Sente-se refém emocional de um dependente químico? Saiba o que fazer

por Danilo Baltieri

Trabalho numa comunidade terapêutica para dependentes químicos. Namoro um deles. Ele resolveu sair da comunidade se dizendo preparado. Mas não demorou muito e recaiu. Ele tomou uma overdose e quase morreu. Eu não o abandonei nesse momento e fizemos novos planos. Entretanto, uma pessoa ligou anonimamente para minha mãe e contou tudo a ela, que já é idosa. Ela exige o fim do namoro. No entanto, não sei como fazer isso, pois temo que ele faça uma besteira e atente contra sua vida.

Resposta: O sistema de “co-dependência” segue passos bastante similares ao processo da “dependência” propriamente dita. A “co-dependência” começa com crenças ou sistemas de crenças distorcidas sobre si mesmo, relacionamentos, necessidades e também algumas vezes sexualidade. Essas crenças geram prejuízo na organização do pensamento, comprometendo a percepção do que é correto, honesto e verdadeiro. Dessa forma, embora o indivíduo “co-dependente” acredite que esteja ajudando ou tentando ajudar o “dependente” a melhorar de sua doença, acaba por fazer exatamente o contrário, dentro de uma vinculação afetiva patológica.

Entenda, na prática, a co-dependência

Muitas vezes, o indivíduo “co-dependente” deixa de vivenciar seus princípios e crenças básicos, para adotar outros completamente inadequados em função do ente querido dependente. Algumas das estratégias adotadas pelos co-dependentes são:

a) desprezar as suas próprias intenções e desejos para satisfazer as do outro;

b) desconsiderar comportamentos do outro que lhe são extremamente lesivos;

c) acobertar comportamentos inadequados do outro;

d) aparentar satisfação, quando não está de fato gostando do que está acontecendo;

e) evitar conflitos para manter as aparências e o relacionamento;

f) permitir que seus próprios princípios morais básicos sejam ultrajados;

g) acreditar que as suas próprias opiniões são sempre secundárias à opinião do outro;

h) culpar-se pelos problemas do outro.

O “co-dependente” passa a acreditar que a sua vida é imutável e que as suas ações devem satisfazer todas as necessidades do “dependente”, à revelia das suas próprias necessidades. O “co-dependente” passa a revelar alguns sintomas, tais como:

a) negligência de aspectos importantes da sua vida;

b) perda de amigos;

c) sonhos incomuns;

d) mudanças no apetite e no padrão do sono;

e) acidentes, doenças, machucados constantes devido ao estilo de vida extremamente estressante;

f) tentativas ou pensamentos suicidas;

g) problemas financeiros;

h) problemas no trabalho;

i) aceitação como suas das responsabilidades e dos deveres do “dependente”;

j) vivência de comportamentos degradantes ou humilhantes.

Seguramente, o “co-dependente” sente-se como “refém emocional do outro”. Os próprios desejos, opiniões, vontades e ambições ficam para um segundo plano. Também seguramente, os comportamentos e crenças do “co-dependente” não serão úteis para o “dependente” nem tampouco para o “co-dependente”.

Você deverá romper o seu padrão atual de comportamentos e crenças, tanto para promover o seu bem-estar quanto para que o outro consiga resultados satisfatórios com um tratamento adequado. Você deve procurar um tratamento médico com profissional altamente especializado na matéria. Não se trata de um processo fácil, mas é altamente necessário e urgente.

Também acredito que o início deste relacionamento possa não ter sido adequado. Se o seu atual namorado foi seu paciente, algumas implicações emocionais e também éticas podem incrementar a natureza problemática desse relacionamento. Não me aprofundo neste tema aqui, uma vez que acredito não ser o cerne da sua pergunta. No entanto, diante do que foi exposto, proponho que a procura por um tratamento com profissional especializado deva acontecer muito em breve. Não perca tempo!
Fonte:Vya Estelar/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)