Cachaça: um vício tão preocupante quanto qualquer outra droga

Uma trajetória de tentativas no combate ao álcool. É exatamente assim que pode ser resumida a vida de José Xavier de Almeida Sobrinho, mais conhecido pelos amigos do bairro de Lourdes, onde reside, como Baiano. Ele deu seu primeiro gole aos 12 anos de idade, época em que experimentou todos os tipos de bebida alcoólica, inclusive a cachaça.

A maioria dos casos semelhantes ao de Baiano pode ser comparada com a vida de sem-tetos que, ao contrário do que muitos imaginam, não fazem uso de drogas ilícitas, como a maconha, o crack, a cocaína, entre outras. E devido ao poder aquisitivo muito baixo, além de sobreviverem de esmolas, eles comumente se drogam com cachaças, popularmente chamadas de “carotinhos”.

“A cada ´carotinho´ tinha mais vontade de beber, e um gole apenas não era mais o suficiente para me deixar satisfeito. Dos 12 aos 20 anos, a minha vida era dividida entre o trabalho e a bebida. Mas, apesar de tudo, me considerava um homem feliz. O problema é que os anos foram passando e o vício pelo álcool se tornava a cada dia mais forte e presente na minha história.”

O “carotinho” é um pequeno recipiente de madeira ou plástico onde geralmente os consumidores de bebida alcoólica colocam a cachaça, também conhecida como pinga. Hoje, Baiano costuma beber um “carote” de pinga a cada período do dia. “Para mim é como se tivesse ingerindo uma cerveja ou qualquer outro tipo de álcool, o efeito não é muito diferente”, afirma o dependente químico (alcoólatra).

História de vida – Para muitos, a vida de Baiano pode ser considerada difícil e, acima de tudo, uma trajetória sofrida. Entretanto, ele tinha seus motivos de sorrir. “A minha bebida não me atrapalha em nada, eu tenho a minha casa, a minha cama, almoço de vez em quando e já fui até casado. A minha primeira esposa morreu, mas foi uma morte natural e não de desgosto, como muitos pensam.”

Entre as maneiras utilizadas para abandonar o álcool, todas as tentativas usadas com Baiano foram inválidas. Internações, remédios, religião, enfim, nada adiantou para o caso dele.
De acordo com um ex-patrão, José Xavier era um bom profissional de frigorífico. “Ele trabalhou comigo durante um tempo desossando carnes, e por sinal se revelou um funcionário muito empenhado e dava o melhor de si em tudo aquilo que fazia. Ele também foi contratado por um grande frigorífico da cidade para realizar a mesma função que desempenhava no meu comércio, mas infelizmente em todas as oportunidades de trabalho não permaneceu por um longo período. Depois de alguns meses, ele sempre se perdia na rua por causa do álcool e no outro dia simplesmente não aparecia no trabalho”, revela o ex-patrão.

Os pais do dependente quimico se afastaram dele assim que perderam as esperanças, que o filho se livrasse do vício precoce. “Minha mãe sumiu cedo de mim e tive que me virar sozinho nessa vida dura”, conta Baiano.

Hoje, Baiano tem 54 anos de idade, e uma condição mental totalmente dependente da cachaça. “Bebo uma vez por dia: começo de manhã e paro na hora de dormir. Mas sei que quando quiser parar eu paro. Só que como o álcool não me trás nenhum problema eu continuo bebendo”.

José Xavier, atualmente, não tem mais o auxílio de ninguém. Ele tinha o apoio de vários amigos, patrões, família, mas como nunca queria ser ajudado, ou mesmo, nunca levava os tratamentos adiante, perdeu sua esposa, seus filhos, e sua última namorada foi embora de casa por não agüentar mais àquela situação.

“Perdi muitas coisas na minha vida, família, trabalho, filhos, mas ainda não perdi o gosto de viver. O dia que quiser parar de uma vez por todas de beber, que sei que consigo, eu paro, e aí quem sabe a minha história não tenha um conto diferente”.
Fonte:Jornal de Uberaba/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)