Uma fumaça destruidora

Rede Bom Dia
Mães e pais relatam drama para tentar salvar filhos de vício do crack.

O que sente uma mãe ao ver seu filho entregue ao crack? De onde vem a força que as faz suportar a dor? Essa dor um dia passa? E a vida, continua? Quem pode responder a essas perguntas já viveu maus bocados. São mulheres que lutam pela recuperação de seus filhos, fazem o que podem e o que não poderiam e se indignam com a estrutura pública oferecida aos dependentes químicos. As histórias são muitas e diversas, porém todas tem a tristeza como ponto em comum. Você está preparado?

Maria – nome fictício – abre o portão com delicadeza. “Já vou meu bem”. Com um abraço forte e cheia de doçura nos recebe em sua casa. Quase dá para esquecer que a história que ela irá nos contar é amarga. Tão amarga que nos faz questionar: De onde vem tanta doçura? Dona Maria, no entanto, afirma: “Eu sou feliz! Busco a felicidade para continuar vivendo”.

Há 16 anos ela luta contra a dependência química de seu filho. O caçula de uma dupla de meninos. Hoje, ele está com 32. Começou a usar maconha aos 16 e crack aos 19. Como saldo de tantos anos de dependência, Maria conta anos de depressão, a aquisição de mal de Parkinson – a qual ela atribui os muitos momentos de nervosismo pelos quais passou – e o estado civil de viúva. Há cinco anos seu marido, que era militar, se suicidou dentro da própria casa. “Ele não aguentou ver o filho usando aquilo que ele mais combateu durante a vida toda”. A família, assim, ficou estilhaçada. Pedro – nome fictício – e o irmão não se falam mais, depois de incontáveis brigas violentas. “Eu entendo o irmão dele. Eu sou mãe e amo meus filhos sobre todas as coisas. Por mais que o irmão ame, ele não suporta tanto sofrimento”, justifica, com compreensão invejável a mãe Maria.

O percurso de Pedro pelo mundo das drogas foi longo. Quando Maria percebeu que o filho estava envolvido com maconha, lá na fase da adolescência, achou melhor afastá-lo de Bauru. Afinal, nas escolas daqui o menino não estava indo bem. Colocou o filho em um colégio de Maringá e esperou sua recuperação: “Eu coloquei ele no melhor colégio de lá. Achei que seria melhor”. O resultado, no entanto, não chegou perto do esperado. “Ele voltou usando roupas diferentes. Tatuagens. Não era mais o mesmo”.

As razões que teriam levado o filho para esse mundo – assim como muitas das outras mães – Maria não sabe dizer. “Ele sempre foi um menino bom. E me disse que entrou nisso porque quis. Ninguém levou ele”. O fato é que a partir daí a luta da família nunca mais parou. Pedro saía de casa e passava dias sem dar notícias. Arrumava brigas. Casou e descasou. Gastou muito dinheiro. Sem opções no atendimento público, Maria perdeu as contas de quantas vezes internou Pedro em clínicas particulares. “Ele conheceu o Brasil de clínica em clínica”. Nada no entanto parecia resolver. Em uma das vezes que Pedro foi embora, no entanto, Dona Maria não o buscou mais. Foram cinco meses na rua, sem dar notícias, até a volta surpreendente. “Ele virou mendigo. Um menino que de tão bonito desfilava”.

Há alguns meses atrás bateu a sua porta um casal e um menino de sete anos. “Ele estava tão magro que não reconheci meu próprio filho”. Era Pedro e uma companheira que conheceu nos tempos em que andou pelas ruas. Os três pediam para entrar. “O meu coração de mãe não conseguiu negar. Coloquei para dentro”. Depois de vestir e alimentar, dona Maria quis saber qual era a intenção do filho. “Ele cansou de sofrer. Quer mudar de vida”.

Ela, então, alugou um apartamento para os três e adotou o menino como neto. “Ele me chama de vovó. Nasceu na rua. Não sabia o que é morar em uma casa com paredes. Eu já o amo”.

