Próxima rodada de advertências sanitárias nos maços de cigarro começa a ser planejada

Profissionais envolvidos com o controle do tabagismo no Brasil iniciaram as discussões para o planejamento da próxima rodada de advertências sanitárias que serão divulgadas nos maços de cigarro. Nos dois dias de discussões, profissionais do INCA, Anvisa, Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), UFRJ e PUC, entre outras instituições, fizeram e assistiram apresentações e debateram pesquisas relativas ao impacto provocado pela segunda e terceira séries de imagens de advertência em circulação no país. Também foram discutidos pontos que poderiam ser aperfeiçoados ou regulamentados na lei que determina a veiculação das advertências sanitárias pela indústria.

Uma das discussões foi sobre a possibilidade – ou não – de as advertências serem publicadas nas duas faces dos maços. Uma das preocupações manifestadas no encontro é que a legislação permite que a indústria opte por colocar as diferentes advertências de forma rotativa (uma por vez) ou simultânea. Optando pelo sistema rotativo, há a possibilidade de que algumas advertências – as consideradas mais aversivas – nunca serem veiculadas.

O período de rotatividade não está explicitado na lei, como acontece em alguns outros países. Ou seja, as empresas decidem quando substituir a imagem. E devido à extensão do país e dos incontáveis pontos de venda, não é possível fiscalizar se todas as imagens serão veiculadas.

Num outro momento do encontro, a neurolinguista da UFRJ Eliane Volchan apresentou o resultado da pesquisa feita com 338 voluntários (168 homens e 170 mulheres) durante o processo de escolha das imagens para a terceira série de advertências. Dezenove protótipos sugeridos pelo INCA foram apresentadas mesclados com imagens do catálogo da IAPS (International Affective Picture System).

Das imagens apontadas como as mais aversivas, todas eram da seleção proposta pelo INCA. Dentre essas, as consideradas mais aversivas foram a do feto num cinzeiro, a da gangrena, a do infarto e a do derrame. “Não foi uma surpresa. Lesões corporais visíveis chocam mais”, confirmou a pesquisadora.

Nessa pesquisa, as imagens foram avaliadas pelos voluntários fora do contexto do tabagismo. “Eles não sabiam com a finalidade do estudo”, esclareceu Eliana. Na próxima etapa, voluntários serão expostos aos maços com as advertências da segunda e terceira séries para comparação entre elas.

A expectativa a respeito dos efeitos da terceira rodada de advertências é alta, já que esse grupo foi o primeiro a ser fruto de um trabalho de cooperação técnica, envolvendo INCA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Laboratório de Neurobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Laboratório de Neurofisiologia do Comportamento da Universidade Federal Fluminense e Departamento de Artes & Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

De acordo com a secretária executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq), Tânia Cavalcante, neste grupo de estudo multidisciplinar foram aprofundados o entendimento da relação entre a dependência do tabaco e o marketing das embalagens.

“Verificamos que havia a possibilidade de tornar as advertências ainda mais aversivas e que alguns aspectos das imagens utilizadas em advertências passadas e em outros países poderiam funcionar como gatilho, despertando a vontade de fumar e, portanto, deveriam ser evitados, como imagens de pessoas fumando e de cigarros acesos”, observou.

Mensagem positiva tem mais efeito sobre fumantes leves – O epidemiologista do INCA André Szklo apresentou uma síntese de seu trabalho de doutorado, no qual foi feito o seguinte experimento: foram colocadas em distintas estações de metrô do Rio de Janeiro uma mensagem positiva e uma negativa, visando estimular que os fumantes ligassem para o Disque Pare de Fumar.

Na mensagem positiva, a frase dizia: Parar de fumar é ganhar fôlego. Na negativa, a ideia era a mesma, porém o foco era a perda: Fumar é perder fôlego. Para o público-alvo em questão, a mensagem positiva resultou num número mais expressivo de ligações para o serviço entre os fumantes leves.

“Os fumantes leves expostos à mensagem positiva ligaram duas vezes mais do que os fumantes leves que viram apenas a mensagem negativa. Entre os fumantes pesados, praticamente não houve diferença no número de ligações entre os expostos à mensagem negativa e à positiva”, comparou Szklo.

Advertências sanitárias no Brasil – As atuais advertências são resultado de um trabalho coordenado pelo INCA, que reuniu profissionais das áreas de prevenção e controle do tabagismo, dependência química, epidemiologia, regulação dos produtos de tabaco (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pesquisadores de comunicação e design da Pontifícia Universidade Católica (PUC), e da área neurocomportamental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Estudos científicos demonstram que advertências sanitárias mais eficientes são as que geram reações emocionais negativas, como o medo e a repulsa, pois são as que mais favorecem uma redução da frequência e intensidade do consumo e que mais motivam os fumantes a tentarem deixar de fumar.

A inclusão das imagens e o aumento do espaço ocupado pelas advertências, a partir de 2002, trouxeram importantes contribuições para as ações de controle do tabagismo. Após o lançamento das primeiras advertências com fotos, pesquisas mostraram que 80% dos fumantes manifestaram apoio à medida e o desejo de que as advertências fossem mais impactantes. Os fumantes apontaram também que as advertências que retratavam situações mais dramáticas eram as mais motivadoras para deixar de fumar.

Todo fabricante ou importador de produtos de tabaco é obrigado a inserir nas embalagens as frases de advertência, acompanhadas de fotografias que ilustram as consequências do tabagismo. Estas devem ocupar 100% de uma das maiores faces das embalagens, além de exibir o número do Disque Saúde – Pare de Fumar (0800 703 7033). As advertências sanitárias também devem ocupar 10% do espaço de publicidade nos pontos de venda.

Preparativos finais para a 4ª Conferência das Partes – A Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq), cuja secretaria executiva é ocupada pelo INCA, se reúne no dia 8 para discutir alternativas viáveis à produção do fumo e meio ambiente e preparar o posicionamento do Brasil durante a 4ª Conferência dos Estados Partes do tratado (COP4), que será realizada de 15 a 20 em Punta Del Este, no Uruguai.
Fonte:INCA – Instituto Nacional de Câncer, Ministério da Saúde