Os riscos da liberalização

A liberalização de substâncias como a maconha destoa de todo o esforço da sociedade para o efetivo controle sobre outras drogas, inclusive as lícitas.

Basta observar o posicionamento restritivo em relação ao tabaco, que ofereceu benefícios amplos para a população e reduziu custos do Estado com a saúde.

Está claro que a liberalidade para com a maconha vai produzir mais usuários, pois a média dos candidatos ao uso, quando se depararam com o ilícito, recua, ao passo que na liberação, todo o tecido social passa a perceber como benigna uma substância que de fato não é. O consumo do álcool e tabaco serve como exemplo dessa perspectiva.

A equivocada convenção social de que existem drogas que não representam perigo resulta em um grande problema de saúde pública. E atualmente a maconha é um grande problema dessa ordem no mundo inteiro, por ser a droga mais consumida entre as ilícitas.

A substância é também uma das principais portas de entrada para o consumo de outras drogas, assim como ocorre com o tabaco, principalmente entre os jovens.

Argumentos como o de que a maconha poderia ter fim medicinal não justificam a liberalização, já que existem alternativas que não implicam o uso da substância ou seu extrato. Nesse sentido, é importante que não fiquem margens para que os pareceres e opiniões sejam interpretados de maneira equivocada, validando o consumo de drogas ilícitas.

Ao cogitarmos a liberalização é necessário lembrar que o consumo de substâncias líticas ou ilícitas tende a desenvolver um processo de “evolução”. A estimativa é de que 1 em cada 10 usuários de maconha torna-se dependente em algum momento quando o consumo de estende por 4 a 5 anos.

Vale lembrar que a substância, fora a dependência, pode causas câncer de cabeça, pescoço e pulmão e uma série de outras complicações. A mais preocupante segue sendo o risco de psicose em sujeitos vulneráveis, com ou sem história familiar de esquizofrenia. Para esses indivíduos suscetíveis, a maconha pode acarretar a antecipação e o agravamento de uma doença muito grave.

As políticas públicas de combate às drogas e tratamento de dependentes, além do envolvimento da sociedade, são fundamentais para avanços.

Medidas como a distinção entre quem comercializa a droga e o usuário, que necessita de tratamento, são benéficas, mas isso não pode justificar a liberalização. Se esse fosse o caso, teríamos que liberar qualquer substância que o próprio usuário produzisse? É no mínimo preocupante.

Carlos Salgado, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).
Fonte:Jornal da Tarde/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)