Especialistas divergem sobre efeitos do chá do Santo Daime

Professor diz que substância pode ser nociva; adepto conta que a bebida reabilita

Amigos e parentes do estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, apontam que a ayahuasca – substância alucinógena usada no prepardo do chá da doutrina Santo Daime – agravou quadro de problemas psicológicos do rapaz. Dois especialistas consultados pelo R7 divergem sobre o assunto.

O professor titular de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Ronaldo Laranjeira afirma que é plausível a tese de distúrbios acentuados pelo consumo dessa droga. Segundo ele, o uso contínuo da substância pode provocar mudanças no comportamento do usuário. Para o especialista, é evidente que Cadu sofria de problemas patológicas mentais, mas ainda é cedo para determinar se isso foi fator determinante no momento do crime.

– Um perito deverá avaliar se ele estava em si durante o ato. Isso é que vai ser determinante.
Para o especialista, pacientes com psicose tendem a ter emoções extremas com pessoas próximas.
– Assassinatos frutos de surtos psicóticos não são aleatórios. Geralmente, afetam pessoas próximas.

Já o diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo, Anthony Wong, discorda da opinião de Laranjeiras. Para ele, a ayahuasca não gera sequelas permanentes. Proibir a ayahuasca é como proibir o consumo de vinho ou o uso de incenso nas religiões, segundo Wong.
— Eles [os religiosos] usam a ayahuasca como um instrumento, não como fator principal da celebração.

Entretanto, o especialista diz acreditar que drogas como cocaína e maconha possam ter gerado danos permanentes em Cadu. Sem analisar o prontuário médico do rapaz, ele afirma que o suspeito pode ter tido um surto psicótico na hora do crime.

Reabilitação

O dirigente do grupo Peregrinos de Gaya – que usa a ayahuasca durante suas celebrações, Renato Saretto, também discorda de Ronaldo Laranjeira. Segundo ele, há métodos de desintoxicação e reabilitação que usam essa substância alucinógena. A instituição Takiwasi, no Peru, é um desses locais de reabilitação, onde dependentes de álcool, tabagismo e químicos buscam ajuda por meio da ayahuasca.

Sobre o assassinato, Saretto diz que é o primeiro caso que ele conhece de um membro de uma religião que usa a ayahuasca matar outro desde que começou a celebrar a bebida, há 12 anos. Ele chegou a frequentar a Céu de Maria, igreja cujo líder era cartunista Glauco. Saretto diz que, antes do consumo, é importante fazer uma entrevista para conhecer quem se candidata a tomar a substância.
– Desaconselhamos o uso de outras drogas e alertamos quem toma antidepressivos a parar [de tomar a ayahuasca] por um tempo.

Legalização

A utilização da ayahuasca é permitida pelo Conad (Conselho Nacional de Política sobre Drogas) em rituais religiosos desde 1986. Em 2006, após novos questionamentos sobre os efeitos do chá, um grupo de trabalho reavaliou e, novamente, aprovou o uso da bebida durante os rituais de fé.

O grupo, porém, fez algumas recomendações como não permitir o consumo do chá por pessoas com histórico de transtorno mental ou que estiverem sob efeito de bebidas alcoólicas e outros substâncias psicoativas. Também foi recomendado que os novos participantes sejam orientados a ficar no local do ritual até que os efeitos da ayahuasca passem.
Autor:João Varella e Camilla Rigi, do R7
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas