Direto do Cérebro

Nos laboratórios da UFMG, pesquisadores lutam para descobrir o funcionamento da anandamida e como ela poderia ser utilizada como medicamento

Em sânscrito, ananda significa algo como serenidade ou felicidade suprema. A palavra virou inspiração para que a comunidade científica batizasse como anandamida uma substância endógena (produzida pelo organismo; no caso, o cérebro humano) descoberta em 1992. Ela pode ter efeitos analgésicos, ansiolíticos e antidepressivos semelhantes aos do THC, componente da espécie vegetal Cannabis sativa, mais conhecida como maconha.

Entender melhor as funções dessa substância endógena, para que ela possa ser usada de forma medicinal, é o objetivo dos professores Fabrício Moreira e Daniele Cristina de Aguiar, que desenvolvem, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisas sobre a anandamida, o THC e outras propriedades da Cannabis sativa. Os estudos têm colaboração do Instituto Max Planck de Psiquiatria de Munique (Alemanha) e dos departamentos de Neurociências e de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, unidade de Ribeirão Preto.

“Não se trata de apologia à maconha”, ressalta, pela segunda vez durante a entrevista, o professor de farmacologia Fabrício Moreira, 33 anos, acrescentando que a droga causa problemas sim. “Mas é sabido que ela tem potenciais medicinais. Nossa intenção é tirar proveito da parte positiva, usando uma substância análoga. No caso, a anandamida”, explica. Em relação aos problemas causados pela maconha no organismo humano, o professor cita a perda de memória e de coordenação motora, entre outros.

No Laboratório de Neuropsicofarmacologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Fabrício e Daniele Aguiar testam em animais (camundongos) os efeitos da anandamida e do THC. Além disso, estudam outras substâncias da maconha, a exemplo do canabidiol, com o intuito de contornar os problemas advindos do uso do THC. “Em colaboração com a USP de Ribeirão Preto, já identificamos diversas propriedades farmacológicas do canabidiol”, diz Moreira.

O professor acrescenta que o principal desafio — e, ao mesmo tempo, a abordagem mais promissora — talvez seja aumentar os níveis da anandamida no cérebro, de modo a potencializar os efeitos benéficos da substância e evitar a administração de THC. “Desde a década de 1980, o mundo científico começou a entender como a maconha interfere em locais específicos do cérebro, mas ainda não se sabe como evitar completamente seus efeitos danosos”, explica.

Comparando resultados
Nos camundongos, os pesquisadores injetam doses de THC e também de URB 597 (uma substância sintética produzida na Universidade da Califórnia, que reproduz os efeitos da anandamida) para analisar e comparar resultados. De acordo com os professores, a conclusão dos estudos poderá servir de suporte para as indústrias farmacêuticas um dia virem a produzir um medicamento que aumentaria os níveis de anandamida no organismo, o que seria usado de forma terapêutica. Ou ainda no tratamento de dependentes com transtornos de uso da substância, que seria a terapia de substituição contra a abstinência de maconha. Dizem ainda que, no caso do tratamento da heroína, por exemplo, já existe um medicamento que serve de “substituto” da droga para minorar os efeitos da abstinência.
Autor: Alfredo Durães
OBID Fonte: Correio Braziliense