A incansável caminhada de dor e silêncio das mães

Entre as 20 mães que caminharam acorrentadas na tarde de ontem pelo centro de Pelotas, no sul do Estado, uma carrega a esperança no ventre. Usuária de crack há três anos, Renata Medina Vieira, 29 anos, vê na gravidez a força capaz de desfazer as amarras que a vinculam à pedra. Ela participou do protesto silencioso, um cortejo em tom fúnebre por cerca de dois quilômetros, entre a Câmara de Vereadores e a prefeitura.

Vinte das 55 integrantes do grupo Mães Contra o Crack cobraram do governo municipal tratamento qualificado para seus filhos. As correntes que as unem na luta simbolizaram a maneira encontrada para afastar os rebentos da droga.

Diferente das colegas de causa, Renata é usuária. Foi levada por sua mãe, Nara, ao grupo criado em outubro passado. Divide sua angústia. Desempregada, tenta sobreviver com trabalhos esporádicos como doméstica. No entanto, a luta atual é contra a fissura causada pelo crack. Grávida de cinco meses, ela sofre com a ideia da herança que o vício poderá deixar ao filho.

– Tento ficar sem a pedra, mas aguento poucos dias. Chego a chorar de tanta vontade de fumar. Quando vejo, estou fumando e prejudicando uma criança que ainda nem nasceu – reconhece a futura mãe, que, após quatro internações, luta pelo tratamento definitivo.

Renata passou pelos processos oferecidos em Pelotas. Engordou as estatísticas do Hospital Espírita, destinado a pacientes com distúrbios psiquiátricos – o crack responde por 119 das 170 internações mensais – e circulou pelas unidades do Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Recaiu sempre.

– O hospital me desintoxica por um mês. Preciso de uma comunidade terapêutica – implora, resumindo o principal pedido das Mães Contra o Crack: vagas em comunidades custeadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

– Queremos a continuidade do tratamento. Internar e liberar o paciente é devolvê-lo à droga – critica a vereadora Miriam Marroni (PT), criadora do grupo.

As mães ainda querem a abertura de um pronto-socorro para dependentes químicos, internações em hospitais gerais, requalificação dos Caps e criação de programas profissionalizantes para os que conseguem se livrar da pedra. Prometem manter a mobilização diante de um pesadelo que destroi toda a família.

Amor é a arma na luta sem trégua contra a pedra

A ambulante Elaine da Silva, 47 anos, chorou durante toda caminhada. Na quarta-feira, véspera do protesto, encontrou seu filho deitado, como um mendigo, próximo ao Calçadão. O rapaz de 27 anos, viciado em crack desde a adolescência, não se movia, estava drogado. Sua mulher, também usuária, está grávida e internada.

– A dor é grande, mas o amor de mãe precisa ser maior ainda. É o que nos motiva nesta luta por tratamento – desabafa Elaine.
Fonte:Zero Hora/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)