Entrevista com Ricardo Abrantes de Amaral – Uso e Dependência de Álcool

Ricardo Abrantes de Amaral, Médico Psiquiatra, Professor de Saúde Mental da Universidade Nove de Julho e Pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (PROGREA), Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

1. Foi divulgado o rascunho da 5ª. edição do Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Distúrbios Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-V). Quais foram as principais mudanças propostas sobre os transtornos relacionados ao uso de álcool?

A versão anterior do Manual, a 4ª edição incluía, entre os transtornos relacionados ao uso de álcool, o abuso e a dependência. No rascunho apresentado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) para o DSM – V encontra-se apenas o Transtorno por uso de álcool (Alcohol-use disorder) que, a partir de 11 critérios, define um padrão mal-adaptativo de uso da substância, levando a prejuízo clínico ou distresse significativo. Esse padrão pode ser classificado em moderado (2 a 3 critérios presentes) ou grave (4 ou mais critérios presentes). Portanto, admitem-se graus de comprometimento e não diferentes condições clínicas.

2. Neste rascunho do DSM-V, abuso e dependência do álcool estão juntos na categoria “Transtornos relacionados ao uso de álcool”. Quais os possíveis motivos dessa mudança?

O modelo anterior, chamado de bi-axial foi abandonado devido a achados de diversos estudos de validação dos critérios e de reavaliação desses critérios. Inicialmente, a validade do Abuso foi bem inferior à da Dependência e estudos posteriores mostraram que os sintomas dos dois quadros estavam associados, sugerindo a existência de um modelo mono-axial.

3. Com relação aos transtornos relacionados ao uso de álcool, qual a diferença do indivíduo que possui dependência fisiológica?

A dependência fisiológica se caracteriza pela presença de Tolerância ou Abstinência, que expressam clinicamente processos de neuromodulação de mediadores químicos do nosso Sistema Nervoso Central (SNC) e neuroadaptação das células do SNC em virtude do uso crônico de álcool. Indivíduos que não apresentam esses sintomas podem ter um padrão de uso de álcool em que essas modificações do SNC ainda não são tão evidentes ou clinicamente significativas.

4. Alguns estudos mostram que muitos dos indivíduos que fazem abuso do álcool não desenvolvem dependência. O senhor poderia falar um pouco mais a respeito?

A dependência é considerada uma condição multifatorial, assim, diferentes aspectos individuais e sócio-culturais estão envolvidos. Além da quantidade e da freqüência de uso de álcool, no desenvolvimento da dependência é preciso considerar conjuntamente a predisposição genética, a presença de fatores psíquicos, como outros transtornos mentais, a influência do ambiente e a disponibilidade do álcool.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool