Sem atenção

Jornal de Londrina
Falta de psiquiatras na rede pública municipal é apenas dos problemas enfrentados no atendimento psicossocial.

A crise da saúde pública em Londrina, é também a crise da saúde mental. Nos postos de saúde, principal porta de entrada do atendimento, faltam psiquiatras – o cargo não existe no quadro funcional da Prefeitura de Londrina – e não existem procedimentos consolidados para encaminhar, classificar, tratar e atender pacientes, protocolos hoje comuns na rede de saúde convencional, segundo fontes ouvidas pelo JL.

Nos últimos quatro anos, os três Centros de Atendimento Psicossocial de Londrina perderam seis psiquiatras contratados em convênio com o governo do Paraná. Após dois testes seletivos, nenhum foi contratado por falta de interesse de profissionais. Atualmente, há apenas um psiquiatra no Caps Adulto, que atende a demanda de urgência e emergência de Londrina e outros 21 municípios. A todo instante, pacientes em crise de abstinência de drogas, em surtos ou aparentando descontrole psíquico-mental, chegam à unidade para serem estabilizados. “E esperam seis horas na fila”, lamenta Paulo Donizete de Oliveira, presidente interino da Associação Londrinense de Saúde Mental.

Como na Prefeitura o cargo de psiquiatra não existe no quadro funcional, nada foi feito. O único profissional contratado é funcionário do Estado. Sem psiquiatras nem mesmo para atender emergências, no Caps AD (para dependentes químicos usuários de álcool e drogas) há um clínico geral com formação na área, mas sem título de psiquiatra. “Pelo tipo de demanda, necessitamos com certeza de um psiquiatra ali”, diz a diretora de saúde mental da Secretaria de Saúde, Ângela Lima.
“Nem o básico”

“A saúde mental precisa crescer na cidade. O que temos é mesmo muito pouco, nem o básico. Nem o paciente em crise tem atendimento”, reconhece o secretário de Saúde Agajan Der Bedrossian. Uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na zona oeste, a ser inaugurada no ano que vem, terá dois leitos para internar pacientes em crises agudas provisoriamente – mas é uma gota no oceano do problema. Além disso, a cidade precisa de pelo menos mais um Centro de Atenção Psicossocial, além das três atualmente em funcionamento, que atuam como “postos de saúde” para o atendimento básico à saúde mental.

Concorrência
Paulo Donizete de Oliveira, militante do setor de saúde mental, opina que ainda falta muito para o poder público abandonar o que chama de “depósitos de gente” – clínicas psiquiátricas públicas com vagas pelo SUS. “Até o momento, a principal política para o setor ainda é gastar para internar”. Na “concorrência” da saúde mental com as outras áreas da saúde, orçamento e planejamento geralmente nem chegam a ser discutidos. “Enquanto sobram vacinas da gripe A, faltam medicamentos básicos de controle para pacientes com saúde mental comprometida”, constata.
Oliveira argumenta que a saúde mental perde para todas as outras doenças e problemas que chamam mais atenção da sociedade. “O Hospital Universitário em tese tem cinco vagas para pacientes em desintoxicação (dependentes químicos). Mas nunca são usadas porque se faltam vagas para outros atendimentos, a saúde mental é a primeira a ser cortada.”

Atendimentos preventivos e contínuos evitariam crises

O Plano Municipal de Saúde, que descreve o setor e estabelece metas a serem cumpridas entre 2008 e 2011, revela que o atendimento psiquiátrico em hospitais de Londrina foi – e de acordo com a Secretaria de Saúde ainda é – a segunda causa entre as 10 que mais levaram londrinenses para internações.

Em 2007, entre as quase 43 mil pessoas internadas, 3.769 foram pacientes psiquiátricos em diferentes níveis de severidade. Para internar esse contingente, a Prefeitura de Londrina e o Sistema Único de Saúde (SUS) gastaram R$ 3.071.594,14 dos R$ 42,5 milhões aplicados em internações.

Na cidade, apenas o Hospital-dia Maxwell e a Clínica Psiquiátrica, que são particulares, têm leitos pelo SUS – respectivamente com 30 e 200 vagas. Na Vila Normanda, também particular, são 65 vagas pelo SUS. Neles, a média de gasto com pacientes públicos é de R$ 814,96 por internação/ano. Trata-se do maior investimento hospitalar intensivo entre diversas enfermidades e traumas.

Os elevados e crescentes gastos com internações, entretanto, longe de revelar uma preocupação com o setor de saúde mental por parte do sistema público, escondem a outra ponta do problema: a inexistência da prevenção e monitoramento dos pacientes. Especialistas são firmes em afirmar que atendimentos preventivos e contínuos – como do Programa Saúde da Família (PSF) – evitariam as crises que levam um batalhão de pacientes à internação.

“A política nacional valoriza a não internação e incentiva os hospitais menores para acabar com as colônias psiquiátricas. Quanto mais internações, significa que os recursos anteriores na comunidade, como o Caps, falharam ou não deram conta”, constata Angela Lima, diretora de saúde mental da Prefeitura. “Temos que fazer o caminho inverso e investir no tratamento antecipado.”

Mais profissionais ajudariam a melhorar filtragem

No Caps I, onde crianças e adolescentes são atendidos no único serviço específico para essa faixa etária, há uma equipe com quase 15 profissionais entre psicólogos, educadores, enfermeiro e neurologista – e apenas um psiquiatra. A tarefa é igualmente grande: são 350 pacientes, adolescentes e crianças em tratamento. Chegam indicados por escolas e serviços sociais municipais que identificaram comprometimento da saúde mental por drogas ou outras doenças. São atendidos em três modalidades diferentes, de acordo com a complexidade de cada caso. Pelo menos 20 casos novos chegam toda semana à unidade.
“Londrina tem muitos psiquiatras.

Infelizmente não estão trabalhando aqui”, lamenta Letícia Grenteski, psicóloga-coordenadora técnica do Caps Infantil. “Não só faltam psiquiatras em Londrina. Falta um serviço ambulatorial de rotina, de longo prazo, não necessariamente apenas para momentos de crise do paciente”, explica a coordenadora. “As unidades de saúde poderiam fazer antes uma filtragem melhor se tivessem psiquiatras. Mas não há profissionais”.

“Somos os patinhos feios da saúde”
>> “Se uma pessoa normal não consegue ficar seis horas esperando por um atendimento, imagine quem tem problemas mentais sérios”, diz Paulo Donizete de Oliveira, presidente interino da Associação Londrinense de Saúde Mental. A Ong atua no controle social do sistema com aval oficial como forma de evitar a volta aos manicômios-depósitos que marcaram as décadas de 80 e 90 no Brasil.

Oliveira se descobriu alcoolista há 10 anos. Hoje faz terapia de manutenção no Caps e trabalha na Prefeitura. Militante do setor de saúde mental, Oliveira opina que ainda falta muito para o poder público abandonar o que chama de “depósitos de gente” – clínicas psiquiátricas públicas com vagas pelo SUS. “Até o momento, a principal política para o setor ainda é gastar para internar”. Na “concorrência” da saúde mental com as outras áreas da saúde, orçamento e planejamento geralmente nem chegam a ser discutidos: “Enquanto sobram vacinas da gripe A, faltam medicamentos básicos de controle para pacientes com saúde mental comprometida”, constata.

Ele argumenta que a saúde mental perde para todas as outras doenças e problemas que chamam mais atenção da sociedade. “O Hospital Universitário em tese tem cinco vagas para pacientes em desintoxicação (dependentes químicos). Mas nunca são usados porque se faltam vagas para outros atendimentos, a saúde mental é a primeira a ser cortada.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)