O mal que faz o álcool

Para os adolescentes, não passa de uma simples diversão. Mas a combinação álcool e juventude traz consequências mais drásticas do que uma dor de cabeça no dia seguinte. Três estudos internacionais divulgados ontem por periódicos científicos mostram que a ingestão exagerada de bebidas por indivíduos em formação — na faixa dos 12 aos 17 anos — provoca danos graves ao cérebro, além de acarretar problemas sociais. A boa notícia é que, de acordo com uma das pesquisas, dos 18 aos 25 anos, a tendência de beber compulsivamente diminui. Até chegar lá, porém, o jovem já pode ter suas funções cerebrais afetadas.

Divulgado pela revista da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos (Proceedings of the National Academy of Sciences, Pnas), o estudo sobre a Redução em longo prazo da neurogenese hipocampal causada pelo consumo de álcool em adolescentes primatas não humanos (Long lasting reduction in hippocampal neurogenesis by alcohol consumption in adolescent nonhuman primates) pesquisou, os efeitos de um comportamento chamado “beber em binge”, que significa consumir, de uma só vez, grandes doses de álcool. É o que fazem as pessoas, mesmo não consideradas alcoólatras, quando saem para beber e ingerem uma quantidade exagerada de bebida.

A equipe de pesquisadores, liderados por Chitra Mandyam, professora assistente do Instituto de Pesquisas Scripps (The Scripps Research Institute), constatou que a ingestão abusiva de bebidas alcoólicas provoca diminuição da produção de células neurais e aumenta a degeneração do hipocampo. Essa área do cérebro está relacionada ao armazenamento da memória de longo prazo.

Sóbrios e bêbados
Os cientistas fizeram os testes com sete macacos rhesus adolescentes, com idades entre 4 e 5 anos, e peso médio de 7,7kg. Durante 11 meses, quatro deles receberam uma dose diária de etanol misturado a um suco artificial de laranja. Os outros três foram mantidos sóbrios, como grupo de controle. Os testes sanguíneos mostraram que os primatas estavam intoxicados por álcool, mesma coisa que acontece com os humanos que bebem em binge.

Dois meses depois de interromperem a oferta diária de etanol, os pesquisadores examinaram os cérebros dos macacos e compararam com os daqueles que não haviam recebido a bebida. O resultado foi que a produção das células-tronco neurais havia decaído e, o mais importante: mesmo 60 dias depois de abstinência, a degeneração do hipocampo continuava, o que sugere que o alcoolismo e o hábito de beber em binge têm efeitos destrutivos de longa duração no cérebro de adolescentes. Segundo os pesquisadores, é possível deduzir que os danos provocados nos macacos sejam os mesmos em humanos porque os primatas são bastante semelhantes à espécie do ponto de vista fisiológico e neuroanatômico.

“A adolescência tem sido associada a uma falta de maturidade e ao aumento da curiosidade em se experimentar coisas novas. Essas observações comportamentais ocorrem paralelamente a uma transição, em muitos aspectos, do desenvolvimento do corpo e do cérebro. É preocupante que o consumo de álcool em binge esteja crescendo entre adolescentes, com um percentual significativo (60%) de indivíduos vulneráveis ao desenvolvimento de distúrbios relacionados ao álcool”, justificam, no estudo, os pesquisadores. “Estudos em animais confirmam que a adolescência é um período de grande vulnerabilidade, associado a vários fatores de desenvolvimento comportamental, neural e endócrino, entre outros. Da mesma forma, a indução do álcool nessa fase pode levar o adolescente à compulsão, quando adulto”, disse ao Correio a principal autora da pesquisa, Chitra Mandyam.

Comportamento de risco
Se o estudo de Chitra Mandyam comprovou os efeitos maléficos do álcool no cérebro dos jovens (e adultos), outra pesquisa, cujos resultados preliminares foram divulgados esta semana, pelo periódico Alcolismo: Pesquisas Clínicas e Experimentais (Alcoholism: Clinical & Experimental Research), teve como foco o comportamento perigoso dos jovens que abusam da bebida. Segundo o estudo, realizado com 1.253 calouros de faculdades (645 mulheres e 608 homens), à medida que o tempo passa os universitários arriscam-se mais ao volante quando estão bêbados. O ápice da irresponsabilidade ocorre por volta dos 21 anos.

Durante quatro anos, os especialistas Amelia M. Arria, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Maryland, e Robert B. Voas, diretor do Instituto Pacifico de Pesquisa e Avaliações (Pacific Institute for Research and Evaluation), entrevistaram, a cada 12 meses, os participantes da pesquisa. O objetivo era que relatassem suas experiências associadas ao álcool e à direção. Três comportamentos de risco foram identificados: pegar carona com um motorista alcoolizado, dirigir depois de beber e conduzir mesmo intoxicado pela bebida (ou dirigir embriagado). Os resultados mostraram que, entre os universitários, essas atitudes são comuns. “No início do estudo, quase metade dos estudantes dirigiram depois de beber e um em cinco conduziram enquanto estavam intoxicados. Já aos 20 anos de idade, 80% haviam dirigido depois de beber e 20% dirigiram mesmo intoxicados. Entre os homens, o comportamento foi mais comum que entre as mulheres”, contou ao Correio Amelia M. Arria.

De acordo com ela, ao atingir os 21 anos, idade em que é permitido beber nos Estados Unidos, as atitudes arriscadas chegaram ao ápice. “Esses resultados servem para questionar a atitude de pessoas que afirmam que baixar para os 18 anos a idade mínima para consumo de bebidas poderia ser uma boa estratégia para reduzir comportamentos de risco”, alega a pesquisadora.

É preocupante que o consumo de álcool em binge esteja crescendo entre adolescentes, com um percentual significativo (60%) de indivíduos vulneráveis” Chitra Mandyam, coordenadora da pesquisa .
Autor: Paloma Oliveto
OBID Fonte: Correio Braziliense