Falta de vagas para dependentes químicos compromete luta contra drogas em MT

Pedras pintadas com cal delimitam o caminho de terra que dá acesso ao Sítio Beato José de Anchieta, a 40 quilômetros de Cuiabá, na zona rural de Nossa Senhora do Livramento.

Um lago rasinho e de água limpa, logo na entrada, quebra o poeirão da estrada de chão. Um cruzeiro de madeira, mais alto que uma pessoa adulta, é símbolo de fé. Ao lado dele, tem um jardim ainda sendo plantado, mas algumas folhagens já crescem organizadas no meio do cerrado. Alguns braçais trabalham em uma curva de nível, para evitar o desmoronamento do barranco sobre o lago. Mais adiante surge uma casa central, alojamentos e vários homens circulando, trabalhando, conversando. São usuários de álcool e entorpecentes, especialmente o agressivo crack e sua pasta base. Eles encontram nesse Sítio uma oportunidade de tratamento contra o vício. E sabem que uma vaga dessas é raridade.

O sítio é uma das 30 comunidades de internação em Mato Grosso, incluindo as particulares, registradas na Coordenadoria de Políticas sobre Drogas, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Todas lotadas. Dessas 30 casas de internação, 15 ficam na Grande Cuiabá.Nesse setor não há ambientes de luxo em Mato Grosso. Por isso, famílias que têm condições financeiras costumam encaminhar seus parentes para fora, quase sempre São Paulo.

O Estado tem apenas a Unidade 3 para internação. São 40 vagas, mas, conforme a própria Coordenadoria as vagas estão sempre ocupadas. Resultado: milhares de dependentes químicos ficam simplesmente desassistidos.

Segundo o relatório anual da Agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (ONUDC), 200 milhões de pessoas são viciadas em drogas no mundo: 163 milhões (maconha), 34 milhões (anfetaminas), 8 milhões (ecstasy), 14 milhões (cocaína) e 15 milhões opiáceos (como a heroína).
Apesar dos números, a luta contra as drogas ainda não tem o devido respaldo da sociedade no Brasil. O alcoolismo atinge 10% da população brasileira.

No Sítio Beato José de Anchieta tem chão batido, horta, galinheiro, pocilga, fogão à lenha, longos silêncios. É a rotina de um Sítio comum. Mas aos poucos as histórias de vida vão dando clareza ao propósito desse retiro rural, que, certamente, não é um propósito qualquer. Embora seja uma gota no oceano.

A droga é transversal. Atinge jovens, adultos, velhos, homens e mulheres, do campo e da cidade. Nesse sítio só tem homens. João Carlos é um deles. Negro, 62 anos, lavrador! Perguntado como se envolveu com entorpecentes sendo um homem da roça, ele explica que traficantes vão às biroscas das comunidades, onde normalmente tem apenas uns cartazes colados na parede, cigarro, pinga, umas pururucas industriais e mesa de sinuca. É num bar assim, na comunidade de Limoeiro, zona rural de Cáceres, que João Carlos conheceu a pasta base do crack e passou a consumir.

Um problema a mais somado ao álcool, que já fazia um enorme estrago na vida dele. Sóbrio, trata-se de um homem pacato. Mas “noiado” fazia o inferno com a mulher e os sete filhos, que não aguentaram e pediram para que saísse de casa. “Era briga perigosa, que não ia dar em boa coisa”, reconhece ele, parecendo mais um bom avô falando do que alguém capaz de, por exemplo, partir para agressão. No Sítio, ele é o responsável pela horta, que produz alface, rúcula, couve, cenoura, pepino, mostarda, cheiro verde e outros itens.

A comida no Sítio Beato José de Anchieta é fresca e boa parte dela produzida ali. Os internos trabalham 3 horas por dia, pela manhã, plantando e em outros serviços da lida de um sitiante.

De avental, o zelador Edson, de 22 anos, corta o tomate em uma tábua de madeira e conta que esta semana está cozinhando. Os internos trocam de turno nos demais serviços. Cozinhar, para Edson, é bom, ele gosta. Na semana da cozinha, ele acorda antes do sol, para preparar o café, que é servido às 6 horas, à base de pão caseiro, que ele aprendeu a fazer. “Depois do café, a gente faz uma caminhada e reza”. À tarde, todos estudam e fazem reflexões sobre si mesmos. Há alguns momentos em que ligar a televisão é permitido. Às 22h, as luzes se apagam; hora de dormir.

O Sítio é uma entidade filantrópica, da Associação Antônio Vieira, com sede em Porto Alegre (RS), à qual pertence também o Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ). O padre Pedro Canísio, da Paróquia do Rosário e São Benedito, é o responsável por este trabalho. Ele explica que “o atendimento não é pago. Cada família dá a contribuição que puder”. O Estado faz colaborações eventuais. A Justiça também reconhece o trabalho da entidade e repassa verbas de penas alternativas. O Ministério Público do Trabalho idem. Alguns voluntários são doadores fixos.

O zelador Edson reconhece que, no início, ir para o Sítio foi a coisa mais difícil que já fez na vida. Estava numa “balada” desnorteada, virando noite…Mas resolveu atender aos apelos desesperados da mãe. Ele é o filho mais novo. As duas irmãs que tem já são casadas. “Há mais de dois anos vinha usando bebida, maconha, cocaína e no fim passei para a pasta base. Tentei parar por conta própria, mas reconheço: não sou autossuficiente contra as drogas, preciso de ajuda”. Perguntado sobre como ficou sabendo do sítio, disse: “Minha mãe correu atrás até achar uma vaga em algum lugar para mim”.

O padre Pedro entende que, quando a família apóia, a recuperação tem mais chances de ocorrer. Porém, é preciso alertar. A família do dependente químico adoece junto com ele. “Se não se cuidar, tende a abandonar”, avisa a pedagoga Maria Benedita, coordenadora do Sítio. Por 10 anos, ela foi voluntária na construção desta idéia de atendimento. “Esse projeto surgiu da Casa de Misericórdia, instalada na paróquia do Cristo Rei, em Várzea Grande. Mas não tinha nada a ver com a paróquia. Os voluntários é que são católicos e levavam essa proposta de fé. Era um trabalho de leigos, como eu”.

Segundo Maria Benedita, um grupo que atuava na Casa de Misericórdia quis mudar o método de trabalho e avançar na proposta de tratamento, indo além da prece. “Fomos buscar atendimento psicológico e formação humanística, porque os usuários perdem o sentido da vida, precisam se reencontrar, no íntimo”.

O tratamento passa por três etapas: resgate da história de vida, reconhecimento dos sonhos de vida e construção de um projeto de vida. A Espiritualidade Inaciana contribui nessa busca, orientando passo a passo reflexões morais e éticas. “A Pedagogia e Espiritualidade Inacianas perpassam todas as atividades. Por isso, pode-se dizer que os momentos de espiritualidade ou manhãs de espiritualidade, realizadas com os internos apenas iluminam o processo de recuperação, com dinâmicas, músicas e textos bíblicos, refletidos de forma ecumênica, participativa e comunitária”, diz Arlene Monteiro Klein, servidora pública e voluntária no Sítio. O método pedagógico utilizado no Sítio, inspirado pela Pedagogia da Libertação de Paulo Freire, indica que o único caminho possível é o da conscientização.

“A droga não é nada, a questão não é a droga, mas o que estão por traz dela. A droga é apenas algo que alguém usa, para fugir de si mesmo. Tem gente que compra compulsivamente, por exemplo. Mas quem está nessa situação tem que se perguntar: o que me deixa vulnerável às drogas ou às compras. Entendeu?”- indaga Maria Benedita.

O zelador Edson, por exemplo, não conheceu o pai. O viu uma única vez quando já era rapaz. Conta que, sendo de família pobre, cresceu com algumas raivas, como a raiva de querer um trabalho bom e não ter, a raiva de querer comprar uma moto e não poder, a raiva de querer estudar em uma faculdade e desacreditar que isso seja possível.

Ele também é muito ansioso. Contra a ansiedade a terapeuta Irmã Mariana, acupunturista, está aplicando o método chinês, milenar, nos internos. No sagão de um dos alojamentos, cria-se o clima para o relaxamento. Música de meditação e um colchão sobre a mesa de madeira, forrado com lençóis limpos, cheirando a sabão em pó. Dá para ouvir pássaros e o silêncio típico da zona rural. É aquela sensação boa, de estar sendo atendido, acolhido, cuidado. “Isso envolve conversa, diálogo, este é um momento terapêutico também”, explica Irmã Mariana, muito sorridente. Ela é uma suíça, da congregação dominicana.
As histórias de vida deixam claro que o problema das drogas começa em casa. Pedro, 25 anos, conta que a mãe e o pai não tinham equilíbrio, brigavam muito e por tudo. Brigas violentas. O pai, que era Policial Militar, no trabalho, segundo o próprio filho, andava aprontando. “Fazia lenha, batia muito em neguin…” Acabou expulso da corporação, saiu de casa. A família desabou. A mãe adoeceu, tem pneumonia e hoje mora de favor. Dos cinco filhos, segundo Pedro, só as duas mulheres estão “na paz”.
Fonte:24 Horas News/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)