Rompendo o círculo vicioso

“No Réveillon de 2008, com a família reunida, eu disse para minha tia que ia comprar um maço de cigarros na padaria. Peguei só o cartão de crédito. Comprei 1,8 mil reais de crack, fui para um hotel com uma amiga e fumamos por três dias. Depois, não tive coragem de voltar para casa, fui para o pronto-socorro e fiquei uma semana tomando soro. Estava muito debilitada. Surtei e tive de ir para um hospital psiquiátrico. Apareceram muitas feridas no meu rosto. Não me alimentava. Eu tenho um metro e setenta e seis. Fiquei com 42 quilos. Nas crises, arrancava meus cabelos”.

“Às vezes, eu pegava os 500 reais do meu pagamento e aparecia em casa depois de dois dias. Minha esposa, grávida, com uma filha recém-nascida, me pedia dez centavos para comprar um pãozinho e eu não tinha. Quando ela reclamava, eu a agredia. Certo dia, olhei para ela e minhas duas filhas – uma já estava com um ano e a outra era recém-nascida. Então, caí na real e falei: ´Meu Deus, a que ponto eu cheguei?´ Então, resolvi deixar o crack.”

“Eu perdi tudo nas drogas mais de uma vez. Cheguei a ficar dois anos e meio internado e, depois, voltei a trabalhar, estudar e me formei. Cheguei a ter um salário alto. Meu problema foi achar que eu já era dono do meu nariz e voltar a beber. Isso me levou a voltar também às drogas ilícitas. E quando eu não achava outras drogas que gostava, eu partia para o crack. Cheguei a um ponto que minha saúde tinha acabado. Acordava tremendo por causa do vício. Já estava perdendo minha profissão.”

Os relatos acima são, respectivamente, da estudante Ana Paula Figueiredo Cabelo, 25 anos; do serralheiro William de Almeida Damião, 30; e do técnico em calderaria Márcio Pontes, 33. Todos eles conseguiram abandonar o crack depois de terem chegado ao fundo do poço.

Segundo estimativas divulgadas pelo Ministério da Saúde, aproximadamente 190 mil brasileiros usam o crack. Mas esse dado, que se baseia em estudos do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), não contempla a enorme difusão recente dessa droga derivada da cocaína, que tem deixado perplexos o poder público e todos os setores da sociedade.

Epidemia

Os governos federal, estaduais e municipais ainda não têm serviços aptos para enfrentar o crack com a eficácia que a gravidade da droga exige (ela já é comparada a uma “epidemia” pelos especialistas). “O que vemos hoje é a falta de assistência dos serviços públicos em saúde mental e dependência química”, afirma o psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Segundo ele, é urgente a necessidade do aumento de vagas nos ambulatórios de atendimento psicossocial e de leitos em hospitais.

“Parece-me que os profissionais da saúde estão começando a estudar e a se preocupar. No atendimento ambulatorial, começa a haver uma atenção especializada para esse usuário. Mas não há ainda clínicas públicas para internação. Existem as clínicas privadas, para quem tem poder aquisitivo, e aquelas religiosas”, afirma o coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Segurança Pública da PUC-MG, Luís Sapori, que realiza uma ampla pesquisa sobre a droga, incluindo entrevistas com profissionais de saúde e dependentes atendidos nos serviços públicos.

Face ao avanço do crack, o Ministério da Saúde (MS) tem anunciado novos investimentos para ampliar e aperfeiçoar os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). A campanha de prevenção na mídia, lançada pelo MS em dezembro de 2009, é voltada para os jovens de 15 a 29 anos e aposta no alerta para que evitem a todo custo o primeiro uso da droga.

Esse enfoque é devido à forte capacidade de criar dependência e às trágicas consequências que o crack acarreta. “Nunca experimente o crack. Ele causa dependência e mata”, diz o slogan da campanha. Além disso, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), ligada à Presidência da República, está realizando pesquisas para identificar melhor o avanço dessa droga e capacitar profissionais da saúde para o atendimento aos usuários.

Ambulatórios públicos, hospitais universitários, centros interdisciplinares dedicados à pesquisa e ao atendimento, clínicas particulares e outras instituições têm dado apoio emergencial em larga escala a usuários que pedem socorro. É o caso do Núcleo Especializado em Dependência Química (Nedeq), do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, que conta com uma equipe de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, entre outros profissionais.

Trabalho

“A minha atuação entra nos casos em que a dependência deteriorou a capacidade de trabalho das pessoas. Procuramos resgatar nelas a capacidade de seguir rotinas, a memória, a criatividade e a tolerância ao esforço. Propomos também atividades de lazer autênticas para a busca do restauro em relação ao trabalho, pois com o crack elas não sentem mais prazer em outra coisa que não seja a droga. E algumas dessas pessoas, depois, nos telefonam dizendo que voltaram a trabalhar e estão sóbrias”, conta Luziana Maranhão, terapeuta ocupacional do Nedeq.

Uma experiência em nível educacional e preventivo se realiza no Estado de Tocantins. “A educação no Brasil precisava ser a prioridade, para que os jovens tenham perspectivas mais interessantes do que a droga. E isso não ocorre. Também a prevenção específica quanto às drogas não é uma prioridade. Se continuarmos assim, não vejo perspectivas de melhora”, enfatiza Ricardo Correa Ribeirinha, ex-usuário de crack e coordenador de prevenção às drogas da Secretaria Estadual da Juventude, que viaja pelo Tocantins dando palestras em escolas sobre sua experiência e motivando jovens a resistirem ou a abandonarem o vício.

Em suas palestras, Ricardo divulga o projeto pedagógico “Viver de Cara Limpa”, que articula família e escola no enfrentamento da droga e tem como subsídio a coleção homônima com três livros publicados pela editora Cidade Nova.

Família

“Há que se ter uma reformulação de vida dos adultos em nossa sociedade para que eles se redescubram como modelos. Na Fazenda, os jovens resolvem mudar mais por verem como a gente vive do que por ouvirem o que gente fala. Os educadores, pais e órgãos públicos devem perceber que o problema não vai se resolver com clínicas de recuperação, mas com pessoas que ofereçam valores autênticos que os jovens queiram seguir. Nesse aspecto, não há diferença entre as causas do crack e das outras drogas”, afirma Nelson Giovanelli Rosendo dos Santos, presidente e cofundador da Fazenda, e também membro do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).

Segundo o psicanalista José Evilázio Vieira, um dos coordenadores da Fazenda Esperança, para boa parte dos que na juventude ou na fase adulta recorrem às drogas não faltam apenas os valores, mas também o “ser compreendido, acolhido e levado a sério” em família, quando crianças. “Há pessoas que olham para a infância e se veem como ´ovelha negra da família´, ´aquele levado que mata a mãe do coração´.

E há ainda os que sofrem abusos, um peso difícil demais para ser carregado a vida toda. Então, quando essas pessoas chegam em certos ambientes fora de casa e se deparam com o sexo, a música e outras coisas que gostam, encontram, entre aspas, a paz. E o crack nesse contexto, entre as demais drogas, pelo prazer extraordinário que causa, é visto como o verdadeiro alívio para todos esses traumas. Alívio que, porém, tem efeito rápido. E logo elas querem mais”, explica o psicanalista.

Fé na prevenção

Além das instituições públicas e privadas que atuam na prevenção e na recuperação dos usuários de crack, existem as instituições religiosas. Segundo Paulina Duarte, secretária-adjunta da Senad, “pesquisas científicas vêm demonstrando que pessoas que frequentam alguma religião ou estão em busca de valores espirituais têm menos possibilidades de usar drogas e maiores chances de recuperação. Esses estudos constatam uma relação entre a religiosidade e o enfrentamento do estresse e de situações difíceis na vida, que são fatores de risco para o uso de drogas”.

O Senad mantém o projeto “Fé na Prevenção” para capacitar tecnicamente, por meio de cursos, voluntários e profissionais de entidades religiosas.
Há em todo o Brasil centenas de entidades ligadas a grupos religiosos que se dedicam ao combate e à prevenção às drogas. Uma delas é a Fazenda da Esperança (www.fazenda.org.br) que, em 27 anos de existência, recebeu mais de 15 mil pessoas que queriam deixar as drogas. O índice de sobriedade é de 80% para os que cumpriram o programa de um ano, baseado no tripé: trabalho, espiritualidade e vivência comunitária. A Fazenda tem sede em Guaratinguetá (SP) e dezenas de unidades no Brasil e em outros países.

Ajuda recíproca

A estudante de nutrição Ana Paula Figueiredo Cabelo (citada no início da reportagem), jovem de classe média alta, de Assis (SP), passou por dois anos de depressão profunda, quando perdeu a mãe em 2005. Trancou a faculdade, que cursava em Ubatuba (SP) – onde começara a usar drogas -, e voltou para Assis. Cocaína, maconha e depois o crack passaram a ser o alívio para essa situação. Em 2009, ela chegou à Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá, por indicação de um primo.

