70% das crianças em abrigos são filhas de usuárias de crack

O levantamento foi feito pelo 2° Juizado da Infância e Juventude em Porto Alegre.

O corpo e os dedos das mãos estão enrijecidos. Fixos, os olhos quase não piscam. Com apenas dois meses e meio de vida, E. é viciado em crack. Acolhido na última semana no Lar Ipanema da Fundação de Proteção Especial do Rio Grande do Sul (FPE), na Capital, o bebê sofre com a abstinência e complicações cerebrais. A mãe, que consumiu a droga na gestação, abandonou no hospital mais um órfão do crack.

Ele engrossa uma estatística trágica que não para de crescer no Estado: cerca de 70% das crianças encaminhadas para abrigos hoje são filhos de dependentes da pedra, de acordo com levantamento do 2° Juizado da Infância e Juventude em Porto Alegre. Desde 2008, o juiz José Antonio Daltoé Cezar vê casos se acumulando sobre sua mesa. Na quarta-feira, após interrogar uma viciada de 15 anos que, com o namorado, ajudou a matar a cunhada, o magistrado desabafou:

– Ela confessou tudo. O pior é que está grávida de cinco meses. Talvez tenha de decidir o futuro do filho também. Não me incomoda tirar filho de mãe usuária de crack. Aqui é uma via de mão única. Não tem direito de pai e mãe. Quem tem direito é a criança.

Assim como E., o filho dessa jovem provavelmente terá como destino um abrigo público. Hoje, mais de mil crianças e adolescentes, de zero a 17 anos, vivem nos lares mantidos pela FPE, em Porto Alegre e no Interior, e pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) da Capital, e para pelo menos 700 deles o crack foi o combustível para destruir suas famílias. Ao entrar nesses locais, os rebentos da pedra parecem saídos de uma batalha. Chegam em um estágio de trauma absoluto, causado pelas cenas insanas que presenciaram em casa e, ao mesmo tempo, pela dor da separação.

– Os relatos são horríveis. Eles precisam de acompanhamento direto para descobrir que existe um mundo sem a droga – afirma a assistente social Taiane Tonetto, do Lar Ipanema.
Depois de ingressar, menos de 20% retornam para a mãe. Uma pequena parcela segue para a casa de parentes. A maior parte, porém, fica. Só sai depois de completar 18 anos.

Entre os bebês de até dois anos que chegam à FPE, como E., a mãe de 60% deles é dependente de crack, de acordo com a diretora técnica, Sandra Helena de Souza. No Lar Ipanema, todos os 21 bebês foram gerados absorvendo os venenos da pedra.

– É necessária uma política pública efetiva de prevenção à gravidez precoce e indesejada. E, havendo a gravidez, que seja promovido o direito do bebê de nascer em melhores condições, facilitando a adoção. Não adianta só atender, atender, atender. A gente se pergunta: quantos abrigos ainda serão necessários? – indaga Sandra.

Pelo baixo preço e pelo efeito imediato, o crack está encravado nas periferias há mais de uma década e avançou nos últimos anos para todas as classes sociais. Nas vilas, os casos saltam como pulgas, como falam conselheiros tutelares. O conselheiro Antônio Américo Machado diz que precisam enfrentar até traficantes para poder preservar a vida dos filhos dos “zumbis”.

– Já chegamos a ter de falar com o dono da boca para levar os filhos de uma viciada. Retirar as crianças da mãe é o último recurso. Tentamos conversar, encaminhar para atendimento primeiro. Mas, quando não tem jeito, o melhor é levar para o abrigo. Quando isso acontece é que elas sentem. Dizemos para as mães: agora é tudo contigo. Se quiser ver teu filho de novo, vai ter de largar a pedra. Algumas tentam, mas poucas conseguem – lamenta Américo.

A assistente social Taiane Tonetto trabalha no Lar Ipanema, na Capital, onde todos os 21 bebês são filhos de usuárias de crack
Autor:Zero Hora – Guilherme Mazui e Gustavo Azevedo
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas