Mais que esforço, fim do vício do crack esbarra no dinheiro

Viciados falam das dificuldades que tiveram durante a desintoxicação.

Mãos suadas, calafrios, desespero. A terrível sensação, fruto da abstinência, é apenas um dos desafios que os dependentes do crack têm de enfrentar durante o tratamento para se livrar da droga. Comprar uma pedra custa pouco, cerca de R$ 5, mas o preço que os usuários pagam para sair do vício é tão alto que alguns desistem. Numa clínica particular, por exemplo, uma diária chega a custar R$ 500. Ao final de um tratamento de três meses – tempo médio para a desintoxicação – lá se foram R$ 45 mil.

Além das clínicas, o usuário de crack tem a opção de ficar de seis a nove meses em uma comunidade terapêutica, onde receberá tratamento com foco no psicológico e na inserção social. Há, ainda, o sistema hospital-dia, onde o paciente é liberado na parte da noite. Os que trabalham podem pedir licença para se internar, pois a dependência é considerada doença.

Em Minas, existem 31 centros de tratamento vinculados ao Estado. Nenhum deles oferece tratamento gratuito, mas o usuário pode tentar uma bolsa junto ao governo. As comunidades terapêuticas são as que oferecem preços mais baixos, que variam de acordo com a renda do paciente e giram em torno de um salário mínimo por mês.

Segundo o psiquiatra especialista em dependência química Valdir Campos, durante o processo de desintoxicação, a maioria dos pacientes precisa utilizar medicamentos sintomáticos, que ajudam a amenizar os efeitos da abstinência. “As duas primeiras semanas são as mais difíceis. O paciente entra em depressão, fica agressivo. O remédio ajuda nesse momento”, diz.

Aos 63 anos, um funcionário público que não quis se identificar, conhece bem as dificuldades de se livrar do crack. Há cinco meses ele está internado numa comunidade terapêutica e faltando apenas 30 dias para o fim do tratamento, está otimista. Mas, a caminhada para chegar ao estágio atual foi penosa. “Comecei a usar crack aos 20 anos. Desfiz dois casamentos e perdi a companhia da minha filha que não aguentou ficar comigo. Fiquei num estado lastimável”, conta.

O processo de desintoxicação, explica, só foi possível porque era grande a vontade de se ver livre do crack. “A abstinência era forte. Chegava a sonhar que estava fumando”, lembra. Agora, diz ele, espera o melhor. “Sei que o mundo continua do mesmo jeito e que as bocas de fumo estão no mesmo lugar, mas agora tenho pavor de droga”.

Tratamento
Apoio da família é fundamental na ajuda a dependente

E não são apenas os dependentes de crack que pagam um preço alto pela recuperação. Num estágio de sofrimento igual ou pior ao deles, estão as famílias que também passam por diversas perdas na busca do tratamento contra o crack.

“Quando existe um dependente na casa, a família inteira sofre, mas os irmãos, pais, filhos e companheiros são muito importantes para o tratamento”, afirma a psiquiatra e diretora técnica da clínica de recuperação Santa Maria, Solange Mendonça.

Família foi uma das palavras-chave para a recuperação de Rodrigo Domingues, 27, que ficou dependente do crack por oito anos. Quando ele tinha 17 anos, sua irmã Quésia Cristina Domingues, 40, já casada, o levou para dentro de casa. “Na época tinha uma filha recém-nascida, mas meu marido aceitou, acreditando que ele podia se curar”, conta. Mas o jovem prosseguiu no vício até ser internado. Teve recaídas e se afundou ainda mais no crack. “Ele roubava coisa em casa e nos dava muito trabalho”, lembra. Quésia gastou mais R$ 3.000 com o tratamento do irmão. “Eu fazia doces para vender e meu dinheiro ia todo para ele”, diz.
Rodrigo foi internado pela segunda vez numa comunidade terapêutica e só então enfrentou o vício de vez. Hoje comemora dois anos de abstinência. “Não é possível explicar a sensação de liberdade. Refiz minha vida, voltei a trabalhar e vou me casar no final do ano. Agora o único trabalho que dou para minha irmã são as minhas bagunças pela casa”, brinca. (TB)
Fonte:O Tempo/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)