Desospitalização prejudicaria tratamento de dependentes químicos

Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2010, da ONU, o consumo de cocaína e derivados vem aumentando na América Latina, contrariando uma tendência mundial de diminuição do consumo dessa droga.

Só no Brasil, no ano passado, o relatório apontou que o consumo de cocaína quase dobrou em três anos, em parte por causa do consumo de crack. Além disso, para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD), o Ministério da Saúde, assim como a Secretaria Nacional de Drogas, tem ignorado a questão da dependência química, sem apresentar nenhuma política pública que seja consistente com a gravidade do problema.

Laranjeira, cujo instituto foi selecionado em 2008 para tornar-se o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas do Álcool e Outras Drogas, acredita que a defasagem do governo para lidar com a situação é por basear-se em políticas públicas ultrapassadas. Ele lembra que na década de 1980, 40 mil leitos psiquiátricos foram fechados, assim como os hospitais psiquiátricos. “Existe ainda um discurso de fechamento de hospital psiquiátrico, mas não foi apresentada uma nova proposta para a psiquiatria do século XXI”, diz.

Segundo o psiquiatra, hoje a orientação do Ministério da Saúde é de encaminhar os dependentes químicos para os Centros de Atenções Psicossociais, ou CAPS, que são centros de assistência que não proporcionam a internação dos pacientes. “O que é um grande problema porque em algumas doenças, como o crack, o usuário não vai aos CAPS e, se vai, não fica em tratamento. Então, o que acaba acontecendo são centenas de milhares de usuários de crack que ficam absolutamente desassistidos”, completa. Ele também alerta que muitos dos CAPS, são 57 apenas no estado de São Paulo, não tem estrutura nem equipe médica – em parte porque os centros são montados pelo Ministério da Saúde e repassados para os municípios, que não conseguem mantê-los.

Para apresentar alguma alternativa ao problema, a equipe da UNIAD firmou uma parceria com o governo do estado de São Paulo para a construção de novos leitos exclusivos para o tratamento de dependentes químicos. Segundo Laranjeira, mais de 100 leitos já estão disponíveis, localizados em hospitais em São Bernardo do Campo, Itapira e Itapecerica da Serra – e serão 200 leitos até o final do ano. O psiquiatra alerta que as unidades são caras, mas necessárias, principalmente nos casos mais graves, como na dependência do crack. Ele explica que os esforços são para futuramente estabelecer um modelo de tratamento para os doentes brasileiros que esteja de acordo com as necessidades do país. “Nós podemos falar dessa experiência já de mais de um ano dessas enfermarias, e podemos mostrar o custo-benefício, os problemas, para aí definirmos qual é o próximo passo”, completa.
Fonte:Com Ciência/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)