Com ajuda médica, até 60% conseguem para de fumar

Foi quando constatou que tinha vergonha de cumprimentar as pessoas cheirando a cigarro que a aposentada Creuza Rocha Rosário, 69, resolveu procurar um médico para tentar parar de fumar. “Eu tenho diabetes, hipertensão, gastrite, mas nunca tinha me esforçado para largar o cigarro”, conta. Ela faz parte de um grupo ainda pequeno de pessoas que encaram o tabagismo como doença e procuram tratamento médico para enfrentá-lo. Muitos fumantes não sabem, mas quem tenta parar sozinho tem apenas 3% de chances de conseguir, enquanto quem procura ajuda médica tem até 60%. Os números são do Departamento Norte-Americano de Saúde e Serviços Humanos e reforçam o Dia Nacional de Combate ao Fumo, comemorado ontem no Brasil.

Segundo Sérgio Ricardo Santos, pneumologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo (PrevFumo), a busca por profissional especializado deve nortear o tratamento. “Muitos não sabem a quem pedir ajuda. Todo núcleo social, como a família, pode favorecer o sucesso do tratamento, porém, o apoio de profissionais de saúde o amplifica fortemente”, ressaltou em workshop sobre o assunto realizado em São Paulo na última semana.

Existem duas diferenças básicas entre procurar um médico para tratar a doença e tentar se livrar dela sozinho: o acompanhamento, que dá suporte emocional ao paciente, e o uso de medicamentos, que têm taxas de sucesso entre 40% e 60%.

Mas, de acordo com o pneumologista, não adianta forçar o fumante a parar. “Praticamente todos sabem que fumar faz mal. Mas, sem que reconheça os benefícios, não haverá mudança de comportamento. Os fumantes passam por algumas fases até estarem realmente dispostos a parar. É preciso incentivá-los a tomar essa decisão”.

Segundo Sérgio Santos, a pressão desmedida só piora a situação. Mas, quando o fumante começa a aceitar a ideia de parar, as pessoas mais próximas são as que têm maior poder de convencimento. “Pais, melhores amigos, namorados ou cônjuges, depois outros familiares e colegas de trabalho são os que exercem maior influência. Então, essas pessoas precisam saber o que fazer para ajudar”. A abordagem pode ser feita com mais ou menos ênfase, de acordo com a fase em que o fumante se encontra.

Nunca é demais lembrar que a sobrevida de quem para de fumar aumenta e que, quanto antes a pessoa largar o cigarro, melhor. Segundo o estudo “Mortalidade em Relação ao Fumo”, feito com quase 2.000 médicos britânicos fumantes, que foram acompanhados durante 50 anos, se a interrupção vier antes dos 35 anos de idade, a expectativa de vida chega a se igualar à de pessoas que nunca fumaram. Em compensação, se o fumante só parar depois dos 55, a expectativa aumenta, mas não chega a se igualar à de quem nunca experimentou o tabaco.

A longevidade vem associada a uma melhor qualidade de vida. Segundo a pneumologista Maria Vera de Oliveira Castellano, depois de apenas um dia longe do cigarro, as chances de sofrer um ataque cardíaco já diminuem. “Para a mulher, essa qualidade é ainda mais acentuada. O tabagismo pode comprometer o aparelho reprodutor e afetar a capacidade de concepção”, ponderou.

Por ano SUS gasta R$ 338,7 mi

O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta cerca de R$ 338,7 milhões por ano com internações por doenças relacionadas ao tabagismo, como câncer e enfermidades dos aparelhos circulatório e respiratório. O cálculo foi feito por duas pesquisadoras da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e se refere ao que foi gasto em 2005 com indivíduos com mais de 35 anos de idade. O valor representa 27,6% dos custos totais dos procedimentos analisados para os três grupos de doenças.

No período, foram realizadas 401.932 internações de mulheres e 512.173 de homens com 35 anos ou mais. Desse total, 35,9% do sexo masculino e 27% do feminino foram atribuíveis ao tabagismo. As autoras do estudo, Maria Alícia Ugá e Márcia Pinto, destacam que os resultados são conservadores para o Brasil e sugerem a necessidade de dar continuidade às pesquisas sobre o assunto. “O tabagismo foi responsável por 7,7% dos custos de todas as internações e procedimentos de quimioterapia pagos pelo SUS para todas as patologias em 2005. Entretanto, essa participação estimada pode ser considerada como a ponta do iceberg da real carga econômica do tabagismo para o SUS”, disseram.
Autor: Raíssa Maciel
OBID Fonte: O Tempo