Entrevista com Paula Johns – Tabaco e Mulher


Paula Johns, mestre em estudos de desenvolvimento internacional pela Universidade de Roskilde e diretora da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) é a entrevistada da semana. Confira!

Qual a incidência do consumo de tabaco entre as mulheres? Este número sofreu crescimento expressivo nos últimos anos?

Segundo dados da PETab (Pesquisa Especial sobre Tabagismo) de 2008, hoje no Brasil a prevalência de consumo entre as mulheres é de 13,1% e entre os homens, de 21,6%. As mulheres no Brasil ainda fumam menos do que os homens. Mas o que se observa é que as meninas estão experimentando cigarros tanto quanto os meninos e, em algumas capitais, em especial nas de maior renda, como Porto Alegre e Curitiba, mais até do que os meninos. Caso essa tendência se perpetue, a diferença de prevalência entre homens e mulheres tende a reduzir e atingir níveis como os de países escandinavos, por exemplo, onde as mulheres fumam tanto quanto os homens.

Que fatores têm influenciado este crescimento?

O aumento de consumo entre mulheres está associado a uma série de fatores, entre eles o marketing bem sucedido da indústria do tabaco, associando a emancipação feminina ao consumo de tabaco. Não é coincidência o fato de a maioria das feministas serem fumantes ou ex-fumantes hoje, como mostra a pesquisa realizada pela Rede Feminista de Saúde, que demonstrou que 51% das mulheres entrevistadas fuma ou já fumou, percentual significativamente maior do que a prevalência nacional entre mulheres. Outros motivos que levam as mulheres a fumar, apontados na pesquisa, são aliviar a ansiedade, estresse, depressão e busca de alívio para tensões do trabalho e de casa. Há ainda razões subjetivas relacionadas com identidade, auto-estima, aceitação social, sentir-se madura ou sexy, o que demonstra o quanto o marketing atinge o emocional das mulheres.

De que forma a indústria tem se articulado para atingir o público feminino?

É sabido que a indústria pesquisa incansavelmente sobre as aspirações das mulheres e desenvolve produtos que procuram preencher essas lacunas emocionais. Publicidade é a alma do negócio e, quando se alia marketing a um produto que causa forte dependência física e psicológica, é o melhor dos mundos para os fabricantes. Outra forma de atrair o público feminino é através da adição de sabores e aditivos nos cigarros de forma a torná-los mais palatáveis e atraentes. Por incrível que possa parecer, o cigarro é um dos produtos de consumo com a engenharia mais sofisticada que existe. São milhares de substâncias adicionadas para fazer com que a droga chegue mais rápido à corrente sanguínea, que a torne menos rascante para a garganta, e por aí vamos. Outro engodo do marketing da indústria para as mulheres são os chamados cigarros “light” ou de “baixo teor”. Embora exista legislação no país que proíba o uso dos termos, a indústria ainda passa essa mensagem através de sistemas de cores. Os cigarros light surgiram justamente como resposta da indústria à crescente evidência médico-científica associando o consumo de tabaco a um grande número de doenças, e o marketing desses produtos foi dirigido justamente para o público feminino como uma alternativa para deixar de fumar.

Na comparação entre gêneros, o tabaco pode ser mais devastador à saúde da mulher do que à do homem?

Infelizmente, sim. As conseqüências para a saúde da mulher são ainda mais nefastas. Aspectos biológicos do ciclo natural da vida, como maternidade e menopausa, trazem consigo momentos distintos e especiais, expondo a mulher a riscos e agravos de saúde peculiares e inexistentes para os homens. Por exemplo, a combinação entre a utilização de pílula anticoncepcional ou reposição hormonal e tabagismo aumenta exponencialmente o risco de AVC entre as mulheres.

Quando falamos de prevenção, quais são as estratégias para sensibilizar as mulheres? Como tem sido o trabalho da ACT neste sentido?

Para a ACT, prevenção é um conceito amplo que engloba várias estratégias, e o ideal é que todas elas sejam adotadas, pois uma fortalece e contribui para o sucesso da outra. As principais políticas de prevenção do tabagismo que são comprovadamente eficazes e que fazem parte do portfólio de campanhas da ACT são: a adoção de ambientes fechados 100% livres de fumo, o aumento de preços, a proibição total da publicidade e promoção e patrocínio de produtos do tabaco. Outra política importante é a informação ao consumidor através das imagens de advertência nos maços de cigarro, medida já adotada pelo Brasil, e o acesso ao tratamento para quem deseja parar de fumar, que, hoje, são a maioria dos fumantes. Além dessas políticas amplas, que atingem a população como um todo, é também desejável desenvolver políticas públicas especificas para as mulheres, que tenham o enfoque na saúde integral da mulher e não somente sobre o seu papel enquanto mãe e a que cuida dos filhos.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)