Alcoolista corre risco se usar remédio

Mas além de não valer para todos, a receita usada pelo médico pode trazer sérios riscos à saúde. Segundo o especialista em dependência química e professor de Farmacologia da Ufes, Roney Oliveira, o medicamento pode ter alguma efetividade em algum grupo de pacientes, por reduzir a ansiedade, mas o tratamento não é apropriado.

“Há tipos diferentes de alcoolista. Há aqueles que têm disposição genética, outros que bebem para reduzir a depressão. Quem bebe para combater a ansiedade pode se beneficiar, assim como com qualquer outra droga que age no sistema nervoso central, mas por períodos curtos”, explica o médico.

O especialista também alerta para a automedicação. “Esse médico tomou altas doses do remédio, e os efeitos colaterais podem trazer vários danos à saúde. Multiplique pelo menos em cinco vezes efeitos como sonolência, confusão mental, vertigem, intolerância gastrointestinal e fraqueza muscular”, afirma.

Sozinho

Ameisen, renomado cardiologista, começou a testar o remédio em si próprio. Ele defende que o bacoflen permite o uso controlado do álcool, tornando o consumidor um bebedor social como qualquer outro. O remédio age em uma das mais substâncias associadas ao vício, o neurotransmissor GABA, simulando a ação do álcool. O baclofen reproduz essa química, engana e satisfaz o cérebro e, com isso, o consumo pode ser controlado ou extinto, diz o médico.

Entenda o caso

Polêmica: Um médico lançou uma polêmica na França ao alegar em um livro que pode ter descoberto a cura para o alcoolismo. Olivier Ameisen alega que ele mesmo conseguiu abandonar o vício usando uma droga chamada baclofen. Sua experiência com o medicamento está narrada no livro Le Dernier Verre (O Último Copo), best-seller na Europa e nos Estados Unidos

Dosagem: Em março de 2002, o médico começou a testar a droga em si, com doses diárias de cinco miligramas. Gradualmente, aumentou para a dosagem máxima de 300 miligramas diariamente e, então, se viu “curado”. Hoje, usa, de 30mg a 50 mg por dia

Médicos: Apesar do sucesso narrado por Ameisen, o uso do medicamento para o controle do consumo de álcool ainda não obteve aprovação das autoridades mundiais de saúde

Prevenção ainda é melhor saída, orienta médico

No Brasil, 30 milhões de pessoas abusam do álcool e estão a um passo de se tornarem dependentes, por isso, a melhor maneira de combater o alcoolismo é a prevenção, orienta o coordenador do Núcleo de Estudo do Álcool e Outras Drogas da Ufes, Vitor Buaiz.

“Deveria haver uma fiscalização mais rigorosa do Poder Público, principalmente com relação a venda de bebidas para os jovens. Os pais também não devem incentivar os filhos a beber, mas isso ainda acontece muito”, alerta o médico.

O especialista também destaca que o tratamento de combate ao alcoolismo deve ser feito de forma multidisciplinar e depende de uma série de fatores, que incluem a família.

“O tratamento no Hospital das Clínicas já existe há 15 anos e é um trabalho com a participação de médicos, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. É preciso tratar o paciente como um todo”, afirma Buaiz.

Os especialistas mantêm o ceticismo sobre o baclofen, advertindo para o perigo por trás das chamadas “curas milagrosas”. “Não é um simples remédio que vai curar a doença. O paciente precisa estar engajado e ter uma disciplina rigorosa”, alerta o médico.

Tema será debatido em simpósio

A dependência química estará em debate no I Simpósio Internacional, que terá como assunto principal o Córtex Pré-frontal. O evento começa hoje e vai até amanhã no auditório da sede da Unimed Vitória, que fica na Avenida César Hilal, 700, no bairro Bento Ferreira, em Vitória. O evento também vai abordar pesquisas sobre tratamento para disfunções cerebrais, como depressão, autismo, déficit de atenção, esquizofrenia e até dores crônicas.
Fonte:A Gazeta/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)