O mal que faz o cigarro elétrico

Cientistas da Universidade da Califórnia concluíram que não é nada saudável fumar os chamados e-cigs, pois as tragadas são dobradas e o esforço das seguidas sucções acaba provocando danos à saúde.

Má notícia para quem apostava nos cigarros elétricos como alternativa saudável à versão tradicional. Uma pesquisa divulgada pela Universidade da Califórnia provou que, para fumá-lo, a pessoa precisa fazer um esforço maior durante a sucção, o que pode provocar danos à saúde. Os também chamados “e-cigarros” tornaram-se populares recentemente nos Estados Unidos. Trata-se de um tipo de tabaco com pouca nicotina diluída, que funciona à base de uma bateria e um carregador.

A máquina que os pesquisadores usaram para simular o efeito do fumo eletrônico nos pulmões

Criado na China, ele seria indicado como uma terapia para quem está largando o vício, pois, segundo os fabricantes, proporciona a mesma sensação do cigarro (1) normal, mas não possui alcatrão nem aditivos. O mecanismo do aparelho é compensador, semelhante aos adesivos de nicotina, que liberam uma dosagem da substância para satisfazer o usuário. Nos locais onde o aparelho é vendido, como nos Estados Unidos e em alguns países europeus, o e-cigarro também é consumido para driblar a proibição de fumaça em recintos fechados. Embora ele emita um vapor semelhante ao do fumo tradicional, é totalmente inodoro.

Até agora, são poucos os estudos sobre os potenciais danos do cigarro eletrônico. Ainda assim, a Organização Mundial de Saúde não recomenda o aparelho e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua importação e comercialização no Brasil. O e-cigarro é constituído por um atomizador (artefato que asperge o líquido em minúsculas gotas) e um cartucho vendido à parte, que contém nicotina e propilenoglicol, substância química sem cheiro e sem sabor, usada para criar a névoa falsa, semelhante à fumaça.

Quando o fumante suga o ar pelo cigarro eletrônico, um sensor ativa a bateria, que aquece a ponta. Ela fica vermelha e quente, simulando um cigarro normal. Enquanto isso, o atomizador vaporiza o propilenoglicol e a nicotina. Na inalação, o vapor leva uma dose de nicotina aos pulmões, sendo que o resíduo do aerosol é exalado para o ambiente. Como o e-cigarro não contém tabaco, ele está livre das quase 5 mil substâncias químicas e tóxicas da versão tradicional.

Descoberta
Isso não quer dizer, porém, que o cigarro eletrônico seja saudável. Para testar seus efeitos sobre a saúde, os pesquisadores da Universidade da Califórnia usaram uma máquina e compararam as propriedades do fumo de oito cigarros convencionais e cinco marcas de eletrônicos. Eles descobriram que, para conseguir fumar os e-cigarros, é preciso aspirar com mais intensidade. Os cientistas também afirmam que, no caso dos eletrônicos, a densidade de aerosol cai depois de 10 tragadas, o que faz com que o fumante precise sugar ainda mais forte para conseguir produzir o gás pressurizado.

“Ainda é cedo demais para saber como exatamente os efeitos da forte inalação e da sucção do aerosol terão sobre a saúde humana, mas nos parece que o cigarro eletrônico parece levar as pessoas a fumarem mais, para compensar, assim como aconteceu anteriormente com os cigarros ´light´”, disse ao Correio Prue Talbot, professor de biologia e principal autor do estudo.

As marcas de cigarros convencionais examinadas e vendidas nos Estados Unidos foram Merit Ultra Lights, Marlboro Ultra Lights, Marlboro Lights, Marlboro Reds, Camel unfiltered, Camel Lights, Camel e Pall Mall. No caso dos e-cigarettes, foram estadas as marcas Liberty Stix, Crown Seven´s Hydro Kit, NJOY, Smoking Everywhere´s Gold Kit e VapCigs. “Nosso trabalho mostra que a densidade do aerosol diminuiu ao longo do uso dos e-cigarros, requerendo tragadas mais fortes para manter essa densidade. Os fabricantes sempre alegam que os cartuchos do cigarro eletrônico são equivalentes a um certo número de cigarros convencionais, mas essa informação não parece totalmente correta”, diz Talbot.

