Após a 1ª dose de álcool, motoristas já derrubam cone em teste de direção

Uma única dose de bebida alcoólica é suficiente para alterar a maneira que o motorista dirige. Foi o que mostrou um teste realizado ontem pela manhã pela Polícia Militar de Trânsito no Sambódromo, em Bauru, São Paulo. Seis voluntários, em jejum, fizeram um teste prático de carro, numa pista montada no local que dispunha de cones como obstáculos, sem dificuldades. Em seguida, ingeriram álcool e fizeram o trajeto outra vez. Logo após tomar a primeira dose, todos os seis motoristas derrubaram pelo menos um dos cones do percurso.

Os motoristas voluntários foram divididos em dupla e cada uma delas ingeriu um tipo de bebida – cerveja, vinho ou whisky. E o teste continuou com mais duas doses da mesma bebida para cada um dos participantes. A cada etapa do teste, os motoristas eram submetidos ao bafômetro, que logo após a primeira dose de álcool já apontou alteração em todos os seis voluntários.

Ao final do teste, que foi coordenado por um instrutor de autoescola, a conclusão: a ingestão de álcool pode provocar no motorista redução da visibilidade periférica, diminuição da atenção, da concentração e aumentar a agressividade ao dirigir. O teste, em parceria com a Universidade do Sagrado Coração (USC), reuniu pessoas da comunidade, policiais do trânsito e estudantes universitários, e é uma antecipação da série de atividade da Semana do Trânsito.

Entre os motoristas voluntários estavam estudantes, policiais e funcionários da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb). A proposta do teste prático de direção sob influência de álcool é prevenir acidentes e instruir a população sobre os cuidados que se devem ter ao assumir a direção de um veículo, como não dirigir sob o efeito do álcool.

O teste foi gravado em vídeo e poderá ser apresentado em programas de educação no trânsito. O professor José Rafael Mazzoni, da USC, adiantou que estudantes e visitantes que participarem da Feira de Profissões, promovida pela universidade na próxima semana, poderão assistir a demonstração e entender o que acontece com o motorista após a ingestão de álcool.

“Nossa expectativa é receber 10 mil pessoas e teremos um telão no pátio da universidade expondo os efeitos da ingestão do álcool”, ressaltou Mazzoni. Durante o experimento, equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) estiveram disponíveis para qualquer eventualidade, mas não houve necessidade de atendimento médico.

Para escolher os motoristas para participar do teste prático de carro sob influência de álcool, a Polícia Militar definiu alguns critérios. “Não é qualquer pessoa que pode se submeter a essa experiência”, explicou o tenente Roberto Trujillo Júnior, comandante do Pelotão de Trânsito. Segundo ele, a admissão dos voluntários considerou o biotipo, a massa corporal, entre outras características que são adequadas ao teste.
Fazem parte da Semana do Trânsito outras atividades que começaram no início do semestre, como o Programa Gorro Amarelo, que percorre escolas a fim de educar crianças e adolescentes para o trânsito e prevenção de acidentes. A iniciativa, que foi retomada no mês passado em Bauru após ser interrompida por alguns anos, já formou 300 alunos. A Semana do Trânsito fará também exposição na Praça Rui Barbosa com veículos envolvidos em acidentes de trânsito.

Biotipo influencia

O técnico de enfermagem Tadeu Raimundo explicou que a absorção do álcool varia de pessoa para pessoa. “Fatores como estatura, peso e hábito de consumo do álcool, e certas doenças, como diabetes, interferem na absorção do organismo das bebidas”, aponta.

“Geralmente, uma pessoa com maior estatura e porte físico, tem a absorção mais lenta da bebida. Então, e efeito se torna mais devastador em pessoas com menor estatura e massa corpórea, de forma geral”, exemplifica.

Atenção diminui e agressividade, aumenta

Já nas primeiras etapas do experimento, logo após a ingestão da primeira dose de bebida alcoólica, os motoristas voluntários começaram a sentir as diferenças no volante. “Eu senti que fiquei mais autoconfiante, fiquei mais agressiva e acelerei mais o carro”, disse a estudante e voluntária Érika Agostini, 23 anos.

“Dá mais vontade de correr e a gente fica mais distraída, perde um pouco o senso de direção. Era para eu virar à esquerda e eu acabei virando para a direita e atropelando um cone”, relatou a policial militar Maria Helena do Amaral, 42 anos.

Antes de consumir as bebidas, todos os voluntários fizeram o trajeto e nenhum deles derrubou nenhum cone. Já na segunda etapa, logo após a 1ª dose, a maioria dos seis participantes acelerou mais o carro e derrubou pelo menos um dos cones da pista.

Ao ser submetido ao teste do bafômetro, os motoristas que tomaram whisky registraram os maiores índices de miligrama de álcool por litro de ar expelido. Para se ter uma ideia, após a ingestão do primeira dose de whisky, um dos voluntários já apresentou 0,44 mg de álcool por litro de ar. “Ao apresentar esse índice, o condutor poderia ser preso, além de pagar multa e perder a habilitação”, informa o comandante do Pelotão de Trânsito da PM, tenente Roberto Trujillo Júnior.

Os consumidores da cerveja registraram índices entre 0,12 a 0,33mg de álcool por litro de ar no bafômetro. Os que consumiram vinho, chagaram a apresentar 0,33 mg de álcool por litro de ar. “É importante ressaltar que mesmo não ultrapassando 0,30 mg, o motorista já sofre autuação administrativa”, frisa Trujillo. “E, mesmo após ingerir um copo somente da bebida, já percebemos reflexos na direção. A pessoa já começa a querer acelerar mais, perde a atenção”, frisou o comandante.

De acordo com a Lei Seca, o condutor que atingir ou ultrapassar limite de 0,30 mg comete crime de trânsito. Até 0,29 mg de álcool por litro de ar expelido, o motorista é enquadrado no artigo 165 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que classifica como infração gravíssima e prevê multa de R$ 957,70, além da suspensão do direito de dirigir por um ano.
Autor: Mariana Cerigatto
OBID Fonte: Jornal da Cidade de Bauru