Terapia comunitária é referência no País e no exterior

Experiência pioneira do Ceará vem alcançando resultados expressivos e foi adotada como política pública em saúde

Reconhecer-se no outro, fortalecer a autoestima e buscar soluções com o apoio daqueles que compartilham sua realidade. A terapia comunitária, uma metodologia desenvolvida de forma pioneira no Ceará, está sendo disseminada em outros Estados e até no exterior. A partir das vivências para lidar com diversas situações, os usuários dessa metodologia tomam para si o poder e a possibilidade de ampliar a resolução dos problemas do cotidiano.

Em 2010, o Ministério da Saúde transformou a terapia comunitária em política pública em saúde, sendo incorporada às ações do Programa Saúde da Família (PSF). Também é reconhecida desde 2004 pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), como terapia que contribui na prevenção, tratamento e reinserção social de usuários e familiares de dependentes de drogas.

Diferente de outros grupos de apoio, como os Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos, as rodas não têm um tema específico e qualquer pessoa pode participar. “A terapia comunitária trabalha a competência das pessoas. O foco de nossa intervenção é o sofrimento, e não a patologia. Já as outras terapias focalizam a doença e é conduzida por um psicólogo ou psicoterapeuta. Na terapia comunitária não se faz análise, não se dá conselhos nem se faz julgamento e sim se acolhe a dor da alma. Promove identificações e vai construindo redes de apoio social”, explica o médico Adalberto Barreto, criador da terapia.

Histórico

Tudo começou há 24 anos, no Bairro Pirambu, em Fortaleza. O advogado Airton Barreto montou ali o Centro dos Direitos Humanos do Pirambu. Mas percebeu que muitas pessoas que procuravam o local traziam problemas familiares e pessoais.

Com o apoio do irmão, Adalberto Barreto, moradores do bairro eram encaminhados para o Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Mas a quantidade de pessoas foi tão grande, que ele decidiu ir ao bairro com um grupo de estudantes de Medicina.

Realidade pobre

“Ele conta que um dia, após identificar uma mulher com depressão, receitou um medicamento. Quando ela viu a receita, disse: ´Mas, doutor, eu não tenho dinheiro nem para comprar comida, como é que eu vou pagar por isso?´. Foi quando ele percebeu como não havia preparo para lidar com a realidade dessas comunidades pobres”, relata a psicóloga e terapeuta comunitária Doralice Oliveira.

As atividades de acolhimento e a metodologia, que aos poucos foram desenvolvidas, dariam origem ao Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária do Pirambu, mais conhecido como projeto 4 Varas. Hoje, a terapia comunitária atravessou os limites da Capital cearense, com grupos no interior e outros 17 Estados brasileiros. Países como França e Suíça já possuem polos de formação de terapeutas comunitários. México e Alemanha já demonstraram interesse em implantar esta prática.

No Brasil, já são mais de 17 mil terapeutas comunitários formados em atuação. Outro diferencial é que o terapeuta, apesar de precisar de uma formação de 360 horas, não precisa ter graduação acadêmica. A certificação é dada pela UFC.

“A força da terapia comunitária nasce da diversidade cultural brasileira. É uma ação que transcende classes sociais, profissões, raças, credos e partidos. Cada um partilha o seu saber, fruto da experiência para acolher as pessoas mais fragilizadas da comunidade”, define Adalberto Barreto.

ABRANGÊNCIA

Melhor aplicação em situações específicas

Uma pesquisa realizada entre 2005 e 2006 avaliou a eficácia da terapia comunitária no Brasil. De um total de 12 mil questionários aplicados junto a participantes de rodas de terapia comunitária, 89,5% dos pesquisados afirmaram ter encontrado a resolução para os seus problemas através do apoio mútuo, do diálogo. A minoria precisou ser encaminhada para serviços especializados.

“Claro que nem tudo pode ser abarcado pela terapia, haverá casos em que é preciso um tratamento clínico ou psicológico. Mas é um dado que mostra que o acolhimento, o fato de ser ouvido, de pertencer a uma rede e ser reconhecido, contribui muito na eficiência da terapia”, argumenta Doralice Oliveira.

Apesar da abrangência de situações nas quais a prática pode ser aplicada, a terapia comunitária vem gerando bons resultados em situações mais específicas. É o caso da aplicação da terapia na prevenção e atenção aos problemas decorrentes do uso de drogas.

“Em 2001, Adalberto Barreto fez uma formação em Brasília, da qual participei. Na época, eu trabalhava para a Secretaria Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Então eu me dei conta de que a terapia tinha tudo a ver com a prevenção, tratamento e reinserção social de ex-usuários de drogas e seus familiares. Foi quando começamos a pensar numa articulação desses dois campos”, relata.

Em 2004, além de reconhecimento oferecido à terapia comunitária, a Senad promoveu o Dia Nacional de Prevenção do Uso de Drogas na Comunidade. “Naquele dia foram promovidas grandes rodas de terapia comunitária em todo o Brasil, mostrando que a prática pode atender grupos numerosos com qualidade e que pode ser usado como uma rede articulada”. No mesmo ano, foi celebrado um convênio entre a Senad, a UFC e o projeto 4 Varas, a fim de oferecer capacitação em terapia comunitária para 780 lideranças sociais em 12 Estados. “No final de 2007, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ficou sabendo desse trabalho e entrou em contato com o Adalberto dizendo que queria que a terapia comunitária fosse um choque de atenção comunitária nas ações básicas”, lembra.
Segundo Doralice, foi celebrado um novo convênio, entre a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), a UFC e o Ministério da Saúde para capacitar 1.075 integrantes do Programa Saúde da Família em 17 Estados. Ano passado, nova formação foi levada a 1.030 profissionais do PSF, com prioridade para os agentes comunitários. Em abril de 2010, foi lançado projeto piloto de formação de lideranças indígenas em terapia comunitária, massoterapia e técnicas de resgate da autoestima, para prevenção de drogas. Fazem parte do projeto as etnias pitaguary e tapeba, no Ceará e ticuna, patachó, kaingang, kaiowa, xacriabá de outros estados do país.

Serviço:

Projeto 4 Varas
Tel.: 3286-6049 // 3228-3848
Site: www.4varas.com.br
Bairro: Pirambu – Fortaleza
Autor: Karoline Viana
OBID Fonte: Diário do Nordeste