Depender de álcool é doença

O Congresso reconheceu fato amplamente divulgado por especialistas e divulgado pela mídia. O álcool, ao contrário do que muitos querem fazer crer, não é bebida inofensiva.

Causa dependência. E a dependência é doença. O Projeto de Lei 48, de 2010, aprovado pelo Senado na semana passada, mostra a dimensão do mal e o custo que representa para a sociedade.

De um lado, aumenta a violência. As agressões domésticas têm um denominador comum — o consumo de bebida alcoólica pelo algoz. O marido que bate na mulher, a mulher que maltrata os filhos, os vizinhos que se enfrentam em geral com arma na mão. Os confrontos não raro acabam em tragédia. Processos que tramitam nas varas de família testemunham a dimensão do drama. A droga líquida responde pela esmagadora maioria da desestruturação de lares.

Outro não é o alvo da lei seca. Ao estabelecer tolerância zero na relação álcool e volante, o legislador não deixou dúvidas sobre os estragos que o motorista, seja em que grau de embriaguez for, causa no asfalto. Ao consumir cerveja, vinho, uísque ou cachaça, o condutor muda o comportamento — embota os reflexos e flexibiliza os limites. Precisa de mais tempo para responder aos imprevistos do trânsito. Em situações de risco, segundos custam vidas. Também vira valentão. É comum que uma fechada, uma buzinada ou um gesto deselegante acabem em morte.

Apesar das consequências comprovadamente desastrosas, o álcool é visto como inofensivo. Pais incentivam os filhos experimentar a bebida em casa — em festas, reuniões familiares, ou no dia a dia. Estudos da Unesco provam que alunos de 12 anos, de escolas públicas ou particulares, tiveram experiência com bebida alcoólica. Alguns se viciaram. E abriram as portas para as drogas ilícitas. O consumo de maconha, cocaína ou crack torna-se escalada natural de quem aprendeu cedo a romper a barreira do aceitável.

A televisão faz propaganda do álcool em horário nobre. Glamouriza o produto como há anos se glamourizava o cigarro. A venda é livre em supermercados ou lojas de conveniência. O preço, ao contrário do que ocorre em boa parte dos países, é convidativo. O projeto aprovado pelo Congresso faz o alerta. Passou da hora de mudar. Além de aumentar a violência e dificultar a aprendizagem, o vício prejudica o desempenho profissional.

O trabalhador diagnosticado como dependente de álcool não pode ser demitido. Precisa se submeter a tratamento médico e psicológico. A constatação deve alterar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o Regime Jurídico dos Servidores Públicos da União (RJU) e o Plano de Benefícios da Previdência Social. Fica a lição que o país insiste em não aprender. Remediar é mais difícil, mais caro e menos seguro que prevenir.
Fonte:Correio Braziliense/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)