Benefício a longo prazo

A polêmica sobre a Lei Antifumo paulista, que completou um ano na última semana com balanço bastante positivo, tem sido levada adiante quase que unicamente sob a ótica dos interesses imediatos de fumantes e não-fumantes, mas sem levar em conta uma perspectiva do benefício que os ambientes livres de cigarros e de fumaça deverão representar para as novas gerações.

Todo fumante sabe que o uso do cigarro é o reflexo de uma cultura, absorvida desde a primeira infância com a exposição a estímulos externos, que incluem o consumo por pessoas próximas à criança como pais, avós e irmãos mais velhos, a apropriação gradual de gestos apresentados em filmes e novelas e, numa etapa posterior, já no início da adolescência, a influência dos amigos num esforço até natural para assimilar os valores do mundo adulto.

Muitos fumantes de hoje sabem que fumam não por uma escolha absolutamente consciente, mas sim porque estiveram expostos, em sua infância e juventude, à publicidade excitante que povoava as sessões da tarde na televisão. Durante longos anos, mesmo depois dos primeiros estudos científicos que associavam o cigarro a doenças, o Brasil permitiu que comerciais de TV impusessem ao público televisivo cenas de jovens fumantes praticando esportes radicais, dirigindo carros, iates e helicópteros, e irradiando felicidade até mais que fumaça.

Isso durou até muito recentemente – mais precisamente, até o ano 2000, quando a propaganda de cigarro foi banida dos veículos de comunicação -, e obviamente empurrou várias gerações para uma dependência química e psicológica dispendiosa e prejudicial para a saúde. Muito antes dos comerciais da TV, porém, a publicidade em jornais e revistas e o ´merchandising´ disfarçado dos roteiros cinematográficos de Hollywood colaboraram para transformar o hábito de fumar em algo realmente elegante. Agora sabe-se que os estúdios de cinema e artistas como Clark Gable, John Wayne, Bette Davis e Gary Cooper recebiam fortunas da indústria do tabaco para representar o cigarro como um complemento importante ao charme e à personalidade.

Apesar desses fatos, a influência do meio sobre o público mais jovem, notória quando o assunto é consumo de cigarros e bebidas, vem sendo menosprezada no debate atual, que restringe seu foco à contraposição (relevante, porém pouco abrangente) dos direitos dos fumantes e não-fumantes, e à avaliação dos limites normativos do Estado em vista do que determinam a Constituição e a legislação federal. Esquece-se que, até mais do que proteger os não-fumantes da exposição às substâncias cancerígenas presentes na fumaça do cigarro, a lei, com seu radicalismo assumido, tem o grande mérito de criar predominantemente um espaço público livre da presença do cigarro, onde crianças não estarão sujeitas a nenhum tipo de influência.

É lícito supor que, assim como diversas gerações aderiram ao cigarro porque foram expostas a uma cultura em que o uso do tabaco era algo natural e até desejável, as futuras gerações tenderão a ver o cigarro como algo incômodo e descontextualizado. Para que isso se concretize, porém, é preciso ir ainda mais fundo no esforço por banir a cultura do cigarro, não só em bares e shoppings, mas também em novelas e “reality shows” que são vistos por milhões de crianças.

Se o objetivo é produzir uma cultura de não adesão ao tabagismo, fatalmente a sociedade terá de eliminar as brechas ainda existentes na televisão, pelas quais se realiza, de forma pouco velada, a apologia do vício. Em nome da saúde pública e da responsabilidade social, o cigarro deve ir para o paredão.
Fonte:Jornal Cruzeiro do Sul/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)