Consequência do crack: aumenta necessidade de leitos para dependentes

O Ministério Público quer saber por que não estão sendo disponibilizados mais leitos para dependentes químicos. Uma reunião na segunda-feira, entre o promotor Sérgio Diefenbach, Coordenadoria Regional de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde e Hospital Bruno Born, foi marcada para ouvir todas as versões de um gargalo que vem se arrastando há mais de um ano. Tudo isso tendo como pano de fundo o crack, que desenha uma realidade tirana na vida de usuários e famílias.

“Um dos problemas que enfrentamos é o aumento de pessoas usando drogas, especialmente o crack. O serviço de saúde não se mostra estruturado para receber essa demanda”, enfatiza Diefenbach, que coordena o Fórum Municipal de Enfrentamento da Drogadição e está à frente de um grupo de pessoas que se reúnem uma vez por mês para tratar do assunto. A constatação do fórum no último encontro reaviva uma situação de difícil solução: aumenta a cada dia o número de usuários que precisam de tratamento.

Conforme Diefenbach, o HBB não tem previsão de liberar leitos específicos. “Eles disponibilizam alguns destinados a pacientes psiquiátricos, mas têm sido insuficientes.”

O vício traz reflexos nos sistemas de saúde e penal. Um deles é o aumento de delitos contra o patrimônio. “No presídio há muita gente viciada em crack. É possível ainda verificar um número de furtos muito grande praticado por essas pessoas”, considera Diefenbach. Mas o crime impulsionado pela “pedra maldita” parece não ser razão suficiente para começar a tratar, em maior escala, os usuários. Os profissionais do fórum desde o início sabiam que encontrariam um “osso duro de roer” sem a formulação, na prática, de políticas públicas eficientes para proteger a população do avanço do entorpecente. Desde que o grupo foi formatado, ficou claro que a criação de leitos seria um dos desafios.
O Ministério Público deve sugerir, na próxima reunião da Amvat, que o enfrentamento à drogadição seja política pública prioritária nas cidades. O Vale do Taquari possui 59 leitos psiquiátricos que atendem dependentes químicos. Vinte e seis novas vagas foram geradas no ano passado especificamente para a assistência de dependentes de álcool e drogas por meio de um programa de incentivos do governo do Estado. Seis hospitais da região se dispuseram a criar leitos para receber o montante de R$ 1,9 mil mensais.

Hospital
O diretor técnico do Hospital Bruno Born, Cláudio Klein, tem o discurso na ponta da língua e, na segunda-feira, vai sugerir uma solução à promotoria. Sua proposta converge com o que defende o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul: a reabertura de espaços específicos para tratamentos psiquiátricos. Klein rejeita a ideia de que usuários de drogas e doentes psiquiátricos mais graves possam ser atendidos em hospitais gerais porque é preciso um time de profissionais e uma área física especial. “É uma situação complicada esses dependentes em um hospital geral, porque podem provocar danos a outros pacientes.”

Um fator limitador no Hospital Bruno Born seria o espaço físico. Klein alega que não há estrutura nem condições técnicas e físicas para atender pacientes com essa problemática.

Quatro mil em oito anos
A escassez de vagas gratuitas em centros terapêuticos é outro entrave ao tratamento público. A resistência de clínicas como a Central em se conveniar ao Sistema Único de Saúde é visível. O presidente Roque Lopes é categórico: “A Central não vai se conveniar ao o SUS e só interna pacientes maiores de 16 anos, com autorização do pai e da mãe. Nós cumprimos com todos os nossos compromissos em dia. O SUS levaria 90 e até 120 dias para nos ressarcir os pagamentos.”
Para Lopes, a clínica que funciona há 24 anos com sistema de gestão própria e virou referência em tratamento de dependentes, não tem interesse em se enquadrar no sistema público. “Viraria uma bagunça.”
Nos últimos oito anos, quatro mil “crackeiros” passaram pelo processo de tratamento da Central. A clínica conseguiu instituir uma terapêutica eficaz na luta contra os tóxicos com a ajuda de um quadro profissional completo – médico, psiquiatra, psicólogo, consultor e enfermeiro. A batalha contra o crack não cessa nunca. Conforme Lopes, 40% dos pacientes estão embalados pelo feitiço ilusório da pedra. Ele faz uma ressalva. As campanhas estão abordando a substância como a inimiga mais terrível do homem e esquecendo de outras drogas.
Fonte:O Informativo do Vale/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)