Dobro de tragadas
Segundo o pesquisador, no laboratório foi constatado que, enquanto as 10 primeiras tragadas são similares às de um cigarro convencional, as posteriores não conseguem levar ao organismo o mesmo nível de nicotina, fazendo com que o fumante trague mais do que o dobro para ter a sensação de saciedade fornecida pelos cigarros normais.

Talbot garante que, ao contrário do que dizem os fabricantes, os e-cigarros são muito diferentes dos convencionais. “Em testes preliminares, observamos que algumas marcas de e-cigarro são mais difíceis de fumar. O interior deles é muito denso, comparando-se à porosidade que existe nos cigarros feitos com tabaco”, diz.

“Esse artigo é o primeiro estudo detalhado mostrando que uma pressão na inalação muito maior é necessária para fumar os e-cigarros”, disse, por meio da assessoria de imprensa da Universidade da Califórnia, Kamlesh Asotra, administrador do Programa de Pesquisas sobre Doenças Relacionadas ao Tabaco da instituição. “Baseado no resultado desse artigo, os usuários não apenas ficarão mais atentos sobre as características do vapor e das propriedades dos cigarros elétricos, mas também os fabricantes saberão que a funcionalidade de seus produtos é inconsistente”, acredita.

1 – Perdas irreversíveis
O cigarro contém uma mistura de cerca de 5 mil substâncias tóxicas, entre elas o monóxido de carbono, o alcatrão, a nicotina e a água. O alcatrão, além dos radioativos urânio, polônio 210 e carbono 14, concentra 43 substâncias que provocam o câncer. Ressalte-se que a totalidade dos gastos sociais decorrentes do tabagismo supera em muito a arrecadação de impostos que ele proporciona: o câncer, segunda causa de morte por doença no país, é responsável por grandes gastos com tratamentos e internações hospitalares, uma vez que 90% dos cânceres de pulmão e 30% de todos os outros tipos de câncer são devidos ao tabagismo. As doenças cardiovasculares, primeira causa de morte no país, bem como a bronquite crônica e o enfisema, estão diretamente relacionadas ao uso de tabaco.

» A onda agora é vaporar

Apesar da proibição da venda e importação do produto no Brasil, alguns sites driblam a determinação da Anvisa e continuam comercializando os cigarros eletrônicos. O Correio entrou em contato, por e-mail, com um vendedor, que disse ter a mercadoria para pronta entrega, por R$ 299. O vendedor alerta que o produto pode causar dependência e também avisa que “não existe nenhum estudo que comprove a eficácia do produto como método para parar de fumar ”. Porém, sabendo que está agindo fora da lei, ele também deixa claro que não autoriza a divulgação das informações enviadas pelo e-mail.

Existe, inclusive, um fórum on-line dedicado aos usuários do e-cigarro no Brasil. Entre eles, fumar o cigarro eletrônico é chamado de “vaporar”. Um dos participantes, de 29 anos, conta que os “e-cigs” “satisfazem muito bem, dá pra parar na boa”. Mas ele também relata que “quando eu comprei meu primeiro líquido, de 16mg, achei uma paulada, tipo um estoura peito mesmo”.

Exagero
Segundo ele, com o tempo, o fumante vai se acostumando e “querendo cada vez mais”. Outro usuário, de 32, contou que precisa se “policiar” para não exagerar no consumo. “Eu levo 40 minutos da minha casa ao trabalho de carro. Vim vaporando de lá até aqui. Preciso me policiar, se não vai ser osso”, admite o fumante.

Já um usuário que não especificou a idade relatou, no fórum, sua experiência de 60 dias de uso do cigarro eletrônico. “Desde o primeiro dia, não fumei mais nem um cigarro convencional.” Segundo ele, respirar ficou mais fácil, e o pigarro sumiu. Mas ele também reconhece que está fumando mais do que nunca. “O fato de poder fumar dentro de meu escritório sem empestar o ambiente ou deixar cheiro, a empolgação com a novidade, a adaptação ao e-cig, bem como a sensação de que não faz tão mal me incentivaram a fumar mais que nunca. No começo, achei que fumaria menos, porque não tenho aquele compromisso de terminar um cigarro acesso, mas isso não aconteceu”, revela.
Fonte:Correio Braziliense/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)