“Na Fazenda, descobri que o que me tiraria do crack era o amor às pessoas. E eu aprendi a amar sendo amada pelas meninas que moravam e trabalhavam comigo. Elas me ensinavam e até faziam para mim o trabalho pesado na roça, com enxada, até eu conseguir. Eu que nunca tinha trabalhado. Aqui, encontrei Deus, essa prioridade na minha vida, que me diz para amar a todos”, relatou Ana Paula.

Quando ia receber a primeira visita de seu pai na Fazenda, Ana Paula soube que ele havia morrido. Mais uma vez, a solidariedade e o amor das companheiras da Fazenda foi a força para a jovem “suportar a nova perda”. Ela foi ao enterro do pai e voltou à Fazenda para cumprir o período de um ano de prática do tripé proposto pela entidade – espiritualidade cristã, convivência fraterna vivendo os valores do Evangelho e trabalho – nitidamente expresso em sua experiência. Esse período deve se concluir dentro de um mês.

“Quando completar um ano, vou voltar para casa. Quero retomar a faculdade, que é uma paixão minha, mas na minha cidade, não em Ubatuba, que ainda pode representar influências ruins para mim”, diz a estudante, consciente de que a sobriedade será sempre um tesouro a ser guardado.
“Estou sendo curado até hoje e sempre evito locais como bares, que me lembram a droga”, afirma o serralheiro de Itapetininga (SP), William de Almeida Damião, que deixou o crack há 11 anos. “Meus pais eram separados e eu fui criado sem muito diálogo. Era muito levado, fugia de casa e ia empurrando essa mágoa para debaixo do tapete. Mas minha mãe me passou dois tesouros: honestidade e trabalho. Na adolescência, comecei a usar drogas e minha namorada engravidou. Minha mãe a trouxe para dentro de nossa casa, mas, um dia, me viu com droga e nos disse para sairmos de casa”, lembra.

A história de William, que 12 anos atrás, com 18 de idade, “torrava” o salário comprando crack, deixando a esposa e filhas com fome, começou a mudar quando, após chegar ao “fundo do poço”, por conselho da sogra, passou a frequentar o Centro de Apoio à Família (Ceafa). “Minha esposa, Michele, foi heróica permanecendo ao meu lado. Após todo aquele sofrimento, passamos a participar do Ceafa. Nesses 12 anos, outras pessoas do grupo deixaram as drogas. São como irmãos para mim e nós nos ajudamos a nos mantermos sóbrios. Mas o que não esqueço é que fui curado por Deus naquele dia em que deixei de ser ´cego´. Pude ´ver´ a minha família e tudo que eu estava jogando fora”, conta William, que hoje coordena o Ceafa e é proprietário de uma microempresa de fabricação e instalação de calhas com 15 colaboradores, incluindo a esposa dele.

Ligado à Associação Nossa Senhora Rainha da Paz (Anspaz), que tem unidades nos Estados de São Paulo, de Minas Gerais e do Ceará atendendo a centenas de jovens, adultos e crianças com trabalhos de internação e prevenção contra droga, o Ceafa emprega a mesma metodologia da Anspaz, baseada no trabalho, na vivência dos valores evangélicos, em grupos de partilha de vida e na vida de oração.

O técnico em calderaria Márcio Pontes, que perdeu tudo o que tinha por causa do crack, hoje coordena a unidade da Anspaz, em Boituva (SP), com 14 recuperandos. “Temos bons resultados porque o trabalho que fazemos aqui, não é só com o dependente. A família tem por obrigação frequentar os grupos de apoio também. Chamamos os familiares de ´codependentes´, pois eles também são, em parte, responsáveis pelo problema. Então, tanto os dependentes quantos os codependentes devem ser curados”, afirma Márcio.

Comunidade

“Aqui, nos primeiros quatro meses, a pessoa é ajudada por um ´padrinho´, um ex-usuário que a encoraja a ficar abstinente e a seguir o programa da casa. Depois, por mais quatro meses, ela é acompanhada pelo coordenador. Nos últimos quatro meses, ela passa a ser um ´padrinho´ e transmitir para um novo recuperando tudo aquilo que aprendeu”, explica Márcio, evidenciando uma lógica comum à Associação e à Fazenda da Esperança, na qual os recuperandos encontram forças para se manterem abstinentes ajudando outros menos experientes a fazê-lo.

