Caminho de pedras

A epidemia de crack que atinge pelo menos 55 mil viciados no Rio Grande do Sul expõe a cada dia novos dramas. A história do caxiense que propositadamente cometeu um delito na tentativa de ser preso e ficar longe do vício revela o desespero de quem é dominado pelo crack.

O drama do rapaz de 22 anos que, na última sexta-feira, destruiu os vidros de uma agência do Banrisul na intenção de ser preso e ficar longe do crack expôs mais uma vez o flagelo de quem sucumbe à pedra. Nos últimos cinco anos, o metalúrgico passou por 13 tratamentos em clínicas de recuperação. Na quinta-feira, após um mês em abstinência, recaiu. Encontrou no delito uma maneira desesperada de pedir socorro.

– Tinha fumado muito desde quinta e o efeito estava acabando. Eu quis ser preso porque não aguentava mais. Queria parar com aquele negócio. Estava muito indignado comigo por ter recaído – contou, ontem, após um dia normal de trabalho em uma indústria caxiense.

Na sexta, flagrado por policiais, o jovem foi levado à delegacia. Após prestar depoimento, foi liberado.

– Foi bom eu ir para a delegacia porque arejei a cabeça, saí mais tranquilo e não voltei a usar crack. Agora pretendo seguir em frente, trabalhando, e evitar contato com pontos de tráfico e álcool.

Antes de sexta, o metalúrgico tinha apenas um registro policial por furto simples em 2006, cometido contra a própria família.

– Como ele já passou por vários tratamentos, ao se ver novamente usando certamente um filme passou pela cabeça dele e pensou: ou faço algo agora ou me perco – acredita o psiquiatra Celso Cattaneo, especialista em dependência química.

O rapaz recentemente ficou internado em uma comunidade terapêutica no interior de Caxias. Ele se manteve longe do crack até quinta, quando teve em mãos R$ 150, pagamento de uma dívida. Ao entrar em um bar para tomar uma cerveja, despertou o gatilho para a recaída. Em poucas horas trocou todo o dinheiro por crack e vendeu até tênis e roupas para poder fumar mais.

Na sexta, o jovem caminhou cerca de 10 quilômetros desde sua casa até o bairro São Pelegrino. Sentou na calçada, em frente ao Banrisul, para fumar um cigarro e então, revoltado com o próprio fracasso, teve a ideia de cometer o delito para ser preso e ficar longe do crack. Cattaneo, especialista em dependência, explica por que essa droga é tão devastadora:

– O crack destrói o “homo sapiens” do ser humano. A droga atua na área frontal do cérebro, que funciona como centro das emoções e da tomada de decisões. O viciado perde aquilo que o distingue como ser humano, como a capacidade de pensar e refletir. Em dias consecutivos de uso, passa a reagir de maneira instintiva, como animal.

O cavaleiro gaúcho Rodrigo Garcia Bass, 31, que se afundou no vício e há um ano e meio está longe da pedra, diz que, para reagir, infelizmente um viciado precisa experimentar sofrimento, e também permitir ser ajudado:

– Até eu não sofrer, ficava na mesma. Dizia que queria parar, mas continuava usando. Chegar ao fundo do poço foi o começo da minha mudança. Sabia que ou eu reagia ou seria destruído pelo crack. Conheci uma força que não sabia que existia em mim. Hoje, para não recair, preciso renunciar a muitas coisas, como baladas, o chope com os amigos. Não saio mais com os mesmos amigos, nem percorro os mesmos caminhos que antes. Não posso dar chance para a minha memória química despertar o vício.

A luta contra o vício de crack costuma ser marcada por recaídas e fracassos. Em média, 90% recaem na pedra em até cinco anos. Só 3% conseguem se livrar do vício.

O metalúrgico aconselha:

– Nunca experimentem. Eu entrei no crack por curiosidade, achava que não ia me viciar, que teria controle. A droga não tem volta.

Mais

– O crack é a droga mais devastadora que já chegou ao cérebro humano. Seu potencial de dependência está relacionado a três principais fatores: a capacidade de ativar os sistemas de reforço no cérebro, a velocidade e potência extrema com que atinge os neurônios e a curta duração do efeito, o que faz com que o indivíduo consuma ainda mais pedras.

– O crack, assim denominado porque a pedra emite pequenos estalos, é obtida da mistura de cocaína e bicarbonato de sódio ou amônia. Mas não é pela sua composição e, sim, pela sua forma de consumo que a droga tem alto poder de destruição.

– Ao ser tragada, a fumaça do crack alcança o pulmão imediatamente. Como o pulmão é um órgão muito vascularizado, a droga cai rapidamente na circulação sanguínea e leva apenas de oito a 12 segundos para atingir o cérebro. Para comparar: ao ser cheirada, a cocaína leva até 10 minutos para começar a produzir efeito.

– Repetidas doses de crack reduzem as reservas de dopamina e levam os neurônios à exaustão. O cansaço do cérebro é tanto que, após passar uma noite fumando, muitos viciados caem em sono profundo, parecem desmaiados.

– Ao atingir o cérebro com tanta intensidade, o crack bloqueia a absorção da dopamina, que é o principal regulador do sistema de prazer e recompensa. Com os neurônios encharcados da substância, os sentidos são superestimulados, o que gera a sensação inicial de euforia e a urgência da repetição.

– Com o tempo de uso, o crack provoca a redução da atividade cerebral e o torna menos sensível à droga. É como um elástico que, esticado além do limite, não volta mais ao normal. Então, a sensação de prazer é substituída por alucinações. Outra consequência é que o viciado passa a não sentir prazer por outros aspectos da vida, como comida e sexo.

– A degradação ocorre rapidamente. Primeiro, o viciado emagrece rápido, uma vez que a droga inibe o apetite, depois, passa dias sem dormir e perde até mesmo a vontade de tomar banho. Ele se esquece de que existem horários e regras a cumprir. À medida que o consumo progride, chega a fase das reações paranóicas e é capaz de protagonizar agressões gratuitas.

– Não há tratamentos ou remédios que curem o viciado ou impeçam que tenha recaídas. n Para abandonar o crack, o viciado precisa de muita força de vontade. Nas clínicas e fazendas terapêuticas, o dependente poder tomar antidepressivos ou ansiolíticos. n Sessões de auto-ajuda ou espirituais servem para que o viciado consiga escapar da vontade de voltar à droga.
Fonte:Pioneiro/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)