Não dá pra contar quantas vezes Dona Maria já encheu o coração de esperanças e quantas vezes elas já se foram. “A gente sempre acha que eles vão se recupar”. Dessa vez não é diferente. Com lágrimas nos olhos – lágrimas que parecem não secar ha trinta e dois anos – ela garante: “Dessa vez ele vai sair dessa. Só precisa de um emprego. Se alguem arranjasse um emprego pra ele”.

A verdade é que ela sente um tipo de amor que só as mães – e mais ninguém no mundo – entendem. Amor esse que, para ela, é inquestionável. E ai de quem ousar tamanha infâmia: “É claro que eu o amo! Se eu não amasse, com certeza já teria desistido de tudo”. Assim, ela reafirma e mata os pessimista de inveja: “Dói. Dói de um tanto que eu não sei nem como explicar. Mas, eu busco ser feliz!”.

Atendimento
Dilma Félix Sabino, 55 anos, sempre quis ser mãe. Foram sete anos de tentativas para engravidar até que veio o primeiro filho. “Sempre foi um menino educado e bom. Do tipo que dá a roupa dele se alguem estiver com frio”. Ela não imaginava o que esperava o aluno que só tirava 8 e 10 e parecia uma criança muito feliz. Aos 15 anos, seu filho começou a usar crack. Ela acredita que aos treze ele já tinha fumado maconha. “Ele ia para o termas em Piratininga e voltava com os olhos muito vermelhos. Quando eu perguntava o que era ele dizia que era o cloro da água. Como a gente é besta!”.

Hoje, o menino já é um homem de 30 anos, porém, o problema continua o mesmo. Dilma tem o apoio do marido, Marco Antônio Sabino, 61. Um pai que, assim como ela, não se conforma com os rumos que o filho tomou. Em 37 anos de casamento, os dois não conseguem entender quando se diz por aí que o que leva alguém para o vício é a falta de estrutura familiar: “Meus filhos sempre tiveram de tudo. Nós somos uma família linda”.

A mãe, entre lágrimas, fala que tem dias que não sabe o que quer: “Tem momentos me que eu quero bater nele. Outros, eu quero morrer e outros ainda eu quero que ele morra! Porque assim, ele não sofre mais. É uma dor que não dá para explicar”.

Dilma e Marco não sabem dizer qual dor é a maior: “Destruiu a nossa família. O dependente fica descontrolado. Não sabe o que faz. Ele vendeu metade da nossa casa!”. O comportamento do filho é o mesmo relatado por dona Maria. “Ele sai e passa dias fora. Vende coisas de casa. Faz de tudo pela droga”. O que motiva o casal, no entanto, é a vontade de ver o problema eliminado. “O meu filho só se cura por milagre, mas nós podemos ajudar as outras famílias que passam por isso”. Eles ainda acreditam que muitas famílias tem vergonha de expor o caso, mas garantem que Bauru tem uma epidemia de usuários de crack.

O que mais angustia Dilma e Marco é a precariedade no atendimento público ao dependente químico. Para eles, Bauru não tem estrutura para atender os usuários. “O atendimento é muito demorado. Não tem como esperar. Tive que internar o meu filho duas vezes e gastei um dinheiro que eu não tenho”. Eles criticam ainda a falta de leitos públicos na cidade e o próprio atendimento oferecido pelo Caps – AD (Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas ) não são suficientes. “O meu filho foi e não quis mais voltar”.

Para os pais, a cidade precisa mudar a “política” como trata o dependente. “O usuário precisa de um atendimento completo. Internação, acompanhamento psicológico duradouro, assistência social. Porque senão, o trabalho é em vão”. Apesar de preparados para o pior, eles sonham com a recuperação do filho.

A reclamação é a mesma de Paula – nome fictício. Há 4 meses seu filho Hugo – nome fictício – está limpo. A solução, no entanto, veio do seu próprio bolso. “Eu fiz empréstimos. Vendi coisas. Tudo o que pude”. O filho ficou em internado em uma clínica particular em Minas Gerais e a mãe é só esperanças: “Eu tenho fé que ele vai sair dessa. É a coisa que eu mais quero”.

