Consumo de álcool por jogadores profissionais da Liga Australiana de Rúgbi: prevalência e associações de risco

Estudos anteriores demonstraram que esportistas de elite de universidades americanas possuem maiores taxas de uso nocivo de álcool do que indivíduos não-atletas ou atletas amadores. Ainda, uma pesquisa realizada em 1991 mostrou que jogadores profissionais de rúgbi na Austrália praticamente não consumiam álcool durante as semanas regulares de treino, mas o uso de álcool aumentava significativamente nas noites após os jogos.

Com o intuito de avaliar os padrões de consumo de álcool e suas consequências negativas, entre jogadores profissionais da Liga Australiana de Rúgbi, pesquisadores da Universidade de Melbourne realizaram um estudo com 582 membros dos 16 clubes profissionais pertencentes à liga, durante o ano de 2006.

Os atletas responderam a um questionário sobre a quantidade e frequência do uso de álcool de acordo com os seguintes períodos: pré-temporada, temporada de jogos, pós-temporada e férias. Além disso, eles também preencheram o questionário AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test), utilizado para a identificação de problemas relacionados ao uso de álcool.

A maioria dos jogadores tinha menos de 25 anos de idade (66%), solteira (88%) e relatou que seu clube não possuía qualquer regra formal sobre o uso de bebidas alcoólicas. Na época de pré-temporada e temporada, 71% e 51% dos atletas, respectivamente, relataram o consumo de, pelo menos, sete doses-padrão* de bebida alcoólica em um determinado dia, ao menos uma vez por mês. Já na época de pós-temporada e férias, uma proporção maior de jogadores (88% e 79%, respectivamente) referiu esse mesmo padrão de consumo, considerado de alto risco para a ocorrência de consequências negativas em curto prazo relacionadas ao uso de álcool (por exemplo, acidentes de trânsito e outras lesões).

Independentemente da época do ano avaliada, a proporção de jogadores que reportaram o consumo de álcool de alto risco ao menos uma vez por mês (51-88%) foi maior do que a proporção desse mesmo padrão de consumo observada entre adultos australianos entre 20-29 anos da população geral (44%). Ainda, jogadores que referiram beber em ambientes públicos durante a temporada de jogos apresentaram um risco 1,55 vezes maior de relatarem o consumo de alto risco do que aqueles que bebiam em ambientes privados.

No questionário AUDIT, a média de pontos foi de 8,77, sendo que 59% dos atletas apresentaram pontuações maiores do que 7, limite usualmente utilizado para diferenciar pessoas que não apresentam problemas com o uso de álcool (0-7 pontos) daquelas que potencialmente apresentam problemas com uso desta substância (8-40 pontos). Digno de nota é que a média da pontuação obtida no AUDIT por atletas casados (6,11) foi 2,08 pontos menores do que a de atletas solteiros (8,19).

De acordo com os autores, o presente estudo representa a primeira grande investigação sobre o consumo de álcool e suas consequências negativas entre atletas profissionais de elite. Além dos atletas terem apresentado um nível de consumo de álcool superior ao de indivíduos da mesma faixa etária da população geral em todas as épocas do ano, o elevado consumo de alto risco durante os períodos sem jogos é preocupante e aponta a necessidade de estratégias por parte dos clubes e ligas para reduzir o uso nocivo de álcool entre os jogadores.

*Uma dose-padrão australiana de bebida alcoólica contém, aproximadamente, 10g de álcool puro (o que seria equivalente a 350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado).

Título: Drinking by professional Australian Football League (AFL) players: prevalence and correlates of risk
Autores: Dietze PM, Fitzgerald JL, Jenkinson RA
Fonte: MJA 2008; 189: 479–483
IF: 3.320
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool