As novas drogas se multiplicam na Europa

É preciso temer a mefedrona? Deve-se proibir essa droga sintética de efeitos similares aos do ecstasy e das anfetaminas, cujos riscos para a saúde ainda são pouco conhecidos? Após várias mortes suspeitas entre jovens (em sua maioria consumidores de outras drogas), o governo britânico acaba de tomar a iniciativa, proibindo-a. Desde 16 de abril a mefedrona passou a ter status de narcótico.

Depois da Dinamarca, Suécia, Alemanha, Noruega, Croácia, Estônia e Romênia, o Reino Unido é o oitavo país europeu a tomar essa medida, desde dezembro de 2008. A França, onde o consumo continua sendo entre uma minoria, logo poderá tomar a mesma decisão. E o Conselho da Europa anunciará nas próximas semanas se pedirá ou não a seus Estados-membros que seja efetuada uma avaliação dos riscos dessa droga sintética.

Molécula perigosa
Seus efeitos. Os efeitos da mefedrona, molécula sintética, são euforizantes e convidam à empatia, durando de duas a três horas, sendo que o tempo de retorno a um estado normal varia de pessoa para pessoa. Alguns descrevem uma segunda fase que pode durar vários dias, caracterizada por ataques de ansiedade e de paranoia, dores de cabeça, e até a sensação de choques elétricos.

Overdose fatal. Tanto na Dinamarca quanto no Reino Unido, suspeita-se que a mefedrona tenha sido a causa de overdoses fatais. Entretanto um único caso, ocorrido em 2008 na Suécia, foi confirmado por autópsia.

Oferta na Europa. 4.400 comprimidos e 2.kg de pó na Alemanha e na Holanda (junho de 2009), 3 kg de pó na Suécia (início de 2009), 4 kg na Inglaterra (início de 2009): as notificações de apreensões informadas à Europol sugerem a existência de um tráfico internacional.
Praticamente desconhecida alguns anos atrás, a mefedrona (também conhecida como Miau-Miau ou M-Cat) é um estimulante da família das catinonas, próxima da família das fenetilaminas, à qual pertencem o ecstasy e as anfetaminas.

“Até hoje, existiam muito poucos dados sobre essa substância em artigos científicos, especialmente sobre sua toxicidade a longo prazo, seu potencial de dependência e suas interações com outros psicotrópicos”, explica Agnès Cadet-Tairou, médica de saúde pública no Observatório Francês de Drogas e Toxicomanias (OFDT).

Oferecida sob forma de pó, a um preço entre 9 e 27 euros o grama, em diversos sites da internet (dos quais quase 90%, até abril, eram localizados no Reino Unido), a mefedrona está em livre circulação na França.

Somente três compostos da família das catinonas são atualmente classificados como narcóticos na França – entre os quais a própria catinona, produto natural proveniente das folhas do khat (uma árvore originária da África Oriental).

E a mefedrona logo irá se juntar a eles? A pedido da Comissão Nacional dos Narcóticos e Psicotrópicos, a Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Produtos de Saúde (Afssaps) realizou uma avaliação visando sua possível classificação na lista dos narcóticos e psicotrópicos. “Na medida em que a mefedrona não é utilizada como medicamento, esse procedimento, se resultar em um parecer positivo por parte da Comissão, de fato levará a uma proibição”, explica Françoise Bartoli, vice-diretora-geral da Afssaps, que espera ver a questão resolvida “até o verão”.

Estigmatizada em razão do aumento de consumo entre os jovens britânicos, a mefedrona não é a única droga sintética de surgimento recente que vem preocupando as autoridades de saúde. Em seu relatório anual sobre as novas drogas que circulam no mercado, publicado em 23 de abril, o Observatório Europeu das Drogas e das Toxicomanias (OEDT) e a Europol ressaltam que estas atingiram uma “cifra recorde” em 2009.

Vinte e quatro novas substâncias psicoativas foram oficialmente notificadas pela primeira vez às duas agências, ou seja, quase o dobro das substâncias notificadas em 2008 (13 no total). Todas eram compostos sintéticos. Entre elas: 4 catinonas, que assim acabam de ampliar o leque de substâncias relacionadas de perto ou de longe com a mefedrona.

“Em festas de música eletrônica e em festas privadas, essas substâncias costumam ser oferecidas pelos revendedores como ecstasy ou anfetamina”, afirma Emmanuel Lahaie, farmacêutico da OFDT. Mas esses estimulantes sintéticos, fabricados em sua maioria em laboratórios chineses, foram difundidos sobretudo no comércio pela internet. Ali são oferecidos sob nomes diversos (“designer drugs”, “party pills”, “legal highs”) e às vezes deturpados (“research chemicals”, “plant food”).

Ponto de concentração de incrível eficácia para contornar as medidas antidrogas instauradas pelos diferentes países, o comércio eletrônico constitui “um crescente desafio para as atividades de vigilância, de resposta e de controle frente ao consumo de novas substâncias psicoativas”, observa o relatório da OEDT-Europol.

Um desafio ainda mais difícil pelo fato de que, às vezes, basta uma ínfima mudança na composição de uma molécula sintética proibida para se obter uma nova substância psicotrópica. A qual poderá, pelo menos em um primeiro momento, permanecer em livre circulação.

Assim que a mefedrona foi oficialmente proibida, os britânicos viram nos sites de venda online a oferta de produtos lícitos de efeitos similares, que já parecem ter uma certa popularidade.
Fonte:Le Monde – Lana Lim
Tradução: Catherine Vincent
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas