Um caso feliz

A metaformina , dizem os cientistas norte-ameircanos, pode servir como agente de prevenção de fumantes com alto risco de desenvolvimento de câncer de pulmão, mas isso não anula o fato de que a melhor estratégia é parar de fumar

Na medicina, muitas vezes ocorre de um medicamento desenvolvido para uma doença específica se mostrar eficaz no combate a um mal completamente diferente. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o AZT, remédio recomendado para pacientes com câncer e que, mais tarde, transformou-se na primeira droga efetiva contra a Aids. Agora, uma equipe de pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos descobriu um novo uso para a metaformina, substância indicada para o tratamento do diabetes tipo 2. Eles concluíram que a droga é extremamente eficaz na prevenção de tumores malignos induzidos pelo uso do tabaco.

Segundo o estudo, publicado na edição deste mês do jornal da Associação Americana por Pesquisas sobre Câncer, a metaformina conseguiu diminuir os tumores de pulmão desenvolvidos em ratos de laboratório que foram expostos à NNK, uma molécula derivada da nicotina, apontada como a substância mais cancerígena do tabaco. Já se sabia, anteriormente, que a substância conseguia ativar no organismo uma enzima que regula o crescimento desordenado das células decorrentes da exposição ao tabaco. Baseados nessa informação, os cientistas resolveram testar se a metaformina também poderia ser usada como agente de prevenção para fumantes que estão com grande risco de desenvolver câncer de pulmão.

“Apesar de parar de fumar ser o passo mais importante para os atuais fumantes, mais de 50% dos cânceres de pulmão são diagnosticados em ex-fumantes, aumentando a importância de identificar quem são as pessoas em risco e quais são os tratamentos mais efetivos”, disse em uma teleconferência de imprensa um dos pesquisadores, Scott Lippman. “Esse importante estudo, aliado a pesquisas prévias e dados epidemiológicos, sugerem que a metaformina pode ser uma aliada na prevenção e no tratamento do câncer”, afirmou.

De acordo com Lippman, estudos epidemiológicos realizados antes da pesquisa do Instituto do Câncer haviam mostrado que diabéticos que tomavam o medicamento tinham um risco menor de desenvolver o câncer. Segundo o cientista, no novo estudo, foi verificado que a droga também pode ser efetiva para o restante da população.

Convidado para comentar o resultado da pesquisa, o diretor do centro de câncer do Beth Israel Deaconess Medical Center, Lewis Cantley, escreveu um artigo, publicado também no jornal da Associação Americana por Pesquisas sobre Câncer. “Terapias-alvo têm impactado o curso dos tratamentos do câncer, mas elas precisam se estender também para o lado da prevenção. Por isso, terapias como a da metaformina, que fornecem uma boa promessa de como prevenir e evitar a progressão do câncer, têm um substancial impacto benéfico sobre a mortalidade provocada pelos tumores”, afirmou.

Dieta
Também na linha da prevenção, outro estudo publicado pela Associação Americana por Pesquisas sobre Câncer mostrou que adicionar uma boa variedade de vegetais à dieta diminui o risco de desenvolvimento do câncer de pulmão, principalmente entre fumantes. “O consumo de frutas e legumes, independentemente da quantidade, é um fator preventivo, mas é bom lembrar que a melhor ação de prevenção é parar de fumar”, disse Bas Bueno-de-Mesquita, cientista do Instituto Nacional de Saúde Pública da Holanda, no texto de apresentação do estudo.

Ele utilizou informações de uma pesquisa epidemiológica realizada na Europa, com 452.187 participantes, dos quais 1.613 tinham câncer. Os entrevistados também comentaram sobre seus hábitos alimentares — 14 tipos de frutas e 26 legumes ou verduras foram citados entre os participantes. Os resultados mostraram que a quantidade de vegetais ingeridos diminui o risco de câncer de pulmão, em particular um tipo específico de carcinoma, entre fumantes.

Segundo os pesquisadores, o risco diminui ainda mais quando a dieta é composta por uma grande variedade de vegetais e frutas, independentemente da quantidade de porções consumidas por dia. A maior proteção contra o carcinoma está relacionada à diversidade dos alimentos ingeridos. “As frutas e os vegetais contêm muitos compostos bioativos, por isso é importante consumir não apenas grandes quantidades de um mesmo tipo, mas ingerir um mix de vegetais, para tirar proveito da diversidade de compostos”, explicou Bas Bueno-de-Mesquita, no estudo.

Ele acredita que, embora várias pesquisas prévias tenham mostrado a influência da ingestão de vegetais no combate ao desenvolvimento do câncer, essa é a primeira vez que se mostra que a diversidade de frutas, legumes e verduras ingeridos pode ser mais importante do que a quantidade. “O resultado é muito interessante e demonstra um efeito protetor para os fumantes. Infelizmente, ainda há bilhões deles no mundo, e muitos são dependentes da nicotina e não conseguem parar de fumar, apesar de se esforçarem arduamente para isso.”

O cientista lembra que a fumaça do tabaco contém uma complexa mistura de agentes causadores do câncer. Por isso, consumir um mix de agentes preventivos é necessário para reduzir os riscos de se desenvolver câncer de pulmão. Mas ele faz questão de enfatizar: “Lembrem-se que a única maneira de prevenir completamente esse tipo de câncer é nunca chegar perto de um cigarro”.
Autor: Paloma Oliveto
OBID Fonte: Correio Braziliense com informações do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos