Acesso fácil para drogas e celulares

Mães e mulheres de presos agacham-se, nuas, sob a expectativa dos seguranças que algo seja expelido dos seus corpos antes de se encontrarem com filhos e maridos nas principais penitenciárias do Rio Grande do Sul.

A humilhação é tolerada sob a justificativa de que se trata de um método eficiente para evitar o ingresso de celulares, drogas e armas nas celas – mas celulares, drogas e armas continuam entrando nas prisões.

Se as visitas têm seus corpos investigados, quem faz chegar às mãos dos apenados telefones móveis de última geração, com acesso à internet, maconha, cocaína, crack, revólveres e pistolas?

Denúncias oferecidas à Justiça pelo Ministério Público (MP) e depoimentos de presos sugerem que agentes penitenciários têm colaborado para que presos se mantenham drogados, armados e conectados.

Aos 54 anos, o agente penitenciário José Renato do Nascimento Iorio, recolhido no Presídio Central, é suspeito de associar-se ao crime. Às 8h15min de 19 de setembro passado, Iorio foi flagrado com um tijolo de 575 gramas de maconha no pátio da Penitenciária Modulada de Charqueadas, onde exerceria a função de plantão de galeria. A droga, apuraram os investigadores, seria entregue a um preso que cumpre pena por tráfico. Além do entorpecente, embaixo do banco do motorista, enrolados numa sacola plástica, havia cinco celulares – três Nokia, um LG e um Motorola –, carregadores e baterias. Na denúncia oferecida pelo MP à Justiça em 21de dezembro, consta:

“O acusado José Renato (Iorio), em razão do seu cargo de agente penitenciário, era responsável por fazer ingressar a droga no interior da casa prisional, onde seria entregue a Vanderlei (preso), que se encarregaria da venda”.

Em Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, sabe-se até quanto um agente supostamente cobra para levar um celular para dentro da Penitenciária Modulada Estadual: R$ 200. Esta é a importância em dinheiro que, segundo o promotor Rodrigo de Oliveira Vieira, responsável pela denúncia formalizada à Justiça em 2 de dezembro, o agente penitenciário Claiton Ubirajara Cavalheiro do Canto teria recebido para entregar um telefone ao presidiário Sílvio Sandro da Silveira.

– Foi eu quem entreguei o aparelho para o agente – disse a Zero Hora a mulher de Silveira, uma vendedora de 32 anos.

Remanejado para Santana do Livramento, Cavalheiro prefere não se manifestar sobre a denúncia do MP, mas nega envolvimento no crime.

Para se ter ideia do volume de celulares nas cadeias, a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) tinha em seu poder, no final do ano passado, 6.374 aparelhos apreendidos entre outubro de 2006 e novembro de 2009.

Nas mãos de líderes de quadrilhas condenados no Estado, os telefones são utilizados para organizar assaltos. Em todas as nove operações realizadas pela Delegacia de Roubos no ano passado, que resultaram na prisão de 110 bandidos, havia presidiários flagrados ao telefone.

– Um dos motivos da prisão é retirar o cara do meio social, mas isso não existe mais. Os presos permanecem ligados ao mundo exterior, todos os dias, 24 horas por dia, cometendo crime, namorando, conversando com familiares. Alguns entram na prisão e, no mesmo dia, estão falando ao celular – diz Juliano Ferreira, titular da Delegacia de Roubos.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas