Entrevista com MSc Luciana Roberta Donola Cardoso – Álcool e HIV

MSc Luciana Roberta Donola Cardoso, Psicóloga da Unidade de Dependência Química do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

1. Quais são os fatores que associam o uso do álcool à infecção pelo HIV?

O consumo de bebidas alcoólicas está associado à redução da ansiedade. Algumas pessoas ao beber pode se sentir menos inibido e facilitando as relações sociais. Também há uma crença de que o consumo de bebidas alcoólicas antes e/ou durante o ato sexual poderia aumentar o prazer, favorecer um desempenho sexual desejável e facilitar certos atos referidos como difíceis de serem realizados sem o efeito do álcool. Entretanto, sabe-se que pessoas que consomem bebidas alcoólicas têm duas vezes mais chance de contrair HIV do que pessoas que nunca consumiram esta substância. O consumo de álcool tem sido associado a trocas freqüentes de parceiros sexuais, sexo em troca de dinheiro, maior número de parceiros casuais, sexo não desejado, prática de sexo em grupo e prática de sexo anal, oral e/ou vaginal sem preservativo com parceiros fixos e/ou casuais, o que aumenta o risco de infecção pelo HIV.

2. Como os transtornos relacionados ao uso de álcool afetam a adesão ao tratamento de um indivíduo HIV-positivo?

O uso de álcool pode interferir de diversas formas na efetividade do tratamento antiretroviral: usuários de álcool tendem a manter estilos de vida mais instáveis, tem menos suporte social, seguem menos os agendamentos, utilizam serviços de emergência com freqüência, são pouco tolerados por profissionais de saúde e estão mais sujeitos a comorbidades clínicas e psiquiátricas. Há estudos que mostram que o número de células CD4 era menor e a carga viral era maior em indivíduo que consumiam bebidas alcoólicas do que naqueles que não consumiam. Há também relatos de que o álcool pode aumentar os níveis séricos de abacavir e amprenavir. Essas duas medicações são utilizadas no tratamento da infecção pelo HIV. O aumento dos níveis séricos está associado com um maior risco de efeitos colaterais decorrentes ao uso dos antiretrovirais. Além disso, a relação entre alguns anti-retrovirais, como a didanosina, pode potencializa a toxicidade desta substância, aumentando o risco de desenvolvimento de pancreatite nos pacientes que estiverem utilizando esta medicação.

3. Existe alguma relação entre a quantidade de álcool consumida e o risco de ser infectado pelo vírus HIV? O risco é o mesmo entre os bebedores que fazem uso leve, moderado ou pesado de álcool?

O padrão de consumo ainda é uma característica em discussão quando se relaciona álcool e comportamento sexual de risco. Alguns estudos afirmaram que pessoas que fazem uso pesado de álcool, episódico ou não, têm mais chance de se envolver em comportamento sexual de risco do que aquelas que não apresentam esse padrão de consumo. Entretanto, outros estudos mostram que mesmo o consumo moderado e/ou pouco freqüente também tem sido associado ao sexo sem preservativo.

4. Qual são os tratamentos/intervenções mais eficazes para indivíduos HIV-positivos que são dependentes ou fazem o uso nocivo de álcool?

O tratamento para a dependência do álcool é igual para os indivíduos que vivem e aqueles que não vivem com HIV. As intervenções para o tratamento da dependência do álcool englobam farmacoterapia e psicoterapia. As intervenções psicoterápicas geralmente são baseadas em entrevista motivacional, intervenção breve, prevenção de recaída e terapia comportamental e cognitivo-comportamental. Além disso, estudos mostram que pacientes submetidos ao tratamento para abuso e/ou dependência de substâncias tem reduzido comportamentos de risco em pacientes HIV+ e aumentado a adesão ao tratamento antiretroviral.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool