Drogas chegam aos jovens cada dia mais cedo no Piauí

O álcool, o cigarro e as chamadas drogas ilícitas são inseridos no universo dos jovens cada vez mais cedo. O que começa com o simples ato de “experimentar” pode acabar em dependência, um caminho muitas vezes sem volta. O problema não escolhe classe social, afasta o adolescente da vida escolar e ainda revela o despreparo dos pais para lidar com a questão. A professora doutora em Serviço Social, Lúcia Cristina dos Santos, fala da necessidade de políticas públicas voltadas para a prevenção e não só para o tratamento, quando a dependência já está instalada.

Ela é autora de uma pesquisa sobre o assunto, realizada com 198 jovens, a maioria do sexo masculino. O levantamento foi realizado até 2007 e serviu para traçar o perfil do adolescente usuário de álcool e outras drogas no Piauí. Para a pesquisadora, se a pesquisa fosse repetida agora ela apontaria mudanças positivas e negativas. Entre as positivas está a implantação de mais unidades de tratamento, a exemplo das comunidades terapêuticas. Já entre as negativas está o aumento do consumo de craque, uma das drogas mais devastadoras.

“O álcool antes era visto como o principal vilão. No entanto, sua escala para dependência é lenta e progressiva, ao contrário do craque, onde a dependência se instala rapidamente. Antes, já era uma droga consumida, mas com menor intensidade”, diz. Lúcia fala ainda que a experiência proposta pela comunidade terapêutica “Fazenda da Paz” é inovadora ao envolver a recuperação de dependentes junto com a profissionalização. “O grande problema é esse: como preencher o tempo livre desses jovens? Como dar para eles um projeto de vida?”, questiona-se.

A pesquisa serviu para preencher uma lacuna existente e para ajudar na elaboração de políticas públicas. Os dados foram coletados junto às unidades de saúde, de assistência, comunidades terapêuticas e CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). Os jovens que participaram deste estudo já estavam com a dependência química instalada. Os dados mostram ainda que 58% dos usuários têm até 20 anos de idade. “Mas já identificamos crianças com seis anos, que já usavam drogas”, completou.

Apesar do segmento de baixa renda estar mais vulnerável, os jovens de classe média ocupam lugar de destaque em relação ao consumo de álcool e outras drogas. O consumo geralmente vem associado à evasão escolar, principalmente quando se trata dos mais pobres. 64% dos jovens pesquisados abandonaram os estudos no Ensino Fundamental. A pesquisadora diz ainda que, quando se trata do álcool, há certa conivência dos pais, reforçada por vários aspectos culturais. “Há pais que acham que o filho está virando macho porque já chega embriagado em casa”, diz.

Ela diz que hoje em dia o álcool está presente na maioria das ocasiões e que só é preciso um pretexto para beber. “Os maiores danos são causados pelo álcool, que é de fácil acesso. As outras drogas também já são facilmente encontradas, o que denuncia a falta de políticas públicas de segurança”, afirma. Muitos jovens, de acordo com a pesquisa, não têm referência paterna e são criados pela mãe ou mesmo pela avó. “Como o adolescente constrói sua masculinidade sem essa referência?”.

A professora destaca ainda a importância de um trabalho conjunto, onde a educação deve vir em primeiro plano. “Quando a família falha a educação deveria ser acionada, mas no Brasil é acionada a segurança pública, já se torna caso de polícia. Costumo dizer que a escola é escrita com X pois não cria vínculos com o aluno e é preciso que ela seja atrativa para o adolescente”. Para ela, há uma omissão do serviço governamental junto a esse público e o trabalho “duro” acaba ficando sob a responsabilidade das ONGs (Organizações Não Governamentais). “No máximo o Estado atua em casos de emergência, quando precisamos mesmo são de políticas mais incisivas na prevenção, qualidade de vida, nas relações familiares e nas opções de lazer”, complementa.

Lúcia diz que as meninas também se inserem cada vez mais nas estatísticas. No caso delas, o namorado ou o crime foi quem as influenciou. E são elas que estão mais vulneráveis, muitas se prostituem para manter o vício e têm mais dificuldade para saírem da dependência. “O que mudou neste período foram as possibilidades de tratamento e a inserção do craque. O Estado deve inovar em políticas voltadas para a prevenção e não trabalhar só com a dependência instalada”, sugere.

Prevenção às drogas não faz parte da cultura
O professor mestre em Biofísica e Fisiologia da Ufpi, Francisco Teixeira Andrade, defende que a prevenção primária sobre o uso e efeito das drogas ainda não faz parte da cultura das famílias e das escolas. Ele trabalha na área há pelo menos 25 anos e diz que a conscientização é a melhor forma de evitar o aumento no número de usuários de substâncias psicotrópicas.
Tal conscientização é trabalhada pelo professor na forma de palestras, voltadas principalmente para diretores e professores de escolas públicas e privadas. “São os educadores que podem e devem informar, alertar e observar os seus alunos quanto ao uso e ao perigo que levam essas substâncias que podem fatalmente levar o indivíduo à dependência e até à morte”, diz o professor, em trecho transcrito da revista Sapiência. O uso de tais substâncias causa uma série de efeitos, que atingem principalmente o Sistema Nervoso Central do indivíduo, produzindo alterações de humor, comportamento e depressão.

Francisco Teixeira chama a atenção para o uso das chamadas drogas lícitas: o álcool e o tabaco. Ele acredita que “separar álcool e fumo das demais drogas foi uma convenção social, porém, ambas estão incluídas no grupo das substâncias psicotrópicas causadoras de adição”. A adição é uma síndrome que abrange vários distúrbios e possui componentes irreversíveis. Porém, o professor diz que, por meio de tratamento adequado, é possível o resgate de funções perdidas pelo Sistema Nervoso Central, apesar de não ser possível apagar determinadas memórias. É aí que está o risco da recaída, que acompanha um ex-dependente.

