Bebida potencializa doença psíquica

O uso de alucinógenos, como o Santo Daime, no caso de indivíduos que os psiquiatras classificam como “vulneráveis”, com tendência à depressão, à esquizofrenia ou à psicose, aciona o gatilho para o surgimento ou o agravamento da doença, que pode estar adormecida, em estado latente, ou com poucas manifestações. No caso de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o assassino do cartunista Glauco Vilas Boas, o rapaz mostrava sinais de esquizofrenia: ele acreditava ser a reencarnação de Jesus Cristo.

– Na esquizofrenia, o sujeito acredita em fatos que não fazem sentido. Pode acreditar, por exemplo, que é outra pessoa, ou que tem uma missão especial – diz o psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas.

O Santo Daime contém a substância alucinógena dimetiltriptamina, que torna mais graves casos pré-existentes de esquizofrenia.

– E, embora o efeito agudo da droga dure cerca de 24 horas, o usuário pode ter o que se chama flashbacksdias depois de ingerir a substância – comenta Carlos Salgado.

A esquizofrenia é uma doença hereditária. A mãe de Carlos Eduardo tinha diagnóstico da doença, assim como a tia-avó do rapaz. Em linhas gerais, a esquizofrenia consiste numa alteração no equilíbrio de neurotransmissores no cérebro, especialmente, a dopamina, explica Analice Gigliotti, psiquiatrachefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa da Misericórdia, no Rio.

Segundo ela, os alucinógenos, como o Santo Daime, agem justamente sobre os receptores dopaminérgicos do cérebro, potencializando este desarranjo químico: – Tomar o Santo Daime acentua a desorganização cerebral.

E faz até com que remédios antipsicóticos tenham efeito atenuado ou mesmo anulado.

Tanto Analice Gigliotti como Carlos Salgado frisam que desconhecem o, digamos.

prontuário médico de Carlos Eduardo, e que, portanto, não podem afirmar realmente que ele tinha esquizofrenia – ou só esquizofrenia.

– Ele nunca havia matado antes. Pode ter havido outras variáveis que o levaram ao crime – diz Salgado.

– Mas é evidente que ele matou porque estaca fora do seu juízo – completa Analice.

Carlos Eduardo, assassino confesso do cartunista Glauco, tem o perfil de um esquizofrênico e a maior evidência disso era o fato de se considerar a reencarnação de Jesus Cristo.

Filho de uma família de classe média alta de São Paulo, era usuário de maconha, segundo seus próprios parentes informaram à imprensa. Nos últimos três anos, vinha tomando o Santo Daime nos rituais da igreja Céu de Maria fundada pelo cartunista assassinado. Em depoimento à polícia, o rapaz disse ter bebido o chá todas as vezes em que participou dos rituais.

Segundo Carlos Grecchi, pai do assassino confesso, o filho vinha mostrando um comportamento alterado desde quando começou a frequentar os rituais. O rapaz não aceitou ser tratado numa clínica psiquiátrica.
Fonte:Jornal do Brasil/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)