Entrevista com Dr. Arthur Guerra de Andrade – Pesquisa sobre o Uso de Álcool,Tabaco e Outras Drogas

Prof. Dr. Arthur Guerra de Andrade, Médico Psiquiatra; Prof. Associado do Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina da USP; Prof. Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica, Faculdade de Medicina do ABC e Presidente Executivo do CISA.

1. Qual a importância do “I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras”, que foi divulgado recentemente?

Pesquisas sobre a epidemiologia do uso de drogas apontam que a prevalência do consumo de álcool e/ou outras substâncias é bastante alta entre os jovens adultos (18-24 anos), um grupo que também está mais vulnerável às consequências associadas a esse uso, tais como brigas, acidentes de trânsito e sexo desprotegido. Este levantamento é um estudo inédito, tendo sido realizado com universitários brasileiros de todo o país, a partir do qual foi possível estimar a prevalência (na vida, no ano e no último mês) e os padrões de uso de álcool, tabaco e outras substâncias, também possibilitando o conhecimento de transtornos relacionados ao uso de substâncias, em termos de abuso (uso de risco moderado para o desenvolvimento de dependência) e dependência (uso de risco alto para o desenvolvimento de dependência), comportamentos de risco, prevalência de sintomas de sofrimento psicológico, depressão e sintomas persecutórios. Os resultados encontrados auxiliarão no planejamento e no desenvolvimento de políticas públicas visando à diminuição das consequências nocivas do uso de drogas pelo segmento social dos estudantes de ensino superior, além de servir como base para intervenções específicas voltadas ao problema do uso de drogas no Brasil.

2. Qual foi a metodologia utilizada na realização desta pesquisa?

Este foi um estudo epidemiológico com delineamento do tipo transversal (em um determinado período no tempo) que avaliou uma amostra representativa da população de universitários em âmbito nacional. Foram entrevistados 12.856 universitários matriculados no ano letivo de 2009, em cursos de graduação presencial de 100 instituições públicas e particulares de ensino superior nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. Além disso, também foram coletados dados específicos sobre o comportamento e atitudes (em relação ao uso de drogas) pelos alunos da Universidade de São Paulo (USP) dos campi da Cidade Universitária, Complexo da Saúde e Faculdade de Direito, totalizando então uma amostra de quase 18.000 universitários, acompanhando o tamanho amostral de levantamentos internacionais de mesmo porte e objetivo.

3. Com relação aos resultados sobre o uso de álcool, quais podem ser considerados preocupantes em termos de saúde pública?

Os resultados obtidos demonstraram que o uso de álcool é muito frequente entre os jovens universitários. Para se ter uma idéia, 86,2% dos jovens entrevistados já fizeram uso de álcool na vida, e 25,3% dos entrevistados consumiram álcool nos últimos 30 dias em padrão binge (que corresponde ao consumo excessivo de álcool em um curto intervalo de tempo). Além disso, constatamos que 50% dos estudantes fizeram uso do álcool antes de completar 16 anos de idade. Mais preocupante, cerca de 19,2% dos universitários usam álcool de forma abusiva (uso de risco moderado para o desenvolvimento de dependência) e 2,6% já poderiam ser diagnosticados como dependentes (uso de risco alto para o desenvolvimento de dependência). Outro dado que vale mencionar é que 18,7% dos universitários usam 2 ou mais substâncias nos últimos 30 dias. Além disso, 43,4% dos universitários afirmaram já ter usado, na vida, alguma outra substância juntamente com álcool, das quais as associações mais comumente relatadas foram álcool-bebidas energéticas; álcool-tabaco; álcool-maconha, álcool-cocaína e álcool-ecstasy, nessa ordem. Em termos de saúde pública são números preocupantes, uma vez que o consumo no padrão binge pode levar a consequências severas à saúde do indivíduo, e que o início precoce do uso de álcool aumenta a predisposição à dependência alcoólica. Ademais, o uso nocivo de álcool expõe o indivíduo a acidentes automobilísticos, comportamentos sexuais de risco, prejuízos acadêmicos, violência interpessoal, entre outros.

4. Em sua opinião, quais as maiores dificuldades para realizar Levantamentos Nacionais sobre o uso de álcool e/ou outras drogas no Brasil?

Como toda pesquisa científica, tivemos algumas dificuldades durante a realização do trabalho de campo. Mas, no geral, foi uma parceria de sucesso. Tivemos a aceitação de participação e o apoio de quase 90% das Instituições de Ensino Superior (IES) sorteadas, apontando que o uso de drogas é um tema que preocupa toda nossa sociedade. Além disso, das turmas que foram sorteadas a participar, tivemos 70% de resposta, com condições de divulgar e enquadrar nossos resultados a nível mundial, como têm sido feito exemplarmente pelas pesquisas norte-americanas. O que mais me satisfaz é saber que esse tipo de trabalho é raro no mundo. Muitos dos países europeus, desenvolvidos, ainda não têm esse tipo de pesquisa, apontando que somos pioneiros, especialmente se considerarmos nossos companheiros da América Latina. Possivelmente venhamos a acompanhar bienalmente esse comportamento dos universitários, para então testar estratégias de intervenção em todo o país, desenvolvendo um produto nacional, sem a necessidade de importamos e adaptarmos modelos prontos dos Estados Unidos. Mas, fechemos uma gaveta para abrir outra. Já demos o primeiro passo, os demais serão conseqüência e virão naturalmente.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool