Bomba de Verdade

Anabolizantes atraem jovens em busca do corpo perfeito; muitos usuários desconhecem perigos

“Não tenho medo de perder o braço, mas de ficar “frango”, diz Jonas*, 22, que usa “bomba” desde os 14 anos.
E “frango”, se você não sabe, quer dizer fraco.
A frase do jovem expressa bem o sentimento de quem recorre a essas substâncias em busca de um corpo forte em tempo recorde: ficar em forma é mais importante do que a própria saúde.
Há meses sem malhar, ele nem toma mais os anabolizantes esteroides, hormônios sintéticos que ajudam os músculos a crescer mais rápido.
Injeta nos bíceps um remédio veterinário comprado sem receita em pet shops e apenas aumenta o volume do braço.
“Se aplicar errado, o braço necrosa e tem que amputar”, diz, antes de dar uma risada.

William*, 18, é mais cauteloso. Ele está esperando parar de crescer para começar a tomar, já que os anabolizantes podem atrapalhar o crescimento.
“Quero tomar para melhorar meu corpo. É uma questão de autoestima”, diz ele. Apesar de afirmar estar satisfeito com seu físico, diz que “querer melhorar nunca vai ser ruim”.
Para ele, a vontade de tomar é combinação de pressa por resultado e curiosidade -coisas de gente da sua idade.
“Tenho muitos amigos que tomam. Muitos mesmo. Todos entre 18 e 20 anos.”
Jéssica*, 24, começou a malhar porque não gostava das pernas finas -“tinha vergonha de usar short”- e acabou gostando: virou campeã brasileira e sul-americana de levantamento de peso.
Ela diz que resistiu à “tentação”, mas que não foi fácil.
“Era louca para tomar “bomba”. É a coisa mais normal no meio [do esporte]. Mas eu tive um ótimo treinador, que me falava sobre os efeitos. Vi amigas se transformarem com o tempo, com voz grossa, criando barba, espinhas…”

Pressa e trauma
Para alguns, como Bruno*, 22, a experiência foi traumática. Aos 18, ele queria ficar forte. “Era epidemia aqui onde eu morava. Todo mundo malhava. E eu tinha pressa, né?”, conta.
Comprou duas ampolas de anabolizante injetável e aplicou-as em si próprio, uma por semana. “Não deu resultado.”
Depois comprou outro, em comprimidos. “Tomei um por dia, por duas semanas.” Aí o resultado apareceu. “Fiquei sete dias internado. Um em coma.”
O diagnóstico foi uma crise hepática aguda, causada pelo excesso de hormônios no sangue. “Nunca mais eu tomo”, diz.

Por causa de casos como esse, o deputado federal Capitão Assumção (PSB-ES) criou um projeto de lei no Congresso Nacional para tratar vendedores clandestinos de anabolizantes (veja ao lado) da mesma maneira que traficantes de drogas.
Mesmo que isso aconteça, a decisão entre saúde e beleza sempre vai ser de quem toma.
“Em pessoas mais jovens, os efeitos colaterais podem ser piores”, diz o especialista em fisiologia do exercício Paulo Zogaib, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
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*Nomes fictícios
Autor:Tarso Araujo – Folha de São Paulo
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas