E-drugs: drogas virtuais, criadas a partir de ondas sonoras, invadem a internet

Zero Hora
Diferença na frequência sonora estimularia o cérebro a alcançar outros estados.

Há um novo fenômeno na internet. São as e-drugs, drogas virtuais, criadas a partir de ondas sonoras e que prometem, a gosto do cliente, desde relaxamento à excitação, ou até mesmo uma sensação de um orgasmo. A psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, Alessandra Julião explica como elas funcionam:

— As e-drugs, ou drogas digitais sonoras, são arquivos de áudio que podem ser baixados ou comprados na internet, e cujos padrões sonoros teriam a capacidade de provocar diversas sensações — relata a psiquiatra.

Desenvolvidas por empresas de tecnologia, as e-drugs são vendidas ou até disponibilizadas gratuitamente na internet. Até o momento, nenhum país tomou a iniciativa de proibi-las.

Segundo a especialista, essas drogas virtuais se baseiam na chamada técnica de sons binaurais, em que cada um dos ouvidos recebe ondas sonoras com frequências diferentes.

— O cérebro capta as diferenças dessa frequência, o que levaria a alterações no padrão das ondas cerebrais, modificando os estados emocionais do indivíduo — afirma.

O efeito dessas ondas sonoras, no entanto, não é novo. Foi descoberto pelo físico Heinrich Wilhem Dove, em 1839. Embora haja na internet relatos de usuários que descrevem efeitos potentes, também são frequentes relatos de usuários que não conseguiram obter os efeitos prometidos.

— As e-drugs são vendidas como capazes de provocar, por exemplo, estados alucinógenos. No entanto, não é possível afirmar tal fato. Especula-se que muitos dos efeitos relatados pelos usuários sejam resultados de indução, podendo ser melhor explicados como efeito placebo — revela.

Riscos

Alessandra acredita que, por serem muito recentes, ainda é difícil presumir os efeitos dessas drogas a longo prazo no organismo. Além disso, embora a internet tenha o poder de disseminar com muita facilidade determinados produtos e atitudes, não é possível saber se este será um fenômeno consistente ou uma moda passageira.

A especialista acredita que os estímulos psíquicos oferecidos pela internet são diferentes daqueles oferecidos pela e-drugs. Segundo ela, a internet proporciona ao usuário a possibilidade de ampla interação com diversos estímulos.

— O indivíduo pode permanecer horas na internet durante as quais ele ouve música, vê filme, se atualiza sobre notícias de seu interesse, fala ao telefone, joga seus games preferidos, mantém-se conectado e em contato com outras pessoas através das redes sociais, entre outras possibilidades que a rede oferece — relata.

As e-drugs, no entanto, seriam uma possibilidade a mais dentro do universo maior de estímulos que a internet disponibiliza para seus usuários. Essas drogas oferecem um tipo de estímulo específico e são buscadas para a obtenção de um efeito também muito específico.

— Outro aspecto é que a utilização exige preparo e concentração na tarefa de forma exclusiva. Por exemplo: os sites recomendam que o indivíduo não interrompa a audição do arquivo sonoro, pois isto atrapalharia a obtenção do efeito desejado. Assim, podemos supor que as e-drugs exigem que o indivíduo as utilize apenas em determinadas situações, enquanto a internet está acessível de forma fácil, a todo momento, em qualquer lugar — pondera.

Quando a internet passa a ser uma doença

Alessandra defende que o uso da internet, assim como qualquer outro estímulo em excesso, pode causar dependência. E é preciso estar atento para isso. Muitas vezes, no entanto a pessoa não consegue perceber sozinha que está passando dos limites e precisa da ajuda dos familiares e amigos para poder identificar o problema e buscar ajuda.

— Quando o uso da internet passa a apresentar características de compulsão, interferindo de forma negativa nas demais áreas da vida do indivíduo, é hora de buscar ajuda. A pessoa permanece tempo excessivo na internet, não conseguindo colocar limites e pode se sentir muito mal, irritável e ansiosa, caso esteja numa situação onde se veja privada de usar a internet — alerta.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)