Entrevista com Prof. Dra. Ana Regina Noto – Violência Doméstica e Consumo de Álcool

Prof. Dra. Ana Regina Noto, Professora Adjunta do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo e Pesquisadora do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas).

1. Qual a explicação científica para a associação entre a violência doméstica, um grave problema social, e o consumo de álcool? O álcool pode levar todos os indivíduos a comportamentos violentos?

O consumo de bebidas alcoólicas tem sido observado em uma considerável parcela de autores e de vítimas de diversas situações violentas. O estado de intoxicação pode aumentar as chances de situações violentas, uma vez que o álcool pode aumentar a impulsividade e a agressividade, bem como diminuir a crítica e a capacidade de auto-proteção, aumentando a vulnerabilidade individual para atuar e/ou ser vítima de violência. No entanto, essa associação não pode ser interpretada como uma relação simples de causa-efeito, uma vez que envolve uma série de questões individuais, culturais e do contexto no qual a violência ocorre. Alguns estudos, inclusive questionam o papel do álcool como “causa” no cenário da violência, levantando o quanto que seu consumo poderia estar assumindo mais um caráter de “desculpa” para o comportamento agressivo.

2. Quais são os tipos de violência doméstica são mais fortemente associados ao consumo de álcool em nosso país? Há diferenças entre homens e mulheres?

O estado de embriaguez favorece diferentes tipos de violência, como negligência, violência psicológica, física e sexual. As agressões físicas severas (ou ameaças de) parecem apresentar maior associação.
A violência sofre significativa influência de gênero. A maioria dos agressores embriagados são homens e, por outro lado, a maioria das vítimas são mulheres sóbrias. No entanto, existe uma ampla diversidade de casos, como agressões bilaterais ou entre pessoas do mesmo gênero. Além disso, existem estudos indicando considerável vitimização de homens e mulheres embriagados, tanto em contexto comunitário quanto familiar.

3. Em geral, qual o perfil dos agressores e das vítimas de agressão?

Além da violência comunitária, observada em bares e festas, a violência familiar é uma das mais frequentes. Embora o cônjuge (especialmente a esposa) seja a pessoa mais frequentemente identificada como vítima de situações de violência domiciliar associada à embriaguez, vários outros membros da família (filhos, pais e irmãos) também referem ser vítimas diretas ou indiretas dessa dinâmica. Assim, o sofrimento muitas vezes gerado por essas situações não fica restrito as vítimas identificadas, envolvendo também os demais membros da família, inclusive as pessoas consideradas como autores.

4. Qual seria, em sua opinião, a melhor maneira de prevenir a violência doméstica associada ao consumo de bebidas alcoólicas?

Estudos mostram que medidas restritivas do consumo de álcool são alternativas a serem consideradas na prevenção de casos de violência comunitária. No entanto, ainda existe pouco conhecimento sobre o impacto dessas medidas no contexto familiar. Nesses casos, os principais caminhos parecem ser: a informação, a orientação familiar e fortalecimento da rede social de apoio às famílias. Também parece ser fundamental a busca ativa, ou seja, a detecção e intervenção precoce junto às famílias vulneráveis. As políticas preventivas também devem abordar a questão levando em conta a sua complexidade social e a necessidade de articulação entre os diferentes setores. Apesar dos avanços do conhecimento, ainda temos muito que estudar sobre a prevenção da violência familiar associada ao consumo de bebidas alcoólicas.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool