Relação entre as diferentes dimensões do consumo de álcool e a carga de doenças: panorama global

A relação entre o consumo de álcool e seus efeitos na saúde é complexa e multidimensional. Além disso, novas associações entre o uso de álcool e doenças/agravos à saúde vêm sendo identificadas por pesquisas recentes, de tal forma que o esclarecimento das informações científicas acerca desse relevante tema se faz necessário. Um artigo publicado na conceituada revista científica Addiction traz um panorama do conhecimento atual sobre a relação entre as diferentes dimensões do consumo de álcool e os prejuízos agudos e crônicos à saúde.

De acordo com este estudo, os efeitos do uso de álcool à saúde são influenciados por vários aspectos do beber, tais como: volume de álcool consumido ao longo do tempo; padrões de consumo; e contextos relacionados à ingestão de bebidas alcoólicas. Esse é o mesmo escopo teórico utilizado na análise do uso de álcool do estudo denominado Global Burden of Disease and Injury, o qual faz parte de uma estratégia da Organização Mundial da Saúde (OMS), cujo objetivo é obter estimativas globais da mortalidade e incapacidade por diferentes causas.

Neste modelo, o consumo de álcool engloba múltiplos fatores intermediários e consequências a curto e longo prazo. Os três principais mecanismos intermediários existentes entre o volume médio consumido de álcool, padrão de consumo e a ocorrência de doenças já foram identificados, sendo eles: (1) efeitos biológicos, prejudiciais e benéficos, do álcool nos órgãos e tecidos; (2) embriaguez; e (3) dependência. Além desses, a qualidade das bebidas alcoólicas também afetaria os impactos na saúde, como por exemplo, pela presença de congêneres. Atualmente, sabe-se que diversos efeitos tóxicos das bebidas alcoólicas produzidas informalmente estão relacionados aos congêneres, que são compostos quimicamente relacionados ao álcool, produzidos durante a fermentação alcoólica ou adicionados durante o processo de produção da bebida, incluindo o metanol, aminas, amidas, cetonas, polifenóis, e outras substâncias que dão sabor e cor às bebidas alcoólicas.

Através de uma meta-análise baseada em uma extensa revisão sistemática da literatura científica, os autores classificaram as principais consequências negativas à saúde devido ao uso de álcool em três categorias: doenças ocasionadas exclusivamente pelo consumo de álcool (tais como a cirrose alcoólica, dependência do álcool, síndrome fetal alcoólica, entre outras); doenças crônicas e infecto-contagiosas para as quais o álcool é um fator contribuinte (HIV/AIDS, tuberculose, câncer colorretal e de mama, diabetes mellitus, doença isquêmica do coração); e prejuízos que têm o álcool como componente causal (lesões intencionais e não-intencionais).

Grande parte das doenças apresentou uma elevação no risco de ocorrência conforme o nível do consumo de álcool aumentava. Em particular, para a doença isquêmica do coração, a síndrome fetal alcoólica e lesões intencionais/não-intencionais foram estabelecidas relações causais tanto para o volume médio consumido quanto para o padrão de consumo de álcool. Foram encontradas evidências científicas suficientes para uma relação causal entre o álcool e a incidência de tuberculose, já que o consumo pesado de álcool pode afetar o sistema imunológico, o que aumentaria a susceptibilidade às infecções. Em contrapartida, para a infecção pelo HIV não foi possível estabelecer uma relação causal entre o uso de álcool e as atitudes comportamentais que podem levar o indivíduo a contrair o vírus do HIV. Neste caso, o consumo de álcool parece atuar como um marcador para outras variáveis que sustentam a associação entre o álcool e o sexo desprotegido, incluindo características de personalidade (como compulsão sexual) e transtornos psiquiátricos (por exemplo, transtorno de personalidade anti-social).

Evidências sugerem uma relação dose-resposta entre o álcool e todos os tipos de cânceres avaliados, apesar do entendimento dos mecanismos moleculares e bioquímicos envolvidos no desenvolvimento de câncer em diferentes órgãos ainda ser incompleto. Estudos demonstram que o consumo regular de 50 g de álcool* por dia pode aumentar o risco relativo de desenvolvimento de câncer colorretal em 10-20%.

Efeitos benéficos do uso de álcool também foram notados, como para a doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e Diabetes Mellitus, todos eles relacionados a padrões de consumo de álcool que variaram do leve ao moderado na ausência de episódios de consumo pesado (definidos como o consumo de 60g ou mais de álcool/dia).

Em paralelo, todos os tipos de lesões apresentaram uma relação causal com o álcool, principalmente aquelas oriundas de acidentes de trânsito, envenenamentos, quedas, afogamentos, acidentes com máquinas, violência interpessoal e auto-infligida. Embora existam evidências dos potenciais efeitos maléficos à saúde de congêneres presentes em bebidas alcoólicas, o impacto do consumo de bebidas alcoólicas ilegais não se mostrou maior do que os efeitos do álcool por si próprio, sendo necessárias pesquisas mais amplas para a conclusão definitiva de que a qualidade do álcool é capaz de influenciar de forma significativa os efeitos desta substância na saúde.

Em suma, os dados apresentados são consistentes com conclusões prévias de que o volume de álcool consumido está associado ao aumento no risco de ocorrência de diversas doenças (tanto agudas quanto crônicas) e lesões intencionais e não-intencionais. Essas evidências também apontam para um efeito protetor do consumo leve a moderado de álcool para algumas doenças, desde que esse padrão não seja acompanhado de episódios de consumo pesado de álcool, o qual seria responsável por um risco adicional ao gerado pelo volume de álcool consumido.

* Uma dose-padrão de bebida alcoólica (350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado) contém, aproximadamente, 10g de álcool puro.
Título: The relation between different dimensions of alcohol consumption and burden of disease: an overview
Autores: Rehm J, Baliunas D, Borges GLG, Graham K, Irving H, Kehoe T, et al.
Fonte: Addiction 105:817-843, 2010.
IF: 4.244
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool