Um em cada cinco atendimentos em centro para dependentes químicos do Guará é de usuários do crack

O brasiliense David* tem 33 anos. É formado, trabalha em três empregos e se dedica com zelo à filha. Até 2008, fazia uso esporádico de drogas. Gostava do ritual social da merla e vez ou outra usava LSD. Conseguia, ainda assim, manter a rotina com certo controle. De um ano para cá, a vida começou a desmoronar. A curiosidade o levou diante do crack, substância derivada da cocaína e de alto poder de destruição. “Ainda consigo manter as minhas coisas. Mas tenho certeza de que isso não vai durar muito”, lamenta.

David deixou as demais drogas para trás. Migrou para o crack, reforçando o perfil dos usuários na capital do país. Levantamento realizado pelo Centro de Assistência Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas (CAPSad) no Guará revela o avanço da droga na capital do país em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, maconha, cocaína, merla e drogas sintéticas. Dos 1.485 prontuários de pacientes em tratamento em 2010, 21,61% (321) se referem a dependentes das pedras. Índice preocupante se comparado a 2008. De 940 procedimentos em aberto naquele ano, 0,22% (2) eram por conta de crack.

A gerente da principal unidade de atendimento público a dependentes químicos do DF, Sônia Mochiutti, credita o cenário a pelo menos dois fatores: o poder avassalador da droga e a imposição dos traficantes candangos. “Percebemos que muitos pacientes usavam outras drogas antes de conhecer o crack e acabaram deixando elas em segundo plano. Também são comuns os relatos de quem teve dificuldade para encontrar a cocaína e a merla e usaram o crack por falta de alternativa”, afirmou. Do total de envolvidos com o crack, apenas oito não tiveram contato com outros entorpecentes.

O CAPSad do Guará concentra a maioria dos atendimentos a dependentes químicos realizados no DF. Recebe, em média, três novos casos de viciados em crack por dia — a maioria dos registros concentra histórias de alcoolismo. São homens e mulheres maiores de 18 anos, vindos de todas as regiões administrativas da capital do país em busca de tratamento público especializado. Moradores do Guará, de Ceilândia, Taguatinga e Samambaia lideram as estatísticas, mas há casos expressivos na Asa Sul, Asa Norte e no Núcleo Bandeirante.

No limite
Por conta do uso das pedras, boa parte dessas pessoas, oriundas das mais diferentes classes sociais, alcançam o CAPsad em situações-limite. Chegam por meio das emergências dos hospitais públicos, por indicações ou por ordens judiciais. Reúnem ainda uma série de distúrbios: perda de memória, oscilação de humor e dificuldade em manter laços afetivos. Os tratamentos são realizados por enfermeiros, psiquiatras, clínicos-gerais, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, psicólogos e farmacêuticos. Prova de que o problema não é mais exclusivo de segurança pública.

O crescimento repentino do crack no DF também provocou mudanças na própria assistência proporcionada pelo CAPsad. “Tivemos de nos adaptar ao avanço dessa droga, inclusive na questão dos medicamentos”, revelou a também enfermeira Sônia. Assusta, por exemplo, as consequências para o corpo de quem faz o uso prolongado da droga. Lesões no cérebro e transtornos mentais graves são algumas delas. “Em alguns casos, as sequelas são irreversíveis. Mas depende da quantidade e do tempo de consumo”, explicou a gerente do CAPsad no Guará.

Nas ruas
De consultas pontuais a planos terapêuticos intensivos, o CAPsad do Guará vive uma rotina quase solitária — há só mais um em pleno funcionamento no DF — para o resgate da cidadania de quem tenta se livrar da dependência química. A unidade ainda abre a possibilidade de aproximação e conforto familiar aos pacientes, encarados como essenciais para a tentativa de recuperação dos viciados. As reuniões ocorrem às quartas-feiras. A dona de casa Jussara*, 57 anos, acompanha os encontros por conta do filho de 20 anos.

O garoto se envolveu com o crack há um ano. E a família se afundou com ele. “Ainda não morreu por milagre de Deus. Eu estou em depressão profunda. Não consigo dormir, nunca sei o que vai acontecer com ele”, afirmou. A mulher perdeu as contas de quantas vezes ligou para o serviço 190, da Polícia Militar, em busca de informações sobre o paradeiro do filho — ele ficou quase uma semana desaparecido. O jovem também trocou objetos da própria casa por pedras. Até mesmo uma cama do tipo box recém-comprada pelo irmão mais velho.

Os parentes dele o localizaram uma vez a vagar pela área central de Brasília. Além de Ceilândia e Taguatinga, é a região onde estão concentrados pontos de uso e distribuição do entorpecente na capital do país. Locais como setores Comercial, de Diversões Sul (Conic), Hoteleiro Sul e Bancário Norte, além da Rodoviária do Plano Piloto, são conhecidos da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal por conta do problema, como denunciou o Correio em série de reportagens publicadas desde 2008 (leia Memória).
Fonte:Correio Braziliense/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)