“Sempre incentivamos as pessoas a não perderem o contato conosco e a voltarem aqui. Fazemos festas e as convidamos. Para que se mantenham afastadas da droga é muito importante que elas não se esqueçam da experiência de amor recíproco que fizeram aqui”, conclui o coordenador, que abandonou a profissão para dedicar-se somente à Anspaz: um testemunho concreto de que, em muitos casos, o crack não tem a última palavra.

Overdose de violência

Casos como o do usuário de crack de 26 anos que estrangulou uma moça de 18 no Rio de Janeiro; de um jovem de Vitória que espancou a mãe, a fim de conseguir dinheiro para comprar crack; e de uma mãe de Maceió que acorrentou a filha de 12 anos para que não fosse em busca da droga são apenas alguns entre dezenas de fatos cujo impacto midiático tem levado a medidas extraordinárias. O governo federal, por exemplo, anunciou, em fevereiro deste ano, a criação de um grupo de policiais especializados para reprimir a droga derivada da cocaína.

“Em forma de pedra e fumado num cachimbo, o crack atinge diretamente o pulmão, que é uma área grande, altamente vascularizada. Por isso, uma grande quantidade é absorvida no pulmão e muito rapidamente chega ao sistema nervoso central, ao cérebro”, explica a farmacêutica Solange Nappu, pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Por percorrer um caminho mais curto para chegar ao cérebro do que a cocaína injetada ou cheirada, o crack provoca um efeito mais poderoso, mais rápido e menos duradouro também.

Isso faz toda a diferença. Em busca de ter novamente esse efeito extraordinário, mas que passa rápido, o usuário procura logo e avidamente outra dose. “Quando não tem a pedra, usa todo o dinheiro que tem para comprar mais. Vende pertences pessoais e os da família para conseguir mais dinheiro e, por fim, passa a recorrer a crimes para ter como comprar o crack”, afirma João Emílio de Oliveira, chefe da Coordenação de Repressão às Drogas da Polícia Civil do Distrito Federal, responsável pela apreensão de crack feita em 2007.

“A alta quantidade de droga que atinge o cérebro provoca uma psicose. O ´craqueiro´ imagina ouvir vozes e pode desconfiar de familiares, companheiros de uso ou simplesmente pessoas que estão por perto, por exemplo, estão querendo matá-lo. E ele acaba atacando essas pessoas”, afirma a professora Solange. Ela explica que, além disso, perdendo tudo o que tem e até a capacidade de trabalhar, pela debilitação que o crack rapidamente provoca, o dependente torna-se mal pagador, atraindo a ira do traficante. Todas essas situações aumentam extremamente a violência em torno do crack.

Como o crack age no organismo?

. Ao ser fumado, o crack vai direto aos pulmões e rapidamente à corrente sanguínea e ao cérebro.

. Uma vez na corrente sanguínea, a droga circula por todo o organismo produzindo uma vasoconstrição (diminuição da quantidade de sangue) que afeta todos os órgãos, causando aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, sudorese, tremores, espasmos musculares, e podendo provocar até mesmo um infarto cardíaco.

. Além da intoxicação e outros danos físicos, o usuário da droga sofre perda de apetite e de peso, e fica mais exposto a contrair outras doenças – a utilização de cachimbos improvisados para o consumo crack tem provocado aumento da incidência de hepatite C.

. Como outras drogas estimulantes do sistema nervoso central, o crack causa um aumento na quantidade do neurotransmissor dopamina no cérebro. A dopamina está associada às sensações de prazer, recompensa e bem-estar, o que explica a sensação de euforia e aumento da autoconfiança da pessoa sob o efeito do crack. Alucinações visuais e auditivas, paranoia e convulsões são outros efeitos do crack no cérebro.

. O prazer obtido com o uso contínuo do crack acaba levando a um progressivo desinteresse pelas situações normais da vida, que costumam causar prazer e alegria, como por exemplo ir ao cinema com a namorada, praticar o esporte preferido, vibrar com a vitória do seu time de futebol ou festejar o filho que passou no vestibular.

. O aumento de agressividade, o surgimento de ideias paranoicas e a exaustão mental (a pessoa pode ficar dias sem conseguir dormir) levam à perda da consciência dos limites sociais. As consequências vão do maior envolvimento do viciado em brigas e acidentes de trânsito até atos violentos mais graves, como furtos e assaltos para conseguir dinheiro, envolvimento com o tráfico e assassinatos a fim de comprar a droga.
Fonte:Cidade Nova/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)