram levados em conta a citação de eficácia das espécies em livros e publicações científicas (pelo menos três), inclusive de prefeituras e institutos (como a Fundação Oswaldo Cruz), que mantêm hortas comunitárias e farmácias vivas.

E ainda material da biblioteca da própria Anvisa. Nenhuma das plantas relacionadas foi testada em laboratório: — As pessoas que compram as drogas vegetais em farmácia já encontram esses produtos prontos, e agora eles ganham uma resolução específica.

Isso vai evitar problemas como, por exemplo, a perda de substâncias no armazenamento inadequado e contaminação das plantas por fungos, bactérias e até mesmo areia.

Crianças só podem tomar a partir de 3 anos Uma preocupação da Anvisa é a posologia. A agência explica, por exemplo, como a droga vegetal deve ser consumida, se criança pode tomar. É preciso ficar atento porque as plantas só devem ser usadas a partir de 3 anos. Inexistem estudos em crianças abaixo desta faixa etária.

— O grupo de 3 anos a 7 anos só pode usar 25% da dose de um adulto. A faixa de 7 anos a 12 anos pode tomar a metade da dose indicada aos adultos; o mesmo vale para idosos acima de 75 anos. Muitos consumidores desconhecem isso e abusam. Há mães que oferecem uma mamadeira inteira de chás — diz Cecília.

A Anvisa chama a atenção ainda para as plantas com histórico de complicações, quando mal usadas, como a quebrapedra. E reforça que as espécies citadas servem apenas de auxílio contra males sem gravidade.

O médico Alex Botsaris, diretor do Instituto Brasileiro de Plantas Medicinais (IBPM) e da equipe do Programa Estadual de Plantas Medicinais (SES/RJ), aprova a resolução.

Ele cita um estudo da década de 90, feito pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), mostrando que, de cada dez amostras de chás e plantas medicinais no comércio, sete apresentavam algum problema sério de qualidade. Os principais foram: fezes de animais, ovos de vermes, pedaços de insetos, contaminação por bactérias e fungos e troca da espécie vegetal (o que era vendido não correspondia ao rótulo).

Num outro estudo com espinheirasanta (Maytenus ilicifolia), mais de 65% das amostras coletadas no comércio eram de outra espécie. A maioria era Sorocea bomplandi, planta com toxicidade significativa que pode causar hepatite.

— Grande parte das plantas medicinais de uso corrente e que está nessa nova lista da Anvisa tem um nível de segurança muito bom. A toxicidade é baixa, inferior a de medicamentos de venda livre como analgésicos em geral. Entretanto, se não houver ética, técnica adequada e cuidados no preparo, os riscos aparecem — alerta Botsaris.

Por exemplo, o guaco (Mikania glomerata) é excelente para bronquite e seria seguro até em bebês, segundo Botsaris.

Porém, se a pessoa deixa o guaco se contaminar com fungos, eles causam reação na molécula cumarina, formando dicumarol, um potente anticoagulante.

E há casos de crianças que tomaram produtos de guaco feitos com a erva contaminada e tiveram sangramento espontâneo pelo nariz e por vias digestivas.

— Esse problema ainda ocorre. Com a nova resolução da Anvisa, é possível que comece a acabar — afirma. — É um primeiro passo para buscarmos produtos com maior qualidade e segurança.

Risco é baixo, mas podem ocorrer sérios danos Botsaris afirma ainda que as pessoas pensam que planta medicinal não faz mal. Isso ocorre porque na maioria dos casos elas têm segurança boa, ou seja, a quantidade tóxica é muito superior à dose terapêutica.

Para ilustrar, a dose tóxica da carqueja é cerca de 40 vezes superior à terapêutica, e mesmo assim ela vai causar apenas náuseas, vômitos e diarreia. E se o mesmo acontecer com fármaco convencional, isso provavelmente será fatal.

Mas nem sempre as plantas medicinais possuem esse nível de segurança, alerta o médico. O confrei (Simphytum officinale) — muito conhecido — contém alcalóides tóxicos.

É aplicada como cicatrizante, e um dia alguém inventou que ela também cicatrizava as artérias, prevenindo assim doença cardíaca. O uso indiscriminado para proteger o coração provocou vários casos de doença no fígado: — Até o Ministério da Saúde proibiu o uso interno de confrei, mas até hoje há pessoas que a utilizam dessa forma — Outro problema é que os médicos possuem um nível baixo de informação sobre os fitoterápicos e não estudam as plantas medicinais na faculdade, como devia ser.
Autor: Antônio Marinho
OBID Fonte: O GLOBO