O tratamento só é eficaz, segundo ele, quando há um equilíbrio entre fatores de risco e fatores de proteção. O dependente precisa conhecer primeiro o seu problema para promover uma mudança. Francisco Teixeira também coordenou uma pesquisa realizada em 2008, quando foram entrevistadas 901 pessoas, sendo 444 pais e 457 professores. Aproximadamente, 88% dos pais e 74% das mães dizem ter experimentado bebidas alcoólicas. Entre os professores, o percentual foi de 88% para o sexo masculino e 67% para o sexo feminino.

A pesquisa mostrou que mais de 30% não reconhecem o álcool e o tabaco como substância psicotrópica, mesmo sendo as mais consumidas.

Teresina é a segunda no consumo de álcool
Teresina é considerada a segunda capital do país no consumo de bebidas alcoólicas. “O álcool é a maior causa de aciden-tes e mortes. Metade das mortes violentas está ligada ao álcool.”, afirmou o médico hepatolo-gista Antônio Barros Filho.

O médico alerta ainda para o risco do consumo entre crianças e adolescentes, pois quanto mais cedo elas ingerirem bebidas alcoólicas maiores são as chances de se tornarem dependentes. Uma pesquisa recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que 72% dos adolescentes, entre 13 e 15 anos, já tomaram alguma bebida alcoólica. Muitas vezes esse consumo começa dentro de casa, com o incentivo dos pais. “É preciso estabelecer um controle social do álcool, pelo menos para evitar que crianças e adolescentes tenham acesso. Se a lei que proíbe a venda para menores fosse cumprida metade dos problemas seriam resolvidos”, completou.

Os homens ainda são maioria entre os alcoólatras, mas a proporção entre os sexos vem mudando nos últimos anos. “Antes, eram dez homens alcoólatras para uma mulher e hoje são três homens para uma mulher. Entre os adolescentes, não há mais nem essa diferença”, revela o médico. Ele explica que há inúmeros fatores que influenciam na dependência, entre eles há o histórico familiar. Aquelas pessoas que bebem e ficam com amnésia também devem ficar atentas, pois este também é um fator que pode apontar o risco da dependência alcoólica.

Quando a doença se instala, o mais complicado é admitir que ela existe. “O alcoólatra é o último a saber, pois ele não admite. Essa já é uma das características”, diz. E o médico ainda chama a atenção para o beber “socialmente”, já que muitas pessoas se enganam ao achar que estão bebendo dentro do padrão. “É preciso diminuir o padrão de consumo. Proibir não vai resolver. Bom seria que pelo menos as leis já existentes fossem cumpridas. Quem bebe, deve beber de maneira responsável, sem prejudicar sua vida e a vida do próximo”, ressaltou.

Além disso, quem bebe deve se submeter a exames periódicos, pelo menos uma vez ao ano. Um simples exame pode identificar com antecedência – e a tempo para tratar – uma inflamação no fígado, que pode evoluir para uma cirrose e para outras doenças mais graves.

Mobilização defende limpeza das lagoas da zona Norte
Representantes dos Fóruns das Pastorais Sociais se uniram à comunidade do bairro São Joaquim, na zona Norte, durante uma mobilização que ocorreu na manhã de ontem, em frente a lagoa Jim Borralho. O ato fez parte da programação da “Semana da Água” e saiu em defesa da limpeza das lagoas, que estão tomadas por lixo e aguapés. O tema da campanha é um convite à preservação do meio ambiente: “Salvar a terra e a água é salvar a vida”. A mobilização começou com um ato bíblico, seguido pela apresentação do grupo de consciência negra Abá, da Santa Maria da Codipi.

A programação da Semana segue até amanhã, quando uma nova mobilização acontece na praça Pedro II, a partir das 8 horas, em comemoração ao Dia Mundial da Água. O representante da Cáritas do Brasil, Carlos Humberto Campos, destacou que este será um momento de denúncias e depoimentos. Ele falou do descaso com que as lagoas estão sendo tratadas e pediu a união da comunidade para solucionar o problema. Os participantes da mobilização deram um abraço simbólico na lagoa. A intenção era também realizar um mutirão de limpeza na lagoa, mas o mesmo não aconteceu.

A ocasião serviu também para tratar do descontentamento de algumas famílias removidas da região, por conta do programa “Lagoas do Norte”. A presidente da Associação Centro de Defesa dos Direitos Sociais Ferreira de Souza, Lúcia Oliveira, afirma que a comunidade não foi consultada pela prefeitura, antes da implantação do projeto. A entidade trabalha com a garantia de direitos sociais. Lúcia diz que irá acionar o Ministério Público contra a prefeitura. “Antes do projeto deveriam ter ocorrido os fóruns para ouvir a opinião da comunidade, para que todos participassem da execução. Não houve diálogo”, diz.

Ela diz que na região há pessoas que dependem das lagoas para sobreviver, a exemplo de pescadores e horticul-tores. Essas pessoas, segundo ela, temem ficar sem uma fonte de renda. A estimativa é que cerca de 200 famílias já tenham deixado suas casas na região. Elas estão sendo levadas para o conjunto habitacional do projeto e para a Santa Maria da Codipi. Lúcia diz que está reunindo assinaturas dos moradores num abaixo-assinado. O projeto Lagoas do Norte envolve cerca de 13 comunidades da região.
Fonte:Diário do Povo/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)