Só com ação integrada

Segundo especialistas, para conter o crack, políticas precisam englobar do tráfico ao tratamento multidisciplinar de quem usa a droga.

Do menino de rua com ossos à mostra, cena típica da única cracolândia do país no fim da década de 1980, localizada no centro da cidade de São Paulo, o problema começou a se expandir. A primeira influência surgiu nos índices de violência urbana, chegou aos filhos da classe média, escancarou a falta de preparo da rede pública de saúde para lidar com uma droga tão devastadora e intrigou médicos que tentam elaborar uma terapêutica adequada. Luz vermelha mais do que acesa, depois das inúmeras cracolândias instaladas pelo Brasil afora, de índios e trabalhadores rurais fumando a pedra, crianças se prostituindo em busca do próximo cachimbo, resta ao governo federal um gigantesco desafio: combater o crack desde a entrada do produto no país até a recuperação dos usuários. Tarefa que o presidente atual, Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou neste ano, lançando um plano específico sobre o assunto, cujos resultados ainda são duvidosos. Pelo menos até agora.

“O fato é que o Plano de Enfrentamento ao Crack, do governo federal, fala, por exemplo, em ampliação de leitos em hospitais gerais. Ora, hospital geral não tem estrutura para atender usuários de crack, ele é um paciente agressivo, diferente”, critica Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos maiores pesquisadores na área de drogas no país. Segundo ele, o desafio do próximo presidente começa no combate ao tráfico. “A estratégia deve ser parecida com a da cocaína, principal produto do crack. Primeiro, é estabelecer acordos na América Latina. Com a Bolívia, maior produtora de cocaína, o Brasil não conseguiu fazer parceria nenhuma. E enquanto a Bolívia continuar produzindo a droga, ficaremos enxugando gelo, apesar dos esforços na fronteira”, afirma o psiquiatra.

A ação atual mais ousada nesse sentido, a Operação Sentinela, comandada pela Polícia Federal, apreendeu 46 toneladas de drogas em cinco meses nas fronteiras brasileiras, entre elas maconha, cocaína, pasta-base, crack e haxixe. Mas estudo recente da Organização das Nações Unidas (ONU) mostrou que o Brasil continua sendo um importante receptor e corredor de drogas. A estimativa do organismo internacional é de que existem 900 mil usuários de cocaína no país — público de risco para o crack. Quanto ao tratamento, a rede disponível é considerada insuficiente e despreparada até pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão. São 2,5 mil leitos em hospitais gerais, com promessa para dobrar o número até o fim do ano. Outro serviço, os 231 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), especializados em drogas, além de reduzidos em quantidade, padecem de inúmeras críticas.

Internações
“Por conta da lei antimanicomial, há restrição de internações nos Caps. E mesmo nos hospitais psiquiátricos, o tempo da internação é muito curto. Só que o usuário de crack precisa de desintoxicação internado, senão não consegue”, afirma a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, da Unidade de Dependência Química da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com ela, não só a internação e os serviços complementares devem ser ofertados ao viciado grave em tratamento. “Essa pessoa geralmente estará com problemas diversos relacionados ao vício, como violência doméstica, criminalidade, subnutrição doenças oportunistas e sexualmente transmissíveis. Então, o próximo presidente terá de oferecer locais de atendimento com uma equipe multiprofissional, que inclua assistentes sociais, advogados, entre outros”, afirma Camila.

Magreza salientada nos ossos do rosto e da clavícula, Emília é um dos 600 mil usuários de crack no país, segundo estimativa do Ministério da Saúde, para os quais o serviço público ainda não se fez presente. Ela mora na rua há cerca de dois anos, mais precisamente na Rodoviária do Plano Piloto do Distrito Federal. No lugar, Emília só faz praticamente duas coisas todos os dias: fuma a pedra comprada a qualquer hora ao lado de pedestres que caminham nas imediações da plataforma inferior do terminal e pede dinheiro aos frequentadores do local para bancar o vício. A paraense de Belém há tempos não sabe dos três filhos. “A assistência social tomou de mim”, diz a mulher de 27 anos, sem demonstrar emoção. A cada pessoa posicionada em filas para tomar o ônibus na Rodoviária, Emília pede “só R$ 0,10”. Com R$ 5, ela consegue comprar uma pedra pequena, o bastante para ficar meia hora “de boa”.
Fonte:Correio Braziliense/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)