O caminho de volta após o estrago do crack

Usuários em tratamento contam a dificuldade em abandonar o vício e falam sobre os danos deixados pela droga na vida deles.

“Todo dinheiro é pouco para quem é dependente químico”. A afirmação de Leandro (nome fictício), 32, usuário de crack em tratamento há dois meses, é um alerta sobre o poder devastador que a droga tem no indivíduo, o que se transforma numa problemática que envolve toda a sociedade, e principalmente as famílias que convivem com o usuário dentro de casa. Curiosidade, falta de perspectivas, sentimentos de rejeição e baixa auto-estima, além de problemas mal resolvidos são as principais justificativas para o vício. Para “dar um fogo”, expressão dos consumidores do crack, basta despender R$ 5, segundo aponta o ex-usuário, que ainda afirma: “hoje a droga está em todos os lugares”.

Mesmo tomando a decisão própria de procurar ajuda clínica, a batalha pela retomada da vida de Leandro está só no começo. “Não tinha noção da minha dependência. Nunca sonhei ou tive vontade de tomar álcool, mas o crack ainda me faz sonhar”, afirma numa conversa realizada no Centro de Reabilitação de Dependentes Químicos do Projeto “Cidade Viva”, situado na BR-101, na região afastada do Distrito Industrial. Leandro, que chegou a passar 15 dias consumindo a droga dia e noite, lembra a sensação de poder associada aos efeitos, algo que necessitava para exercer a função de gerenciamento de pessoas e tomada de decisões rápidas.

No entanto, além do excesso de autoconfiança, o crack, que ele usava sempre depois que bebia para “despertar”, trouxe a degradação da própria vida. “Depois que passava o efeito, vinha a sensação de medo. Passei por uma fase de pensar muito no meu filho. Comecei a ter raiva, desgosto do que estava fazendo”, avalia Leandro, que tenta se libertar da dependência num tratamento que deve se estender por nove meses. “Tenho medo de uma recaída de momento. Vi gente desistir do tratamento. A droga é mais forte que a vontade”, explica.

A história dele ilustra uma situação cada vez mais comum e que, além das preocupações com o aumento dos índices de violência nas cidades, se transformou em problema de saúde pública. No caso de Leandro, o primeiro contato com as drogas veio aos 13 anos, através do álcool, e depois surgiu o contato com a maconha e a cocaína. O “convite” para experimentar o crack ocorreu ainda esse ano: “Da primeira vez que usei já fiquei fissurado”, diz Leandro.
Fonte:O Norte/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)