Entrevista com Dr. Lucio Garcia de Oliveira – Consumo de Álcool e Drogas entre Universitários

Dr. Lucio Garcia de Oliveira, Mestre e Doutor em Psicobiologia pelo Departamento de Psicobiologia da UNIFESP e Pós-Doutorando pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

1. Como você caracterizaria o uso de drogas entre os universitários?

O “I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 capitais brasileiras”, recentemente divulgado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas – SENAD, apontou que dos 12.711 universitários entrevistados, 89% havia experimentado pelo menos uma substância psicotrópica na vida, dos quais 86,2% o fizeram para álcool. Quando avaliado o número de substâncias consumidas na vida, 11,2% dos universitários relataram não ter experimentado nenhuma substância, 30,7% experimentaram apenas uma única substância e 58,1% experimentaram mais de duas drogas. A frequência desse uso diminui quando caminhamos da medida de uso na vida (“experimentação”) para o uso nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias, de tal forma que aumenta a prevalência de universitários para as categorias de “0 e 1 droga consumidas”, diminuindo a prevalência de universitários que relatam o uso de “2 ou mais drogas”. Isso acontece porque as medidas mais recentes tendem a focar os usuários de drogas ainda ativos. Interessante notar que uma análise exploratória sugere que haja uma interferência de gênero no número de drogas consumidas, de tal forma que os homens relataram consumir duas ou mais substâncias mais frequentemente que as mulheres para todas as medidas de uso: na vida (homens: 63,0%; mulheres: 54,5%); uso nos últimos12 meses (homens: 41,1%; mulheres: 34,9%) e nos últimos 30 dias (homens: 29,7%; mulheres, um resultado que precisa ser avaliado com mais detalhes, de tal forma que testes estatístico devem ser realizados para investigar se esses números realmente são diferentes.

2. Mas como é feito esse consumo pelos universitários que relatam beber? Isso acontece em dias separados ou em uma mesma sessão de consumo?

Em função do álcool ser a droga mais consumida por todos os segmentos sociais, no Brasil e no mundo, analisou-se quais as substâncias utilizadas com mais frequência pelos universitários que declararam ter bebido pelo menos uma vez nos últimos 12 meses (medida mais comumente utilizada, na literatura, para o estudo do uso múltiplo de drogas). Desses universitários, 48,5% declararam ter consumido apenas uma droga (no caso, o próprio álcool), enquanto que 51,5% usaram duas ou mais substâncias psicotrópicas nos últimos 12 meses. As drogas relatadas com maior frequência foram: (a) produtos de tabaco (37,2%); (b) maconha e derivados(19,2%); (c) anfetamínicos (12,9%); (d) tranquilizantes e ansiolíticos (9,6%); (e) inalantes (9,1%); (f) alucinógenos (6,4%); (g) analgésicos opiáceos (4,7%); (h) ecstasy (4,4%) e (i) cloridrato de cocaína (4,2%). As demais substâncias pesquisadas foram relatadas com frequência inferior a 1,5%. Entretanto, esse uso não necessariamente acontece ao mesmo tempo, é o que chamamos de “concurrent polydrug use”, um termo que ainda não tem correspondente em português. Já quando solicitados a responder a pergunta “Você já fez uso de bebidas alcoólicas e outras drogas simultaneamente (em uma mesma sessão de consumo)?”,43,4% dos universitários responderam afirmativamente. Nessa análise, as bebidas energéticas despontaram como as substâncias mais frequentemente associadasa álcool (74,3% relataram já ter feito essa associação na vida). Os derivadosdo tabaco e da maconha apareceram, respectivamente, na segunda (68,3% na vida) e terceira posições (36,8% na vida) e altas prevalências também foram observadas para a combinação com cloridrato de cocaína, ecstasy, drogas sintéticas e anfetamínicos.

3. Mas existe algum motivo especial para fazer esse uso múltiplo e simultâneo de álcool a outras drogas?

Quando solicitados a responder a pergunta “Indique os principais motivos pelos quais você jáfez o uso simultâneo de álcool a outras drogas“, escolhendo uma ou mais das alternativas dentro das fornecidas, 47,8% dos universitários que relatarm ter feito uso múltiplo, atribuíram-no a motivos pessoais (porque gostam, para esquecer os problemas), 13,2% misturavam para potencializar ou atenuar os efeitos do álcool e 1,5% já se consideravam dependentes de álcool ou outras substâncias, julgando-se incapazes de controlar esse uso múltiplo.

4. Quais são as principais consequências do uso múltiplo de drogas e qual a relevância deste estudo para a análise deste tipo de comportamento?

A primeira preocupação sobre o uso múltiplo de drogas é sua periculosidade. As substâncias combinadas podem interferir reciprocamente nos respectivos mecanismos farmacocinéticos e farmacodinâmicos ou levar à formação de substâncias intermediárias e potencialmente tóxicas à saúde. Qualquer que seja a situação, pode vir a aumentar a toxicidade da droga em relação ao seu uso isolado. Como os riscos dependem muito das substâncias que são combinadas, esforços devem ser feitos para que sejam adequadamente identificadas. Outra preocupação bastante corrente é que usuários de múltiplas drogas usam maior número de substâncias, podendo intensificar o transtorno de uso a determinada droga ou desenvolver transtornos de uso para novas drogas. Seja como for, a partir de determinado momento, o consumo das substâncias combinadas passam a caminhar juntas. Especificamente quanto às suas conseqüências, o uso múltiplo de drogas prejudica o funcionamento psicológico, cognitivo, a capacidade de raciocínio, crítica e julgamento, predispondo os usuários a comportamentos de risco à sua integridade física, emocional e social. Por isso, é importante monitorar o uso múltiplo de drogas e desenvolver estratégias, especialmente de prevenção, que possam deter jovens de iniciar tal tipo de consumo.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool