Entrevista com Maria Aparecida Penso – Adolescentes Usuários de Drogas

Maria Aparecida Penso é psicóloga, terapeuta conjugal e de família, psicodramatista, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília, professora no Curso de Graduação e no Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, autora de vários artigos científicos e capítulos de livros.

1. Como funciona a clínica para adolescentes e usuários de drogas em conflito com a lei e quando surgiu?

Eu e duas colegas, também psicólogas, Maria Eveline Cascardo Ramos e Maristela Muniz Gusmão, temos realizado este trabalho com adolescentes usuários de drogas e em conflito com a lei desde 2002. Ele acontece no espaço do Centro de Formação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília e também em casas de semi-liberdade, onde estes adolescentes estão cumprindo a medida socioeducativa. importante ressaltar que cada encontro é programado a partir da reflexão sobre o encontro anterior. Neste sentido, temos utilizado a seguinte metodologia de planejamento dos encontros: reflexão sobre o que aconteceu no encontro anterior, eleição de um tema a ser trabalhado, definição de um objetivo a ser alcançado, planejamento de uma atividade que possibilite alcançar o objetivo proposto. Obviamente, este planejamento não pode ser rígido, pois em função das dificuldades vividas pelos adolescentes no seu cotidiano, muitas vezes é preciso trabalhar conteúdos imediatos trazidos por eles. O trabalho feito em grupo está relacionado com a nossa experiência de atendimento a adolescentes, onde o contato grupal sempre desempenha um papel fundamental no treino de novos papéis sociais e pessoais. Isto significa que o grupo possibilita aos adolescentes a oportunidade de experimentar relacionamentos amparados no respeito e confiança mútuos, bem como a troca de experiências e expectativas de vida, e o ensaio de alguns arranjos de enfrentamento de dificuldades e de busca de suportes identitários. O grupo, ao proporcionar espaço de confiança e escuta em um campo relaxado, oportuniza o afloramento da demanda funcionando, portanto, como co-participante da construção da identidade individual e social destes adolescentes.

2. Qual é a situação dos usuários no Centro-Oeste e Brasília? E a relação que eles têm com a lei.

A situação desses adolescentes não difere muito do restante do país. Boa parte deles envolvem-se com atos infracionais para sustentar o vício. Em Brasília temos enfrentado a “Merla”. Essa droga é derivada da cocaína e semelhantemente ao crack. Ela desenvolve um quadro rápido de dependência, sendo de difícil tratamento.

3. Qual é a sua experiência com adolescentes usuários?

Trabalho com adolescentes em conflito com a lei e que fazem uso de drogas há alguns anos. Busco desenvolver métodos de trabalho que os ajudem a lidar com estas duas situações extremamente prejudiciais ao seu desenvolvimento. De modo geral, os temas levantados por eles para serem discutidos são: consciência de si e do outro; papéis sociais, o uso de drogas como possibilidade de ser adolescente, relacionamento interpessoal; trabalho e geração de renda como possibilidade de resgate de cidadania; auto-estima; suportes identitários; preconceitos, lações de confiança; perspectiva de futuro e projeto de vida; as ificuldades e alegrias vividas na relação com a família, a violência que eles e suas famílias vivenciam no dia a dia; e a relação com a escola, que os exclui; as dificuldades enfrentadas na atribuição de sentido e no cumprimento da medida sócio-educativa; as dificuldades com relação ao preconceito que enfrentam no cotidiano. Enfim, são adolescentes que tiveram os seus direitos violados e que não for oferecido tratamento adequado pode ser mais uma forma violação de direitos.

4. Já participou ou vai participar de algum evento da Abead? Qual?

Participei do encontro Regional da Abead em Recife nos dias 09 e 10 de setembro, em parceria com o Ministério Público do Pernambuco, organizado pelo colega Gilberto Lúcio da Silva. Foi um evento muito rico, com debates sérios sobre a temática do uso de drogas no Brasil e contou com a presença de aproximadamente 200 pessoas. Participarei nos dias 03 a 05 de novembro em outro evento regional da Abead em João Pessoa.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)