60% das crianças têm pais usuários de drogas

Ele quase não fala, é deficiente físico e apresenta sérios problemas emocionais. Só tem seis anos de idade e é filho de dependente de crack. Acolhido na semana passada pelo Abrigo Tia Júlia, na Parangaba, a criança sofre, apesar de tudo, a falta da mãe que o deixava no fundo de uma rede, enquanto saia em busca da droga. O garoto não comia e só fazia chorar. A vizinhança denunciou.

O caso desse menino é mais um que engrossa as trágicas estatísticas dos abrigos, ruas e centros educacionais para adolescentes em conflito com a lei. Das 80 crianças abrigadas atualmente no Tia Júlia, 60% delas são praticamente órfãos do crack. “Muitas delas foram abandonadas em hospitais ou nas ruas”, afirma a coordenadora do abrigo, Luíza Helena Paiva.

Do total dos abrigados, 20 estão na lista para adoção. Antes de serem incluídos na relação, a equipe multidisciplinar da casa realizou um trabalho socioeducativo na tentativa de resgatar esses meninos e meninas para uma nova convivência familiar. “Quinze deles apresentam problemas de saúde, mas estão aptos a encontrar um novo lar com uma família estruturada e que os ame”, diz ela.

Já na Casa Abrigo, das 82 crianças, 17 foram abandonadas pelos pais viciados em crack. “Não temos políticas públicas voltadas especificamente para isso”, afirma a promotora de Justiça da Defesa da Infância e Juventude, do Ministério Público Estadual, Maira de Fátima Valente. Ela adianta que, entre as ações defendidas pelo MP, a implantação de um centro de tratamento para crianças e adolescentes dependentes químicos é um dos caminhos.

“Entramos com Ação Civil Pública em 2007 e só agora o Supremo Tribunal Federal julgou a nosso favor e determinou a criação desse equipamento. A ação está na 4ª Vara da Infância e Juventude”. A coordenadoria das Varas da Infância e Juventude, do Fórum Clóvis Beviláqua, não comentou a questão.

Fátima Valente avalia como gravíssimo avanço do crack entre crianças e adolescentes. Dos 1.011 internos em 12 centros educacionais do Estado – oito em Fortaleza e quatro no Interior – 96% ou são viciados em drogas ou estão diretamente ligados. O uso de drogas, diz a promotora, agravou a situação de adolescentes que já costumam estar em risco. “É tanto que até para conversar com alguns em audiência fica difícil de tão drogados que estão”, diz.

De acordo com pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos de Fortaleza (SDH), a Capital cearense possui 90 crianças e adolescentes moradores de rua. Do total, 78 são usuários de drogas e 41 completamento “fissurados” em crack. A pesquisa servirá de base para a implementação de uma política municipal para a infância e juventude. O primeiro passo será dado hoje, a partir das 8 horas, na CDL, na Rua 25 de Março, com o lançamento da Rede de Atenção Integral a Crianças e Adolescentes relacionada ao Uso de Drogas.

A coordenadora do projeto Ponte de Encontros, da SDH, Mariana Lima, informa que serão realizados, ao todo, quatro seminários e, no último, elaborada uma proposta de Plano Municipal de Atenção Integral a Crianças e Adolescentes relacionada ao Uso de Drogas.

MAIS UMA VÍTIMA
Crack mata adolescente

Até os nove anos de idade, F.M.A era uma menina comum e cheia de sonhos. Aos 15 anos, depois de fumar pedras de crack por oito horas seguidas, ela teve uma parada cardíaca e morreu antes de chegar ao Frotinha do Antônio Bezerra. A tragédia aconteceu na noite da última terça-feira em frente a sua casa, no Jardim Guanabara.

A mãe ainda não sentiu o “baque”, é dependente química e, na hora em que recebeu a notícia da morte da filha, estava completamente embriagada e nem entendeu direito a triste notícia. A prima foi a única que tomou as providências legais para enterrar a adolescente.

“Ela já estava totalmente tomada pelas pedras malditas, vendia tudo dentro de casa para ter dinheiro para manter o danado do vício”, conta a prima que não quis dizer o nome.

Também pelo crack, outra adolescente de 14 anos foi assassinada no último domingo, na Vila Carvalho, em Caucaia. A garota fumava perto de 30 pedras por dia, conta um vizinho. “Cada pedra custa R$ 3,00 e ela necessitava de R$ 150,00 para se drogar”.

A garota vendeu tudo que tinha, já roubava, arrombava residências e metia medo nas pessoas do bairro em decorrência do crack. Virou “avião”, repassava as pedras dos traficantes para outros dependentes. Foi aí que perdeu a vida. No domingo, ao invés de vender a droga, ela foi assassinada.
Fonte:Diário do Nordeste/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)