Para combater as drogas, jovens residentes fazem teatro

Gazeta Web
Espetáculo ´Sem Fissura´, dirigido pelo ator carioca Licurgo Spínola, já foi assistida por mais de 3 mil alagoanos em três meses.

A indústria das drogas em Alagoas encontrou um adversário forte, que age sutilmente e cria raízes seguras pelo caminho alternativo da não violência: a arte. Residentes de casas de acolhimento para jovens vítimas de envolvimento com drogas participaram de uma oficina de teatro que desencadeou em uma série de espetáculos vistos por mais de 3 mil alagoanos, apenas nos últimos três meses. ´Sem Fissura´, montada pelos jovens do Projeto Sarar, é a peça que está em ´cartaz´ no momento.

Se as drogas têm um ´poder´ de disseminar uma série de desastres, do vício e desestruturação familiar à morte, a vontade de combatê-las já pode ser considerada um páreo duro. Desta vez, os trabalhos foram feitos por meio de uma mistura de acasos e atitudes, levando à prática a máxima de que ´a vida imita a arte e a arte imita a vida´.

Convidado pela assessora especial da Secretaria da Paz, Maristela Pozitano, e pelo presidente da ONG Maceió Voluntários, André Carnaúba, o ator Licurgo Spínola – que à época ministrava a oficina de teatro Identidade em Maceió – aceitou o desafio de realizar o curso com a temática das drogas para os grupos vulneráveis.

“Quando fui convidado, disse que nunca havia adaptado a oficina para uma temática específica de drogas, mas que aceitaria o desafio”, explicou o ator. “Foram realizadas oficinas em três casas de reabilitação, com turmas de 20 pessoas. Todo o espetáculo foi criado pelos próprios atores, e dirigido por mim, de onde mostram as situações em que eles passaram”, relatou. “A peça traz detalhes de como o jovem começa a usar as drogas, como é sua relação com o crack, o vício, quais os procedimentos para o uso e, principalmente, as consequências”, acrescentou.

Segundo Licurgo, Maristela e André Carnaúba, o espetáculo tornou-se um sucesso em cadeia, promovendo dois serviços ao mesmo tempo: por um lado, uma conscientização do público que assistia no palco jovens dramatizando vivências semelhantes às que tiveram ´na vida real´; por outro, um estímulo aos próprios atores para que permaneçam longe dos entorpecentes e alavanquem suas próprias vidas de modo produtivo.

“Há nisso todo um processo. Eles causavam prejuízo para a sociedade quando estavam envolvidos com drogas e assaltavam ou roubavam. Em seguida, tornaram-se neutros quando entraram nas clínicas de habilitação. Agora colaboram para combater o vício e as drogas. Ou seja, eles deixaram de ser problema e tornaram-se solução”, emendou Licurgo.

E de solução para exemplo. Segundo o residente Ronald Alves, de 22 anos, conhecido como ´Iuri´, as peças começam com doses de humor e terminam com um ´quê´ mais pesado, remetendo à própria realidade de quem vive como usuário de drogas. Ao final, o público pode fazer várias perguntas aos atores a respeito de suas próprias vidas. “Podem perguntar o que quiser. E eles perguntam mesmo. Quem já matou, quem já foi preso. Nós respondemos tudo”, contou.

Para Ronald, isto provocou uma mudança em sua própria forma de encarar a si mesmo. “Antes eu tinha vergonha do que passei, de mostrar o que eu fiz”, contou. Aos 22 anos, Ronald já enfrentou ´muitas e boas´ devido à ´fissura´ por drogas: já foi preso, sofreu sérios golpes de facada por meros R$ 5, que seria usado para comprar crack. As cicatrizes deixadas são encaradas de forma positiva. “Hoje não tenho vergonha de nada do que aconteceu. Virou lição. E faço questão de mostrar quem fui antes e quem sou agora, para evitar que as pessoas passem por isso”, finalizou.

´Não cobramos nada. Só queremos chuteira para jogar futebol´, diz ator

O trabalho começou mesmo com orçamento quase nulo. No início, Licurgo Spínola atuava voluntariamente. Hoje, o projeto tem apoio de instituições, mas também segue de modo independente por meio da Sepaz e da ONG Maceió Voluntários. Quem quiser que os garotos se apresentem, basta convidá-los e se responsabilizar por transporte e lanche.

“Só é chamar. É tudo de graça”, contou o Ronald Alves. Como todo o trabalho é exposto de forma gratuita, as doações e apoios são mais do que bem vindos. E eles não pedem muito. “Queremos jogar futebol, então pedimos chuteiras, tornozeleiras, camisas e bolas, para que possamos jogar”, diz Iuri.

As doações também podem ser em quilos de alimentos não perecíveis, mas o projeto também precisa de apoios sólidos. “É muito mais barato apoiar projetos como este, do que lidar com as consequências do tráfico, do vício, de assaltos e mortes que acontecem devido ao problema com as drogas. É necessário e muito mais eficiente trabalhar com a prevenção”, diz Licurgo.

´Agentes da Paz´

De acordo com a assessora da Sepaz, a oficina faz parte de um projeto ainda maior, denominado ´Agentes da Paz´, que procura criar multiplicadores da cultura da paz, por meio de cursos de capacitação. “Na verdade, esta oficina ministrada pelo Licurgo é um dos cursos que procuramos promover para multiplicadores dentro do programa ´Agentes da Paz´”, esclarece Maristela.

“O programa de capacitação tem duração de 40 horas e é destinado a membros da sociedade civil que queiram efetivamente disseminar a cultura da paz. A capacitação trata de diversos assuntos e desafios enfrentados hoje como os valores humanos, a cidadania, o meio ambiente, a prevenção às drogas e a família”, relata.

Para André Carnaúba, o projeto tem alcançado boa parte dos alagoanos. “O projeto tem em si o efeito multiplicador. Os agentes são capacitados e levam essas informações às suas comunidades, de modo que ele sempre estará estendendo a corrente. A oficina de teatro é uma das que está inserida no programa. Em três meses, a oficina já foi feita em três casas de reabilitação e mais de três mil pessoas tiveram acesso à conscientização quanto à prevenção. No próximo ano, vamos tentar realizar a oficina nas outras 14 casas”, emendou.

Quem souber realizar algum tipo de atividade manual, como artesanato, e que queira ensinar nas casas de reabilitação, também será bem vindo, segundo Maristela Pozitano. Para assistir o espetáculo ‘Sem Fissura’, também basta procurar a Secretaria da Paz ou a ONG Maceió Voluntários.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)