O perigo das drogas lícitas vendidas na internet

Chás alucinógenos preparados em cultos são usados por viciados
Juliana Aretakis

Um novo conceito, um uso dissimulado e um grande alerta. O consumo de drogas ilícitas não é mais o único problema que vem tirando o sono de famílias e a vida de usuários. As drogas legalizadas se tornam uma ameaça e a venda indiscriminada pode transformá-las em um novo e iminente perigo para a saúde pública. Reforçando a lista do álcool e do cigarro, as drogas lícitas vão além e pegam carona nos cultos religiosos. Porém, uma linha tênue entre as novas drogas e a religião difere a patologia da crença. Movimentos religiosos como o Santo Daime, conhecido como a doutrina da floresta, além da Jurema, da religião-afro, são alvos da “criminalização”. Usuários de drogas se aproveitam da legalização das ervas utilizadas nesses cultos e seus efeitos alucinógenos para obtê-las com maiores facilidades. Os resultados assustam e chamam a atenção para o novo viés do mundo das drogas.

Embora vendidas como naturais, os efeitos das ervas se equiparam aos do crack, do LSD, da maconha, e das demais drogas ilícitas. O tratamento é ainda mais difícil e as consequências também. Após relatos de pacientes, o psicólogo clínico Normando Alves deu início a pesquisas na internet e se surpreendeu com os resultados. Em vários sites podem ser compradas as mais diversas drogas de forma legal e até com entre­ga em domicílio. As facilidades se transformam em um caminho mais rápido para o vício.

Fora da ilegalidade, as questões culturais, sociais e pessoais começam a pesar. Utilizadas dentro dos cultos religiosos e impregnadas na cultura de vários povos, o uso das drogas espirituais não corresponde a uma patologia. Po­rém, quando esse uso não é associado aos rituais, a patologia é facilmente descrita e o psicólogo atrela o consumo à realidade social. “A gente é educado para lidar com o prazer, com os momentos de alegria, e deseducado para lidar com as frustrações. Assim as pessoas procuram outras substâncias para compensar os desprazeres”, frisou.

No caso das drogas espirituais, a dependência química pode ser observada a partir de fatores como as alterações de humor, a ansiedade, o nervosismo e a agressividade. As consequências do uso dessas drogas se assemelham às das drogas ilícitas. Esquizofrenia, alucinação auditiva e visual, delírios, idealização de suicídio e a depressão após o efeito são alguns dos resultados. Em certos casos o usuário pode desenvolver comportamento típico de sintomas de psicose.

Para a compra dessas drogas espirituais, o usuário é atraído por diversos fatores enumerados pelo psicólogo. “Ele tem o valor de que não terá problema com a Justiça ou com a polícia, de que a compra é legal e que ele não será discriminado como acontece com os usuários de crack ou outras drogas. É mais fácil tirar alguém do crack, da cocaína, do que das drogas espirituais. O crack tem consequências a curto prazo, e essas drogas, assim como a maconha, tem consequências a longo prazo”, ressaltou Normando.
Fonte:Folha de Pernambuco