Médicos são investigados por receitar emagrecedor

Médicos de 11 Estados estão sendo investigados por serem os maiores prescritores do País de remédios para emagrecer. No total, foram abertas pelos conselhos regionais de medicina 62 sindicâncias sigilosas para apurar exageros na recomendação de medicamentos feitos com anfetamina (sibutramina, anfepramona e fluoxetina são os principais) que, quando usados sem necessidade, podem provocar dependência química e danos cardíacos.

As mulheres são as principais vítimas da prescrição exagerada por dois motivos. O primeiro é que elas lideram o consumo deste tipo de droga (o dobro dos homens, segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Cebrid). O segundo fator é que o sexo feminino é mais sensível aos apelos do padrão estético magro que domina as passarelas, televisão e publicidade. São elas que mais sofrem de anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares – a proporção é de dez casos de mulheres doentes para cada um de homem.

São Paulo é o Estado que mais acumula indícios de prescrições exageradas dos chamados anorexígenos, com 15 citações no relatório do Conselho Federal de Medicina (CFM). Estão envolvidos também profissionais do Distrito Federal (5 citações), Rio Grande do Sul (9), Sergipe (1), Goiás (3), Minas Gerais (10), Paraná (10), Santa Catarina (3), Espírito Santo (1), Rio de Janeiro (3) e Rondônia (1).

Os nomes dos médicos não podem ser revelados até o término dos processos éticos e o mesmo profissional pode aparecer na lista de mais prescritores de diferentes remédios. O relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostrou que entre os campeões de receituários estão especialidades em nada ligadas à endocrinologia, área responsável pelo emagrecimento. Médico do tráfego, dermatologista e pediatras figuram entre os que mais receitaram drogas para emagrecer.

16 quilos por dia
A investigação dos médicos teve como ponto de partida levantamento feito pela Anvisa com base no Sistema Nacional e Gerenciamento de Produtos Controlados. Durante todo ano passado, pela primeira vez, as farmácias e drogarias do Brasil foram monitoradas. Na primeira fase da análise, somente os anorexígenos foram avaliados.

Levando em conta só seis substâncias e o fato de 62% das farmácias e drogarias participarem do sistema eletrônico, o Brasil consumiu seis toneladas de medicamentos para emagrecer, uma média de 16 quilos por dia. “Identificamos que o mês de outubro liderou o consumo desses medicamentos, o que sugere ligação com os preparativos para o verão”, relatou a Anvisa no documento.

Pelo sistema on-line foi possível identificar também os médicos que mais indicaram os medicamentos aos pacientes. A lista dos principais foi encaminhada, no mês passado, ao CFM. “Enviamos os nomes a todos os conselhos regionais para que sejam apurados indícios de infração ética destes profissionais, por meio de sindicância”, afirmou Desiré Caleghari, médico da comissão ética do CFM. “É um primeiro passo, ainda pequeno perto de tudo que precisa ser feito. A Anvisa começou a fiscalizar os psicoativos. O nosso papel é de proteger a saúde da população e coibir o abuso de comercialização, a dependência química e o distúrbio de comportamento”, completou.

O impacto na dependência
O consumo de medicamentos desbancou o crack, cocaína, maconha e heroína e ocupou o topo da lista de preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS). No final do ano passado, a entidade que é referência mundial na medicina, divulgou relatório sobre o uso exagerado de medicações. Em anorexígenos e anfetaminas, o Brasil é líder em venda e uso.
O que torna o uso dos anorexígenos e anfetaminas ainda mais perigoso, acredita Cláudia Oliveira – psicóloga da clínica do grupo Viva (rede de clínicas especializadas em mulheres) – é que as mulheres e meninas acreditam encontrar respaldo médico para sua dependência.

“Elas demoram para se enxergarem dependentes. Usam comprimidos que foram, muitas vezes, indicados por médicos. É como se eles garantissem que não faz mal”, afirmou a especialista que nos últimos quatro anos viu o número de pacientes dependentes aumentar demais na clínica.
Autor: Da Redação
OBID Fonte: Correio do Povo