Hugo tem 29 anos. Usou maconha desde a adolescência, porém a mãe só descobriu o seu envolvimento com as drogas há quatro anos. Hoje, ele é dependente químico em busca de cura. Para Paula, o que o levou para esse mundo foram as amizades. “Todos os amigos dele estão envolvidos”. Além disso, ela tem outras suspeitas. Hugo é filho de pais separados desde os 9 anos e mãe acredita que a separação sempre mexe com a cabeça do menino. “O menino precisa da figura do pai. Precisa desse contato”.

As histórias que ela tem para contar sobre os 4 anos em que luta para livrar o filho do crack, preenchem livros inteiros. Entre sumiços e a venda de coisas da casa da mãe, Paula vai desenhando uma realidade de pânico. “A gente faz de tudo. Até comprar droga na boca, tem mãe que acaba indo. Quando eles precisam da droga, ficam descontrolados”.

Foi em Deus que Paula encontrou forças para superar os problemas. Foi em Deus também que Hugo descobriu um caminho para a cura. Ambos acreditam que o problema irá terminar. A mãe, mais do que tudo, vive para ver essa vontade concretizada. “Eu tenho muitos sonhos para o futuro do meu filho. Ele há de realizar todos eles”.

Falta atendimento?
Em Bauru, o atendimento aos dependentes químicos é fornecido pelo Caps – AD, que realiza o tratamento ambulatorial de usuários de álcool e outras drogas, na faixa etária a partir dos 12 anos. Através de avaliação o centro determina tipo de tratamento a qual deve se submeter o paciente. As opções de tratamento oferecidas são avaliação médica e psiquiátrica/clínica, grupos terapêuticos, oficinas e visitas domiciliares.

Em casos de necessidade de internação para desintoxicação, através de conduta médica, o paciente é encaminhado ao Hospital Psiquiátrico Tereza Perlatti, em Jaú, e internação social, em comunidades terapêuticas como Bom Pastor e Esquadrão da Vida. Até dezembro de 2010, mais de 75 pacientes esperavam por uma vaga de internação no Hospital Psiquiátrico em Jáu, que tem disponíveis apenas 49 leitos.

Também é possível obter atendimento através das Comunidades Terapêuticas que, até dezembro de 2010 eram administradas pela Sebes (Secretaria Municipal de Bem Estar social) e a partir de janeiro passaram a fazer parte da Secretaria Municipal de Saúde, como fez questão de frizar o Secretário de Saúde, Fernando Monti.

Também está em processo no município a aquisição de 65 leitos de internação no Hospital Manoel de Abreu e mais 35 em Botucatu, sendo que 5 dos leitos de Bauru serão disponibilizados a partir desse mês.

Como projetos, o secretário citou a ideia da instalação de um Caps 24h, além da parceria com entidades.

Secretário
O secretário de saúde Fernando Monti demonstrou alteração quando questionado sobre o atendimento oferecido pelo município aos dependentes químicos. Para ele, Bauru tem profissionais altamente capacitados para tratar da dependência química, porém a “velocidade da demanda é maior do que os profissionais”. Ele acredita que “há uma quantidade imensa de famílias que tem baixa capacidade de confrontar as drogas”. A reclamação das famílias por internação, no entanto, seria a ´alternativa mais simples encontrada por elas”. “A opção mais simples para a família é a internação. O usuário fica isolado das drogas e o problema é retirado das famílias”.

Ele afirma ainda que o Brasil sofre um fenômeno de substituição das drogas: “Nós não estamos aumentando o número de usuários. Estamos trocando as drogas. Quando o indivíduo usava só maconha as famílias ponderavam, porque é uma droga que não causa tantos problemas. Com o crack não é assim”. Para ele essa seria uma das justificativas para o aumento da demanda em Bauru. “O atendimento não consegue acompanhar a velocidade da demanda”.

Sobre a internação, ele afirmou que o municipio está buscando ampliar e melhorar esse recurso. “A demanda para o leito depende de como o paciente se encontra. Essa avaliação é feita pelo Caps”.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)