Mulheres que bebem

A organização do tecido social conta, no mundo ocidental, com a mulher como fomentadora de boas e más práticas de vida

A modelagem social se reproduz na intimidade da educação familiar. Seja na muito prevalente família monoparental, conduzida por mulheres, seja na família mais tradicional sob comando de um casal com seus filhos, a mulher vem sendo a grande regente da disciplina e dos desmandos na formação da criançada.

Coerente com isto, assistimos nossa sociedade avançar rapidamente para uma distribuição crescente de encargos e possibilidades para as mulheres. Isso inclui a aceitação crescente de hábitos mais tradicionalmente masculinos também para as mulheres. Elas bebem espumantes, degustam cervejas, vinhos e caipirinhas de morango, com elegância ou não, e pagamos todos por isso.

As meninas contemporâneas bebem junto com os meninos e já fumam mais. Sim, a sociedade homogeiniza a todos. Mas isso também não é sempre um benefício. Elas bebem e batem o carro. Bebem e têm gastrite, e seu hálito nem sempre é o mais doce. Elas têm de lutar ainda mais no controle de calorias ingeridas. Perversamente, algumas entornam bebidas em lugar de alimentos, na ilusão do controle de peso associado à diversão.

Enfim, mulheres, cada vez mais, bebem muito mais. Olhamos então para a educadora e modeladora mor de nossa sociedade e enxergamos uma mulher bebendo. Aliás, bebendo e tratando de filhos, bebendo e dirigindo sua vida, a deles, uma empresa, um setor de seu trabalho, um equipamento, seu carro.

Bebendo e repetindo padrões e valores de 52% de indivíduos da comunidade brasileira que bebem, elas garantem o mercado do álcool em nosso país. Sim, não é só no comercial bem humorado de bebidas alcoólicas, cheio de belas e instigantes mulheres, que ela faz sua presença. É também na elegância discreta das rodas sociais e familiares que a indústria da bebida a tem como ponta de lança.

É irrecorrível: a mulher em nosso país vem sendo cada vez mais a garota-propaganda do beber para si, suas amigas, seu parceiro e, repito incansavelmente, para seus filhos e filhas. Ao beber, a mulher consuma o desejo de empresários ambiciosos, ela legitima o álcool como um bem incontestável, o que é deslavada mentira.
Artigo produzido pelo presidente da Abead, Carlos Salgado.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)