Cocaína ganha status popular

Um perigo em forma de pó. Que provoca “barato” ao ser inalado. Tem multiplicada sua potência se aplicado na veia. A cocaína deixou de ser apenas a “estrela” das festas particulares dos mais ricos. Migrou também para as ruas, academias, boates e litorais badalados. Está mais próxima do que se imagina, infiltrada nas redes familiares e de amigos, até entre os mais insuspeitos. No começo da década, a matemática da cocaína começou a ser desenhada no estado: aumentou a oferta da droga, diminuiu o seu custo e mais pessoas passaram a comprar para consumir. Uma equação arriscada, principalmente para quem ainda é muito jovem. Pior ainda quando os pais não possuem informação suficiente sobre o assunto.

No último final de semana, um encontro entre cinco jovens, três deles universitários, para usar cocaína dentro de um motel em Olinda terminou na morte de um deles, Ionara Félix da Silva, 22 anos. A Polícia Civil ainda está investigando o caso e, segundoinformações do próprio grupo, os pais não sabiam que eles usavam drogas. “Os pais que têm filhos jovens e não acompanham o que os jovens fazem estão sendo negligentes. Os pais que acreditam que o filho não mente, sem checar, correm o risco de ser enganados”, raciocina o psiquiatra Içami Tiba, com 38 anos de experiência na área e com 20 obras publicadas sobre educação e drogas.

Aos 16 anos, Marcela (nome fictício) saiu de casa para morar sozinha. Queria independência financeira, ter direito de sair para onde quisesse. Aos 18, casou e viajou para a Itália. Naquele país, foi até o fundo do poço por causa da cocaína. De volta ao Brasil, após sete anos, foi presa no Litoral Sul do estado portando mais de 100 gramas do pó. Aos 25 anos, aguarda julgamento na Colônia Penal Feminina do Recife. Marcela ainda não saiu do ciclo degradante no qual entrou e sabe bem o quanto a cocaína “se oferece”, “conquista”. “Na Itália, a droga é usada muito mais abertamente. Mas depois que voltei ao Brasil, fiquei assustada com o que vi no Litoral Sul. O comércio está muito difundido”, ressalta.

Apesar de ainda ser comercializada a um preço considerado alto pela maior parte da população, uma grama custa R$ 50, e portanto consumida principalmente entre os que têm melhor poder aquisitivo, a facilidade de acesso à cocaína hoje é maior que nas décadas de 1980 e 1990. “Naquela época, a gente só encontrava pó na casa de amigos ricos. Hoje em dia já tem muita boca vendendo a droga. Tem até gente na rua oferecendo”, conta um ex-usuário, que pediu para não ser identificado.

Amanda (nome fictício), 31, chegou a cursar dois períodos de jornalismo em uma universidade particular do Recife. Para ela, o pó chegou junto com os amigos. No início, a droga era presenteada. Depois, a mesada do pai, com quem já não morava desde os 20 anos, viabilizava a compra. “Ele me dava estrutura financeira e claro que isso me ajudou”, confessa, lembrando do pai, um militar do exército já morto e considerado por ela superprotetor. “Me afundei nas drogas depois que ele morreu”, lamenta.

Aumento da oferta – Números do Departamento de Repressão ao Narcotráfico apontam que a apreensão de cocaína, pasta base de cocaína e crack vem aumentando em Pernambuco. Em 2007, foram 8 quilos; em 2008, 16 quilos e em 2009, 64 quilos. Este ano, o número já chegou a 31 quilos até agora. O crescimento, segundo o delegado Luís Andrey, tem relação com o fortalecimento do trabalho de repressão da Polícia Civil e com o aumento da oferta do entorpecente. “As pessoas que usam cocaína estão fomentando a violência no estado provocada pelo tráfico”, destaca.

Sinais imediatos do uso da droga

Em doses baixas, diminui a ansiedade e aumenta a euforia, hiperatividade, desinibição, autoestima e estimulação sexual

Com o aumento do uso, pode surgir disforia (pertubação da euforia), diminuição do juízo crítico, ideias de grandeza, impulsividade, hipersexualidade, excitação psicomotora, anorexia, diminuição da necessidade de dormir, ataques de pânico e quadros psicóticos maníacos

Após quinze minutos do uso, pode surgir diarreia, cãibras abdominais e vômitos sem nâuseas

Após vários dias seguidos usando a droga, a pessoa apresenta movimentos descoordenados, ranger dos dentes e da mandíbula (bruxismo), insônia, perda do impulso sexual, perda dos cuidados pessoais, ideias delirantes de perseguição, alucinações visuais e auditivas, além de convulsões, arritmia cardíaca, parada respiratória e pode chegar à morte

Sintomas do uso crônico de cocaína

Congestão nasal (como rinite), necrose e perfuração do septo nasal, hipertensão arterial, taquicardia, infarto agudo do miocárdio (coração), aneurismas, hemorragias intracranianas, atrofia cerebral, hemorragias cerebrais e crises convulsivas

Impotência no homem, alterações do ciclo menstrual, infertilidade e dificuldades orgásmicas na mulher

Fonte: Juventude e drogas: anjos caídos (Içami Tiba)
Fonte:Diário de Pernambuco/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)